quinta-feira, 18 de agosto de 2016

UMA HISTÓRIA DE LUÍS SEPÚLVEDA

Na memorável sessão da entrega do Prémio Eduardo Lourenço a Luís Sepúlveda (ver Notícias do Bloqueio) e da conversa de duas horas que, à noite, na Biblioteca Eduardo Lourenço, perante um público a um tempo entusiasmado e surpreso, mantive com o escritor, duas histórias registei para o arquivo da memória. Hoje, quero oferecer a primeira aos meus Leitores. Depois contarei a outra, que é sobre o mistério da Literatura.
Na primeira, o diálogo girava à volta daquele triste mês de Setembro de 1973, no Chile, que se tornaria ano de todos os terrores. O autor de “O Velho Que Lia Romances de Amor” contou então que, depois do golpe de Pinochet, esteve longos meses preso, com mais de mil companheiros num daqueles campos de concentração do ditador, afastado q.b. da cidade de Santiago, onde continuava a “chover” violência, tortura e morte.
O calendário continuava a rodar, o tempo parecia suspenso para quem sofria o martírio das grades, os dias indicavam Abril e promessas de Primavera, lá fora. Contou, então, Luís Sepúlveda: “Um dia, ao contrário do que era regra, os oficiais e soldados que vigiavam o campo não tinham vindo infernizar a vida dos prisioneiros, não havia “trabalhos especiais”, ameaças e gritos de comando, aquilo que nesses lugares não são outra coisa senão redutos de ignomínia, contra a dignidade humana. As horas passavam e persistia uma estranha serenidade, quase um silêncio, uma calma que causava em nós uma grande curiosidade”.
Isto lembrou o escritor, que depois acrescentou o capítulo final à sua história. ”Quando falei com um graduado mais razoável, perguntei-lhe:
-- Qué pasa?
Muito seco, respondeu:
-- Vos otros hábeis ganado. Hay una revolución en Portugal!

Era o 25 de Abril. E Luís Sepúlveda: “Noutro continente, lá longe, a muitas milhas de distância, uma ténue luz de esperança se abria para a nossa condição de prisioneiros”. 

1 comentário:

  1. Que momento fantástico que, na distância do tempo, nos emociona e nos leva a ter tanta saudade de Abril! De um Abril Global... Obrigada Estimado Fernando.

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