sábado, 29 de outubro de 2016

COMPRAR FAVORES & TRAFICÂNCIAS

Há cerca de um ano, publiquei aqui um poema de Alberto Pimenta, de 1973. Alberto Pimenta tem uma obra notável, na poesia e no ensaísmo ("O Silêncio dos Poetas" é livro de referência), e toda ela é reveladora de uma crítica sem complacência aos tiques sórdidos da sociedade portuguesa, aos jogos de poder, aos vícios do clientelismo, à engrenagem em que se protegem uns aos outros nas benesses e nos assaltos aos lugares. Já Ribeiro Sanches discorria sobre as dificuldades que tinha o reino velho para emendar-se. É uma acção predatória contra o interesse público e a transparência das instituições, contra o coração da democracia, todos banhando-se no pântano onde há sempre alguns que são mais iguais do que os outros. Por isso, lendo há distância de um ano, o que escrevi, percebo melhor a actualidade de Alberto Pimenta. E apetece-me, por isso, repetir os versos certeiros do poeta:
«Não tem direitos por isso compra favores. Fica a dever favores. Faz favores. Para pagar os favores. Compra novos favores. Fica a dever favores. Faz novos favores. Para pagar os favores faz favores. Paga favores. Gosta assim. Não tem direitos. Prefere favores. Gosta assim. Os direitos não se vendem nem se compram e ele tem alma de traficante».
Alma de traficante, disse o poeta.

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