quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A ILHA ENCANTADA (S. MIGUEL, AÇORES), NOTAS DE VIAGEM

Talvez nenhum outro lugar, como os Açores, provoque tanto sentimento de exaltação face à exuberância da paisagem. Foi decerto isso que tocou o olhar de Raul Brandão que, em As Ilhas Desconhecidas, exprime uma identificação tão funda com a natureza, com a dimensão telúrica e as árvores e com o mar -- ou não fosse ele o autor de Os Pescadores --, que parece estar sempre confrontado com um "deus desconhecido", numa ligação física à terra, pródiga em oferendas de beleza e emoções estéticas.

Andei por S. Miguel alguns dias, guiado pelas palavras de Raul Brandão, que ali esteve no Verão de 1924, ocasionalmente com Vitorino Nemésio. Os seus olhos colheram tantos prodígios que o Mestre ficou atónito e deslumbrado, confessando: "Pela primeira vez na vida não sei descrever o que vejo e o que sinto". Também esse sentimento porventura me tocou de forma sensível, sabe-se lá se por influência de Brandão, que andei uns dias garimpando nos prazeres da memória, onde tinha arquivado as sensações, indo depois ao encontro de notas fragmentárias de viagem, para a tentativa de uma narrativa pessoal, como todas as que falam de experiências viajeiras e são por natureza íntimas, como é condição do memorialismo.

É verdade que nestas navegações tive sempre comigo a cartografia telefónica do querido António Valdemar que, da história à gastronomia, é autêntica enciclopédia viva dos Açores e designadamente sobre S. Miguel, a sua Ilha. No bornal, levava também, além de Raul Brandão, poesia de Vitorino Nemésio (não consegui O Corsário das Ilhas). Aliás, estranha coincidência foi não ter encontrado nas livrarias de Ponta Delgada um único livro do autor de "Mau Tempo no Canal". A resposta era sempre a mesma: "Não há!". Alguém me disse, com uma ponta de ironia: "Ele é da Terceira e já se vê..."
De qualquer forma, reli o Tabuchi de A Mulher de Porto Pim e o Cristóvão de Aguiar de A Raiz Comovida ou Açores - O Segredo das Ilhas de João de Melo. Pude ler o registo de antropologia cultural de António Valdemar, que é o seu texto sobre "Os escritores de Ponta Delgada", onde explica como a cidade se fez a si própria, desde que Gaspar Fructuoso, no século XVI, a identificou como "solitário ermo, saudoso lugar e pobre aldeia" (informação de AV). Anotei também a percepção sábia de J. Leite de Vasconcelos, quando, em Maio de 1924, visitou os Açores e viu na tipologia do Arquipélago,  através da escrita de "Mês de Sonho", um verdadeiro "laboratório de Portugal", pois o povoamento a partir do zero, ensinou ele, foi construído por "múltiplas gentes", incluindo beirões, que semearam ali muitas das linhas identitárias, incluindo os falares.
Também a mim me tocaram a "irrealidade" que se desprende das coisas, o carácter amável do povo e a "alma das paisagens" (verdes e azúis, azúis e verdes), que se registam a cada passo, sensações que se podem colher avulso nos jardins de Ponta Delgada, como no Jardim Botânico (José do Canto), com a monumentalidade das suas árvores, onde se descobre uma certa exuberância intocável, que me levou a escrever:

Jardim Botânico

Tanto verde à minha volta:
doem-me os olhos
de esperança.

De onde quer que se olhe, subamos aos picos ou andemos à roda, é sempre o mar que baila no nosso olhar (Nemésio: "Ilha: esfinge no meio do mar") cenário de uma aventura intemporal de pescadores e baleeiros, o mar sempre como destino de partidas e de chegadas: cada terra tem o seu cais repleto de saudades reais ou imaginárias diluídas em sonhos desmedidos de ir e voltar. Esse desafio aos limites que o mar profundo impõe é uma presença no fio da história açoriana.

Mas estou em S. Miguel e o tempo é escasso para fazer o inventário dos prodígios, onde ao património natural se alia a monumentalidade do património edificado -- há inúmeras igrejas e ermidas -- mas bastará citar o esplendor do barroco do Colégio dos Jesuítas -- inesquecível o Museu que é hoje o antigo Colégio, com a fantástica talha, a azulejaria e as colecções de pintura e escultura que vieram enriquecer o espaço -- ou as Igrejas de S. José ou do Santo Cristo, o barroco excessivo da antiga igreja da Misericórdia de Ribeira Grande, para só citar alguns exemplos que se cruzam com outra arquitectura monumental de raiz privada.

O que é surpreendente é que, para onde quer que se vá, a surpresa toma conta de nós, como acontece, como aconteceu, num dia esplendoroso de sol, no desdobramento da paisagem, descobrir o fascínio das Lagoas das Sete Cidades. Anotei, no caderno, porventura lembrando-me de versos de Eugénio de Andrade:


Sete Cidades

Há uma lagoa azul
ao lado outra bem verde
Qual escolher?
Melhor 
guardá-las na memória
para as não perder!

