domingo, 18 de setembro de 2016

LITERATURA E FUTEBOL

Quem tem alguma memória do que se vai fazendo em literatura, à escala mundial, não terá muitas dúvidas da importância que o futebol tomou como “leitmotiv” da criação literária, seja na ficção, na poesia ou no cinema, e, num plano mais imediato da informação, como objecto privilegiado da crónica e da reportagem.
Por altura do Europeu, que Portugal venceu, o “Magazine Litteraire” publicou um interessante dossier sobre a matéria, registando os últimos livros mais relevantes publicados sobre o universo da bola, e, num dos textos, lá vinha a evocação de Camus como futebolista e amante desse desporto e uma foto emblemática de Pasolini, equipado a preceito e com a bola no pé, com uma citação em que o grande realizador dizia que (e estou a citar de memória) depois do cinema e da poesia, o fascínio pelo futebol era dominante. Por cá, lembro sempre o papel de um jornal chamado “A Bola” como escola de leitura e espaço de liberdade, antes do 25 de Abril, onde avultavam as crónicas do meu querido e saudoso Carlos Pinhão e a colaboração de escritores de primeira linha, como Ruy Belo.  
Se hoje estas lembranças vieram ao meu encontro é porque, no âmbito editorial português, para mais num espaço ligado à universidade (Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), se registou um verdadeiro acontecimento, face à forma como estas temáticas têm sido, por preconceito ou pura desinformação, afastadas do espaço académico. Falo do último número de “Textos e Pretextos”, a revista dirigida por Margarida Gil dos Reis, impressa pela A.23, considerada, a par da “Colóquio Letras”, da Fundação Calouste Gulbenkian, entre as melhores publicadas em Portugal. Com “Literatura e Futebol”, a “Textos e Pretextos” cumpre vinte números publicados, repartidos entre autores vivos portugueses ou temáticas autónomas ligadas à literatura, poesia e artes, sempre com um apuro gráfico e uma qualidade de colaboração, que tornam a revista (com muitos números esgotados: lembro apenas os dedicados a Chico Buarque ou a Eugénio de Andrade) num indispensável instrumento de consulta. O mérito da materialização de um projecto tão singular e persistente na cultura portuguesa, tem de creditar-se à Doutora Margarida Gil dos Reis que leva dez anos à frente da “Textos Pretextos”.
Nesta edição de “Literatura e Futebol”, não faltam textos e pretextos surpreendentes para nos convocarem à leitura. Os separadores entre as áreas temáticas (“Texturas – Ensaios”, “Contra-Senha – Testemunhos”, “Variações – Entrevista” e “Gestualidade – Bibliografia”) são marcados por palavras de Carlos Drummond de Andrade, como este poema: “Futebol se joga no estádio?/Futebol se joga na praia,/futebol se joga na rua,/futebol se joga na alma./A bola é a mesma: forma sacra/para craques e pernas de pau./Mesma a volúpia de chutar/na delirante copa-mundo/ou no árido espaço do morro./São voos de estátuas súbitas,/desenhos feridos, bailados/de pés e troncos entrançados./Instantes lúdicos: flutua/o jogador, gravado no ar/- afinal, o corpo triunfante/da triste lei da gravidade.”
Margarida Gil dos Reis explica no editorial que “no futebol, estamos sempre perante duas histórias, o jogo e a vivência humana” e “esta potência do futebol foi aquilo que nos impulsionou a dedicar este volume da “Textos e Pretextos” ao tema “Literatura e Futebol”. Essa dimensão perpassa pela revista que contém belíssimos ensaios de António Sá Moura (“Poesia e Futebol: alguns exemplos”), Norberto do Vale Cardoso (“O Benfica como lição de estética em António Lobo Antunes” – e aqui uma frase do escritor em tempo de “futebol no jogo da guerra”: “E eu masturbava-me no quarto sob a fotografia colorida da equipa do Benfica, na esperança de vir a ser um dia o Águas da literatura”) e Nuno Domingos (“Da poesia e do futebol: José Craveirinha e a situação colonial em Moçambique”).

Particularmente interessantes os testemunhos, sobretudo os de Eric Nepomuceno, que fez um excelente texto sobre “o escritor brasileiro e o futebol escrito”, as histórias de pequeno formato de Gonçalo M. Tavares, ou as narrativas de João Assis Pacheco. Imprescindível ler os excertos das entrevistas a Nélson Rodrigues, de verdadeira antologia.

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