quarta-feira, 12 de outubro de 2016

UMA EVOCAÇÃO E ”SAUDADES DE MIM”

É sempre contingente falar dos que nos são próximos, para mais de um irmão querido, e, nesta circunstância de afecto tão especial, não há fenómeno de distanciação que funcione, pois é a emoção que aqui constrói e comanda a fala ou determina a escrita. Acontece que, quase um ano depois de nos ter deixado, o embaixador José César Paulouro das Neves foi lembrado, numa homenagem muito especial, no Palácio das Necessidades (Ministério dos Negócios Estrangeiros).
A sessão, que encheu de colegas e amigos a Biblioteca da Rainha, promovida pelo Instituto Diplomático, foi também pretexto para apresentação da segunda edição do livro (também editado pelo ID), “Rituais de Entendimento”, que Paulouro das Neves escreveu em 2011, em resultado do curso de Direito Diplomático que regera na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. O presidente do Instituto Diplomático, embaixador José Freitas Ferraz, sublinhou a honra que a reedição de “Rituais de Entendimento” significava para a instituição. Trata-se de uma obra que, como o autor explicitou, “pretende evocar períodos significativos da evolução diplomática, e revisitar questões práticas que deparam ao trabalho das embaixadas e dos seus agentes.” O livro, considerado de referência sobre a teoria e a prática diplomática, tem, ao longo de mais de 335 páginas, um precioso registo histórico e cultural, sempre com aquela expressão de erudição amável que era um traço comum do Zé César.
Mas a homenagem da passada semana constituiu uma evocação emocionada da sua personalidade, relevando as palavras proferidas a sua dimensão de diplomata e de cidadão, de homem de cultura e de intervenção cívica. Esse retrato teve grande nitidez no discurso proferido pelo Presidente Jorge Sampaio que destacou o longo percurso de amizade e companheirismo, desde que, em 1961, se encontraram, em Coimbra, quando “o nosso embaixador integrava a lista de esquerda que ganhou as eleições para a Associação Académica”. ”Foi um amigo e companheiro de sempre”, sublinhou o antigo Presidente da República, que lembrou os altos serviços que Paulouro das Neves prestou ao país e marcam a sua biografia como diplomata, e “a sólida e quase inesgotável bagagem cultural” que enriqueciam sempre o convívio. Jorge Sampaio evocou episódios e referiu, mais uma vez, que na visita de Estado realizada a França, pronunciara um discurso na Assembleia Nacional, que pôs o hemiciclo a aplaudi-lo, de pé. ”Quem o escrevera fora o Paulouro!”, disse o antigo Presidente.
Na procura de linhas para um retrato ou para a “narrativa de um homem”, como dizia Herberto Hélder, se inscrevem as palavras de outro amigo, o embaixador António Franco, que lembrou a acção cívica de Paulouro das Neves, a importância do seu trabalho e a sua visão de futuro, quando chefiou o departamento África-Ásia no MNE (“ainda não se falava nos PALOP’s”, disse com ironia António Franco) e deteve-se na brilhante folha de serviços como embaixador, em Maputo, em Madrid, na REPER, em Paris ou em Roma. O embaixador evocou o tempo “absolutamente único, que ambos vivemos no Palácio de Belém, ele como chefe da Casa Civil de Sampaio, o Paulouro como assessor da política internacional.”
Estou a olhar a sessão de Lisboa e o pensamento, que é livre como o vento, viaja para antigamente. Lembro-me do José Cardoso Pires me ter telefonado um dia, muito emocionado, dizendo-me que queria escrever um texto para o JF sobre um amigo que morrera e, dizia ele, era como um irmão (falava de José Rabaça). Era um artigo com lágrimas dentro, que ele intitulou “Saudades de Mim”. Agora, voltei de novo ao texto do autor de “O Delfim”, para dizer que também eu sinto “saudades de mim” porque se perdeu o fio de tempo que foi a vida do Zé César e a sua relação com os outros. Saudades das suas conversas, saudades das suas cumplicidades de escrita (era meu leitor exigente e crítico, e como eu gostava disso, caramba!), saudades das suas pistas culturais, a literatura em primeiro lugar (o Proust, o mais amado dos seus autores!) e logo as pistas de (”Não percas tempo, lê o que vale a pena”, e fazia o inventário dos indispensáveis), as perspectivas sobre os lugares do imaginário (do cinema, da música ou da arte em sentido mais lato), saudades de tudo o que ele me ensinou (influenciou-me decisivamente na escrita) saudades da sua bondade e da sua tolerância, saudades da sua comum humanidade.

Tenho andado no garimpo de textos que mostram a sua rara capacidade de escrita, um estilo onde a música das palavras se combina, muitas vezes, com a acutilância crítica ou a exacta medida da leitura dos acontecimentos para os projetar, às vezes com espantosa atualidade, no tempo. Desde os primeiros textos até àqueles que a censura cortou, escritos com pseudónimos que só eu sei identificar. Material para uma antologia, que dê as suas plurais dimensões, o cronista, o diplomata, o cidadão, os seus multifacetados olhares sobre o mundo. Um livro que prometo para Novembro do próximo ano, para atenuar as “saudades de mim”.

3 comentários:

  1. Ainda bem que o Zé César, se me permite a familiaridade, o incentivou para a escrita. Porque é escrita de qualidade e a usa para mostrar ideias que não devem ficar escondidas.

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  2. Com imensa pena, não pude estar presente nesta merecida homenagem. Uma nota: o diretor do ID é o embaixador José Freitas Ferraz e já não Carlos Neves Ferreira

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  3. Parabéns pela homenagem! Conheci o seu irmão nos últimos meses de vida, quando integrou a Direcção da Associação para os Estudantes Sírios, presidida por Jorge Sampaio. Foi-me apresentado pelo Emb. António Franco, que me disse ser "o melhor de todos nós, diplomatas".
    Pena de não o ter conhecido melhor!

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