Há paisagens com gente dentro, privilégios nascidos das circunstâncias, instantes que não esquecem. Um deles: ter conhecido D. Margarida Hintze, que está ao leme do Chá Gorreana, ter conversado longamente com ela sobre essa cultura, saborear a preciosidade do chá, aprender o processo de produção da raiz até à fábrica, que é um museu único de arqueologia industrial, comportando os vários tempos até à actualidade.
Também ali esteve Raul Brandão, o que não deixa de emocionar. Tenho agora na memória o rosto de D. Margarida Hintze, sempre pontuado de sorrisos, a cordialidade da fala, o "empenho do coração" com que descreve aquele universo tão dentro da "alma" açoriana. É uma lição de história oral, conta saborosas histórias, identifica falares da Ribeira Grande (ah!, os dialectos), fala com entusiasmo de como o Chá Gorreana sobreviveu às crises, a sua dimensão actual na exportação, o fascínio dos turistas que passam a encomendar Gorreana através de porte postal. Penso nesta senhora, que semeia afectos e amizade, que tem uma biografia rica e uma história para contar. Tem uma ironia que torna a convivialidade inesquecível. Aqui, o verbo partir quer significar regresso. 

Caminhar à volta deste paraíso que é S. Miguel, olhar as paredes verdes, tão densas, que emolduram as lagoas, encher os olhos de água e cromatismo, é não pequena benção para os dias andados. A  isto acresce a biodiversidade semeada por todo o lado, as caldeiras, as árvores sem idade, a interrogação sobre o tempo que nos acompanha. Talvez a decifração esteja contida na perplexidade da Lagoa do Fogo, onde foi encontrado um fragmento de cedro que os cientistas dataram como contemporâneo das Pirâmides do Egipto!
Na topografia pelo interior da Ilha, há sempre instantes. Olhei de relance:

Silêncio

Tudo parado
em silêncio.
Na placidez do tempo
vacas suspensas 
na paisagem.

Ou a dimensão humana de um urbanismo levantado do chão. Anotei:

Ilha

Arquitectura de sobriedade:
a torre do campanário
emerge sobre os telhados
das casas.
Presença centenária
-- um vago sinal de igualdade.


Outro momento lavrado na memória: subir ao Pico do Ferro e olhar do cimo a Lagoa das Furnas. Um sol doce prateava as águas, e, lá ao longe, sempre no horizonte, o mar a acenar à vida. Descer a pique, pelo trilho do Pico do Ferro para a Lagoa das Furnas, é fazer caminho andando no fantástico. Por entre densa floresta, com árvores que se elevam para o alto ou se despenham em ravinas, a luz do sol num bailado entre os ramos, aqui e ali a vegetação abre janelas para olharmos campos verdes da cor do limão. Vai-se assim, degrau a degrau, inventados no chão, até que a Lagoa entra pelos nossos olhos dentro. Outra magia!

A mesma coisa pode ser feita na Ponta da Madrugada, onde as árvores vão a pique sobre o mar, mar que não é de verde pinho, mas de outra qualidade, fazendo adivinhar, lá ao fundo, horizontes de infinito. O olhar "azula-se de verde", como no espantoso verso de Pessoa. Para caminhar, um dia...
Algumas vezes dei comigo a ir ao encontro dos versos de Lorca do célebre "Romance Sonâmbulo" que poderiam servir para os Açores, se ele lá tivesse ido: "Verde que te quiero verde./Verde viento. Verdes ramas./El barco sobre la mar/y el caballo en la montaña." 
Essa dimensão acompanha-nos sempre e eu também a tentei descrever poeticamente, às vezes lembrando-me do Outono na Gardunha:

Ponta da Madrugada

Há não sei quantos verdes dentro do verde
Há não sei quantos azuis ao fim da tarde
Há não sei quantas praias à beira-mar
Há não sei quantos sóis que amanhecem
Há não sei quantos ventos ventando o ar
Há não sei quantos olhares que se enternecem
Há não sei quantas praças com jardim
Há não sei quantas fronteiras infinitas e sem fim

Há uma sensação verdadeiramente primordial que toca quem pisa o chão de S. Miguel. É a terra a respirar, a adivinhação do magma: o mar fecha a terra num anel de quente, quentura (estão vivas memórias do drama sísmico), há fumos brancos na verdura, águas quentes a jorrar de fontes que vão para o mar. Essa realidade é uma das mais surpreendentes e um ponto de atracção de grande relevo. No Jardim do Parque Terra Nostra, que é considerado um dos mais belos do mundo, há esse fenómeno fabuloso de quentura, num enorme lago artificial, a água a uma temperatura de 39 graus e duas saídas de grosso volume (a 50 graus ou mais) que oferecem uma natural massagem hídrica. Também anotei:

Terra Nostra

Ainda tenho nos olhos
as estrelas que
caíam na água
e iluminavam
o banho fantástico
na Terra Nostra

É a dimensão fantástica das coisas uma magia do quotidiano de S. Miguel. Às vezes, tomamos caminhos interiores na ilusão de virarmos costas ao mar, e, por momentos, olhamos vales que prolongam a montanha, pastos verdes onde passeiam vagarosas vacas, um silêncio que deve ser comum aos paraísos; mas logo, depois de uma curva, a explosão verde continua e o mar, debruado de vilas piscatórias, vem ao nosso encontro na vastidão do seu mundo. Outra anotação:

S. Miguel

Há tantas cores
na paisagem
meu amor
Há tantas flores
nos instantes
do ardor
que S.Miguel podia ser
a Ilha dos Amores.

