quarta-feira, 24 de agosto de 2016

UMA FLOR DE SAUDADE PARA O DAVID!


 

 Na aventura cósmica que é a vida, talvez nada nos confronte tanto, no plano interior, como a morte de um jovem que, pela sua própria natureza, por uma maneira de ser superior, abraçava o percurso existencial como uma dádiva que ele vivia com plenitude esfusiante, feita de alegria e despojamento, numa pedagogia do viver que parecia a razão de todos os seus instantes. Foi isso, essa comunhão com o respirar da vida, que me povoou o pensamento, quando um amigo, pela manhã, me informou que o David Vaz, ele que fez sempre tantas viagens, próximas e longínquas, tinha partido para a última e derradeira, aquela tão longa e definitiva em que uma pessoa deixa de ser vista.

Estas notícias, surgindo embora com o carimbo de esperadas, deixam-nos sempre atónitos, e, quando as interiorizamos, apetece-nos porventura gritar que o destino ou lá o que for pode ser, afinal, uma brutal injustiça. Uma pessoa não nasceu para isto! É por isso que a invenção da ideia de que morrem cedo aqueles que os deuses amam, me pareceu sempre um relativismo excessivamente fácil em relação à vida ou uma desculpa pouco convincente para os que gostam de acreditar em deuses loucos manipuladores de destinos comuns.

Mas o David, da geração dos meus filhos, foi sempre um jovem muito especial, que trocou a formação universitária que alcançou com brilhantismo, por uma paixão que nele foi sempre a vivência feliz dos dias que andou. Tinha, sobre desporto, uma informação tão ampla quanto é possível ter, sabia tudo o que havia a saber sobre o Triatlo ou o ciclismo, era especialista e assessor de Federações e comentador dos grandes acontecimentos desportivos nessas disciplinas, nas televisões e nos jornais, designadamente na RTP e na Sportv. Aí o víamos, com o seu ar descontraído e feliz, a explicar o desporto por dentro, a fazer uma certa pedagogia da festa que o desporto pode e deve ser. Andou pelos Jogos Olímpicos e por Campeonatos Mundiais, gostava, acima de tudo, da Volta a França, onde foi já doente, como se quisesse despedir-se do Alpe d’Huez. Há meses, contou-me o pai, o querido amigo Álvaro Roxo Vaz, ainda fazia planos de lá voltar, este ano! Mas nos últimos meses, o cerco da doença, tornou-se lâmina e o David, conhecendo-se a si próprio, começou a desistir da sua longa batalha de resistência.

Volto atrás no tempo. Foi nas alturas da Serra da Estrela, onde gostava de subir pedalando a sua bicicleta, que o sintoma fatal de um tumor no cérebro se revelou. O David iniciou então, nos labirintos hospitalares, um tempo em que parecia suplantar o drama que estava dentro dele e dos mais próximos e dos amigos, que tinha muitos, com uma coragem extrema, quase a dizer aos outros que não se preocupassem.

Passei a falar muito com ele, quando vinha ao Fundão matar saudades da terra que ele amava como poucos, e a conversa de café e de esplanada, girava muito, numa cumplicidade activa, sobre a complexidade da vida e as suas sombras, sobre as partidas que o corpo, o nosso fiel companheiro, nos prega surpreendentemente. Havia tempo para sorrisos, e lembro-me bem: o David despedia-se sempre com um aceno de esperança, que eu olhava como vontade insólita de resistir.


Agora, que ele nos deixou (fica a memória boa), imagino o David Vaz nas suas viagens por montes e vales, enchendo os olhos de paisagens, vivendo e respirando momentos que o acompanharam, imagino-o nos grandes areópagos do desporto mundial a compartilhar a festa, e vejo-o, muito nitidamente, a recordar-se do Fundão, que era o seu essencial universo de afectos.

13 comentários:

  1. Parabéns pelo texto.
    Obrigado David, até sempre.

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  2. Excelente texto de homenagem ao seu amigo.

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  3. Soube neste momento do triste acontecimento, ao ler este texto a homenagear um jovem Amigo, simpático a cheio de vida. Lembro com saudade alguns momentos que partilhamos juntos, especialmente em triatlos e outros. Olímpio Guedelha

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  4. Que no outro lado da vida continue a espalhar a serenidade e simpatia com que brindou quem com ele se cruzou nesta vida. Cruzei-me durante cerca de um ano com este rapaz impecável, competente e dedicado. Foi o suficiente para não me esquecer dele mais de 10 anos passados. Ainda a assistir aos jogos olímpicos me perguntei por vezes por onde andaria, se o ouviria nos comentários das provas que sabia tão bem comentar... Hoje, não por acaso, cruzei-me com 'ele' no facebook.:: ou melhor, com a triste notícia da sua partida. Fiquei em estado de choque! Os bons não deviam partir tão cedo... Mas partem e ganham o céu e os corações de todos os que o guardam na memória. A única taça do mundo de triatlo que decorreu em Portugal deve-lhe muito, a sua entrega, a sua dedicação r a sua competência. E eu sou a maior testemunha disso mesmo... Este texto é uma bela homenagem. Que a pátria do espírito o recompense com serenidade e paz. AC

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  5. Bonitas palavras de homenagem e que confortam também a tristeza!

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  6. Um texto fantastico e tão comovente. Bolas q aperto no peito. Um bem haha para quem nos ajuda a expiar a alma desta forma.

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