domingo, 2 de outubro de 2016

O ELOGIO DO DESPOJAMENTO

Quando Jorge Luís Borges escreveu aquele texto fabuloso configurando a vida toda às linhas que formam um rosto, dizendo que essa percepção surge sempre um pouco antes da morte, estava a querer dizer que a materialidade, a posse das coisas, os próprios sonhos de poder, tudo aquilo que imaginar se possa (continentes, tigres, leões), se resume, no final, às linhas lavradas na face, como imagem e síntese da vida. Era, de certa maneira, o elogio de um despojamento que deveria marcar a aventura de viver, um aviso sobre a separação das águas entre o que é essencial e o que é efémero.
Esse texto, a que regresso amiúde, para me pensar a mim próprio, cruzou-se agora com outras memórias. Recuperei uma dessas lembranças para um livro, A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, que agora vou publicar em segunda edição revista e ampliada, quase pronta para o prelo. Passeava com o Poeta pelas ruas do Fundão, como se a poesia fosse o chão do caminho que fazíamos andando. Numa pausa das nossas navegações, Eugénio tocou-me o braço, que era sempre sinal de dizer coisa importante ou um qualquer sublinhado à conversa. Meteu a mão ao bolso e mostrou-me um manuscrito. Era uma carta de Herberto Hélder, que será incluída na segunda edição daquele livro.
-- O que são e o que valem as coisas materiais, Fernando? -- inquiriu. -- O que verdadeiramente conta, o que interessa, é isto!
A carta de Herberto era sobre a antologia  Poesia, que reunia a obra poética do autor de As Mãos e os Frutos, e lá se dizia que o nosso homem de Póvoa de Atalaia era o maior poeta vivo português, ainda estavam o Cesariny e a Sophia.
Não esqueci as palavras de Eugénio e sempre que a elas regresso evoco outras do Poeta, palavras iniciais sobre o despojamento ("de abundante só conheci a água e o vento") tão essencial a todo o seu fazer poético. "Aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias", escreveu naquele texto luminoso em que explica que são as coisas simples que os seus versos amam e exaltam. E aí o temos a falar no seu "desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação" ou na "plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados" e a lembrar ainda "uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração do homem".
Vou ao encontro das palavras de Borges e de Eugénio, e penso no elogio que eles fizeram do despojamento como uma forma superior de alcançar a felicidade, que é quando a serenidade poisa no inventário dos dias.

1 comentário:

  1. O despojamento é uma conquista interior. Ou já se nasce assim, despojado, as coisas no lugar de coisas.

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