terça-feira, 20 de setembro de 2016

PASTOREIOS DE TRANSUMÂNCIA


FOTO DE DIAMANTINO GONÇALVES
A ideia de uma festa, mesmo quando recente, para ser digna desse nome, mergulha ou deve mergulhar sempre nas raízes que são traços identificadores do território que a determina, e, só assim, a sua  prática lhe conferirá claramente dimensão colectiva. No mês de Setembro, como mais uma vez aconteceu no fim-de-semana passado, há uma boa dezena de anos que se criou, no concelho do Fundão, um acontecimento ligado à transumância, Os Chocalhos, que tem na sua génese os contornos de um Festival com uma forte expressão local de música (não faltam grupos expontâneos), gastronomia, e pasto para os olhos de paisagens físicas e humanas, onde a jóia patrimonial de Alpedrinha é sempre ponto alto de fascínio. Deviam, por isso, no domingo, pelo menos, terem aberto as portas da igreja matriz para os visitantes poderem apreciar o belíssimo monumento, com a imagem notabilíssima do Ecce Homo e o orgão, construído pelo organeiro que fez os da basílica do Convento de Mafra.
Entre as coisas mais espectaculares da programação, a verdadeira âncora do carácter transumante da festa, é a caminhada que, no domingo, a partir do Fundão, se faz com um rebanho, por Alcongosta, pelas dobras da Gardunha, até àquele espaço mágico alpetriniense que envolve o Palácio do Picadeiro e o esplendoroso granito do Chafariz de D. João V. Os rebanhos já não são como eram dantes, grandes e magníficos, mas este, que era pequeno, badalava bem e transportava a carga simbólica de outros tempos. Subimos, pois, à Gardunha, pela memória do caminho romano que conduz às azenhas do Alcambar e foi lamentavelmente destruído ou tapado por alcatrão, sem ter ficado sequer um vestígio à mostra para os de agora e os do futuro.
Gosto destes dias de sol baixo, anunciador do Outono que bate à porta, um sol criador de múltiplas transparências e que abre horizontes desmedidos sobre a Cova da Beira e sobe até às alturas da Estrela e das suas montanhas mágicas. Mergulhados nessas claridades, aí fomos, ao som de chocalhos e de falas comuns às centenas de pessoas que, serra acima, viviam com entusiasmo a geografia de velhas transumâncias, quando os rebanhos desciam das serras para passar o Inverno nas terras quentes da Idanha ou do Campo de Castelo Branco.
PEDRAS COM HISTÓRIA
Voltei a pisar o caminho romano que suavemente desce para Alpedrinha, felizmente ainda com troços intactos, descobrindo-se, a cada passo, horizontes visuais de encher os olhos. Aquelas pedras de mil anos que o trabalho escravo afeiçoou à austera Gardunha, fazendo obras de comunicação à escala de sonhos imperiais de conquista, respiram história, muita história, viveram muitos tempos, por elas passaram legiões, com estandartes ao vento, música e mecanismos de guerra, e as pedras milenárias chegaram a outras idades e aos nossos dias (as que chegaram!) para assistir a outras histórias, como as do povo decerto a acoitar-se na serra para se proteger dos invasores franceses (que em Alpedrinha foram particularmente cruéis) e por elas andou decerto, também, o herói popular Cerinéu, que fez da Gardunha a sua casa, criando ali o seu mito de Robin dos Bosques local.
As pedras têm, por isso, um fascínio muito particular, despertam imaginários, dou comigo a pensar se os legionários não se detiveram um pouco nas suas marchas apressadas para pôr uma mão sobre os olhos e verem as paisagens infinitas que tinham a seus pés. Ai pararam, pararam!, se calhar com o mesmo fascínio meu e teu, que tocou também o coração de outros, seguramente de Adolfo Portela, de Torga, de Jaime Cortezão, de Leite de Vasconcelos ou Orlando Ribeiro, quando se aventuraram pelos horizontes da Gardunha. Caminhar é, de facto, como diz o querido César António Molina, "a melhor forma de pensar" e este andar em que vamos é boa navegação para isso e para a descoberta das grandes e pequenas coisas que são as cores do quotidiano. E, também, para perceber como as relações humanas entre comunidades desfizeram nós de isolamento e solidão permitindo alcançar novas percepções do território para onde a história nos empurrou.
UMA DAS FOTOS DO PAÍS BASCO
Havia, este ano, uma presença cultural do País Basco, onde estes pastoreios de transumância têm vivências mais abrangentes, e foi bom ver a exposição de belíssimas fotografias no Picadeiro ou ouvir as sonoridades bascas. E, havia, sobretudo, sorrisos e alegria, indispensáveis à afirmação do êxito colectivo de uma verdadeira festa. Chocalhos: para o ano há mais!

3 comentários:

  1. As saudades que os seus textos afagam, Caríssimo e Estimado Fernando! Obrigada. Abraço

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  2. Um bom resumo de uma festa com história. Uma vez escrevi alguma coisa sobre a imponência da Gardunha vista assim de uma aldeia histórica. Ficou-me como um mistério.

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  3. Gostei do blogue e do debate aceso ontem na UBI, Fernando. Um abraço.

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