domingo, 11 de setembro de 2016

UM ACENO DE SAUDADE PARA O ESCULTOR

É tão relevante a importância de José Rodrigues nas artes plásticas portuguesas do nosso tempo que envolver a notícia da sua morte na insuportável retórica informativa do empobrecimento do país, parece uma banalidade que o Mestre de todo acharia risível. José Rodrigues tinha, aliás, uma forma de ser e estar que não se comprazia com essas liturgias do elogio “post mortem”, sabendo ele que, durante a vida, a outra morte pelo esquecimento e pelo silêncio, o tocou algumas vezes.
Foi preciso morrer o escultor e pintor, que tanto enriqueceu a arte pública, que tantas vezes deu asas à imaginação para acrescentar, com o seu talento, outras realidades à realidade, foi preciso a inevitabilidade do seu desaparecimento para os chamados meios de comunicação social falarem agora, finalmente, da sua Fundação, onde a arte e os seus ofícios, os desafios da criação e a festa da divulgação cultural.
O que eu guardo de José Rodrigues, ele que se resguardou nas ruínas do Convento de Vila Nova de Cerveira, que requalificou e tomou como habitat da sua ação criadora, é a sua abertura à convivialidade, a tolerância, a alegria com que distribuía a sua arte. Estou a vê-lo, enquanto os olhos não se embaciaram de sombras, a viver os momentos de plenitude de Cerveira, a olhar o Porto, a sua cidade, que ele tanto amou e melhorou com a sua arte, o seu empenho cultural e cívico, o seu desafio de transformar o mundo, à sua escala.
Lembro-me do José Rodrigues no Fundão, com o Eugénio de Andrade, e de, com eles, ter vivido momentos inesquecíveis. E um deles, que não esqueço, foi quando o escultor, pela amizade ao poeta, quis oferecer um monumento à poesia, a instalar no Fundão. Um e outro comunicaram à Câmara esse desejo. Era preciso, apenas, escolher o local e fornecer a cota do terreno, enfim criar as condições de enquadramento urbano para a materialização do projecto artístico. Nunca José Rodrigues recebeu qualquer resposta. E Eugénio, por mais de uma vez, me manifestou indignação pelo facto.
À memória, vêm-me imagens fragmentárias do escultor e pintor, que guardo como espécie de retrato abreviado: os seus traços, as suas linhas sonhadas, as cenografias que eram telas enormes de pintura, os monumentos que levantou do chão, as palavras de afecto que eram a sua caligrafia de amizade. Saudades de José Rodrigues.

1 comentário:

  1. É uma boa notícia saber que existe alguém que ale a pena e é homem. Um daqueles que se vai da lei da morte libertando.

    ResponderEliminar