segunda-feira, 1 de agosto de 2016

ZECA AFONSO: A IMAGEM EXACTA DA IGUALDADE

Se há figura intemporal do século XX português, o Zeca Afonso singulariza-se na memória viva do que foi a sua acção como criador e como cidadão comprometido com o seu tempo. Por isso, celebrar o Zeca, evocando a força das suas canções e dos seus poemas, é sempre não só pensar o país como um território de fraternidade, mas pensarmo-nos como personagens ou autores em busca de um tempo novo, de felicidade plena e de justiça. É a pensar nessa herança e pertença colectiva do Zeca, que amanhã, pelas 19 horas, estarei no Núcleo de Lisboa da Associação José Afonso (AJA) juntamente com o João de Melo e com o Francisco Fanhais, para falarmos de como ele, no universo das suas canções, nos transmite sempre uma dimensão de utopia que é inseparável do sonho e da humanidade.
O pretexto celebratório é o aniversário do Zeca, mas o autor de Grândola, Vila Morena -- e só ele poderia ter escrito a canção que se tornou hino da Revolução do 25 de Abril! --, revive todos os dias, tornou-se comum a todas as gerações e os que se movem no mundo da música continuam a beber inspiração no rio, tão diverso e multímodo, da sua obra criadora. Essa força, que vem da inquietação persistente por um mundo melhor, sem os abismos das desigualdades ou as negações da dignidade humana, mantém intacta a pureza das suas mensagens, a expressão lírica de muitos dos seus poemas (também é preciso falar dele como poeta) e a denúncia épica do fascismo à portuguesa nas canções de intervenção.
Ao Zeca, com inteira propriedade, se pode sobrepor o verso de Carlos de Oliveira: cantar é ir ao encontro das cidades futuras. Talvez aí esteja contida a dimensão de utopia de que amanhã, à volta do Zeca Afonso, iremos falar na AJA. Haverá palavras e música, canções, o mundo de afectos que todos os dias continua a fazer-nos pensar no cantor do dia claro e a convocar-nos para um tempo em que cada rosto seja a imagem exacta da igualdade.

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