Raul Brandão ficou maravilhado com os jardins de Ponta Delgada, agora cidade universitária e moderna. A expressão urbana afeiçoou-se à história e a monumentalidade, bem visível no núcleo das Portas da Cidade e da belíssima igreja matriz, é apenas o sinal de como Ponta Delgada se fez a si própria, na sua caminhada temporal. Há muitas referências a Antero de Quental e também eu andei à volta dos passos da biografia, escrutinando os lugares, da topografia do suicídio ao seu espaço de repouso no cemitério.
Na praça, paredes meias com o Convento onde está o Santo Cristo e bem perto da igreja deS. José, está um simples banco, aquele em que Antero se suicidou. O banco está vazio: há uma rasura total sobre o acontecimento. António Tabuchi, em A Mulher de Porto Pim, tem um capítulo, "Antero de Quental, uma vida", em que reconstitui os últimos passos do poeta, que eu também percorri. Leio em voz alta:

"...Na manhã de onze de Setembro de 1891saiu da sua casa de Ponta Delgada, desceu a pé a íngreme rua cheia de sombra até à Igreja Matriz e entrou numa pequena espingardaria de esquina. Vestia um fato preto e sobre a camisa branca trazia uma gravata presa a um alfinete com uma concha. O proprietário era um homem amável e gordo que gostava de cães e de gravuras antigas. Uma ventoinha de latão girava lentamente no tecto. O armeiro mostrou ao cliente uma bela gravura seiscentista, comprada recentemente, que representava uma matilha de cães perseguindo um veado. O velho comerciante tinha sido amigo de seu pai, e Antero lembrava-se de que, em menino, os dois homens o levavam com eles à feira de Caloura, onde havia os mais belos cavalos de S. Miguel. Ficaram longamente a falar de cães e de cavalos, depois Antero comprou um pequeno revólver de cano curto. Quando saiu da loja o campanário da Matriz estava a bater as onze. Percorreu lentamente toda a beira-mar até à capitania do porto e demorou-se no cais a olhar para os veleiros. Depois atravessou a zona ribeirinha e entrou na Praça da Esperança, rodeada de magros plátanos. O sol queimava e tudo estava branco. A praça encontrava-se deserta àquela hora, por causa do enorme calor. Um burro triste, preso à argola de um muro, deixava pender a cabeça. Enquanto atravessava a praça, Antero ouviu uma música. Parou e voltou-se. Na esquina oposta, à sombra de um plátano, estava um vagabundo a tocar um realejo. O vagabundo fez-lhe sinal e Antero foi até lá. Era um cigano magro e tinha um macaco ao ombro, era um pequeno ser de focinho irónico e triste e vestia um uniforme vermelho de botões dourados. Antero reconheceu o macaco do seu sonho e compreendeu quem era. O animal estendeu-lhe a minúscula mão negra e Antero deixou cair nela uma moeda. Em troca, o animal tirou à sorte um papelinho colorido de entre os vários que o cigano trazia enfiados na fita do chapéu e estendeu-lho. Antero pegou nele e leu-o. Atravessou a praça e sentou-se num banco junto do fresco muro do Convento da Esperança, onde havia uma âncora azul pintada na cal. Tirou o revólver do bolso, levou-o à boca e premiu o gatilho. Teve um momento de espanto ao continuar a ver a praça, as árvores, o cintilar do mar e o cigano que tocava realejo. Sentiu um fio morno que lhe escorria pelo pescoço. Accionou o mecanismo do revólver e fez fogo pela segunda vez. Então o cigano desapareceu com a paisagem e os sinos da Matriz começaram a tocar o meio-dia."

Olho uma última vez o banco onde Antero se suicidou e no meu caderno anoto:

Antero

No banco onde Quental
disparou para morrer
podia sentar-se Portugal
sempre com o futuro a haver.
Falta lá talvez a estátua
como a do Pessoa na Brasileira
em vez da chávena de café
do chapéu e da cadeira
as barbas o rosto triste do Antero
e o revólver de balas certeiras
numa mão para
pôr fim à angústia da sua solidão
e ao tédio que envenena o coração
-- receita antiga para o mito
ou destino tangente a uma pátria
doente e sem remédio.

Se cada viagem é um regresso, S. Miguel nunca é uma despedida. A Ilha fica dentro da gente. Só apetece murmurar os versos de Vergílio: "estendido e mudo/em honra da beleza/estava o mar".
O mar, sempre o mar.



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