quarta-feira, 3 de agosto de 2016

QUANDO UM HOMEM SE PÕE A PENSAR


Ao fim da tarde de Agosto, quando a cidade se espreguiça no seu tédio de Verão, o acolhedor e fraterno espaço da Associação José Afonso, em Lisboa, encheu-se para mais um tributo de lembrança ao autor de “Grândola, Vila Morena”, não uma evocação com a marca daquelas liturgias póstumas que o Zeca detestava, mas com o empenho de vida e de ousadia de pensamento, que é a grande convergência utópica e de futuro que a sua obra revela. Num tempo em que há palavras que se tornaram quase matéria de delito ou circulam apenas em voz murmura – utopia é uma delas! --, foi bom sentarmo-nos à mesa fraterna do Zeca, uma mesa cheia das suas memórias, das suas canções, da sua poesia, da sua exemplaridade cívica, para avaliarmos ou debatermos a dimensão de utopia e de sonho que o seu mundo comporta. E era com se o estivéssemos a ouvir: “Vejam bem/ Que não há/ Só gaivotas/ Em terra/ Quando um homem/ Se põe/ A pensar”.

Já me tem acontecido olhar uma dessas árvores monumentais, com o tronco largo de muitos anos, às vezes tantos tantos que se lhe perdeu o conto, com os altos ramos que crescem para o céu, onde os pássaros fazem sinfonias (se calhar como o rouxinol de Keats!), e pensar no cantor da matinal canção, numa metáfora elemental, como se a árvore milenar se transformasse na figura do Zeca, no gigantismo da sua postura cidadã, no rosto que porventura (imaginava eu) poderia conter em muitas linhas a expressão da sua aventura criadora. E via então nas poderosas raízes, que já saíam da terra, a relação telúrica e afectiva do Zeca com uma pátria e o seu povo, mas também com o mundo, que o seu olhar e as suas canções alcançam projecção universal, porque são únicas e irrepetíveis. Foi à volta de tudo isto que ontem discorremos na AJA, o João de Melo, o Francisco Fanhais e eu, com a moderação de Anália Gomes.

Havia uma inquietação comum a todos: que cantaria hoje o Zeca, que diria ele, sobre este mundo que vivemos, sobre este país (o Portugal da precariedade e do desemprego, da pobreza e dos suicídios, da esperança assassinada) e desta Europa em que estamos, mera serventuária do catecismo ultraliberal, marioneta do capitalismo e da máquina de infelicidade colectiva? Todos de acordo: muitas das canções do Zeca já “avisavam a malta” sobre o triunfo das desigualdades, sobre a indignidade transformada em política, e, sobretudo, sobre a urgência de ganhar consciência social e de agir para transformar a realidade.

Foram duas horas de conversa partilhada. Houve canções do José Afonso (belíssimas vozes juvenis) e houve, como há sempre, o Francisco Fanhais, com o seu “empenho de coração” e o seu sorriso de bondade, a espalhar a mensagem do Zeca - intemporal na utopia e no sonho de um mundo melhor.

1 comentário:

  1. Utopia

    Meu tempo passou,
    ficou perdido algures
    no Século XX,
    e como dói.

    Tento avançar,
    mas sinto que vou
    em contramão,
    no contra-senso da vida.

    Espero mudanças para melhor,
    para uma vida mais condizente
    com o estado do coração,
    este que bate de lado.

    Estes tempos,
    no modernoso Século XXI,
    tudo é muito acelerado e
    não preza a vida e o prazer de usufruí-la.

    Gostava de passar estes tempos
    longe de tudo isto,
    contra tudo isto,
    perdido no meu tempo e espaço.

    Não sei se vou
    ou deixo de ir,
    porém, fico
    perdido em minha utopia alhures.

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