quinta-feira, 24 de novembro de 2016

AMAR O QUE SE VÊ

Foto de Fernando Paulouro Neves
Todos os dias, como fazia o personagem de Paul Auster, que  tinha o curioso hábito de fotografar a sua rua a diversas horas, em diferentes estações, ano após ano, descubro coisas novas no horizonte vastíssimo que se desdobra ao meu olhar. Todos os dias. Na amplidão da paisagem, às vezes é o despertar do sol numa claridade doirada, outras são mares de névoas que nos fazem imaginar navios fantasmáticos; não faltam, também, cores de campos ao sabor das quatro estações, da melancolia outonal, com os seus matizes em lenta combustão, ao descarnado agreste do Inverno, com os ramos nus estendidos para o céu, ou à exuberância primaveril e ao zénite solar do Verão fazendo adivinhar os "campos de palha rasa" e a "matinal restolhada dos pardais".
Nem sequer é preciso, como ao senhor Auggie, o tal personagem de Auster, revelar as fotos. A objectiva do olhar é que descodifica esses instantes, que são surpreendentes e, por isso, fascinam. Saber olhar, é a receita para essa fábrica de sonhos. De cada vez que olho, lá estão emoções que a surpresa abre à rotina dos dias.
Há muitos anos, escrevi um texto em louvor do olhar que gostaria de partilhar, agora, com os meus leitores. Era uma prosa imediata, uma crónica que publiquei nos idos do "Jornal do Fundão", e dizia o seguinte:

Nos seus passeios de fim de tarde, à beira mar, no exílio, Manuel Teixeira Gomes reencontrava-se com a vida. Enchia os olhos de mar e céu azul, respirava a brisa marítima que porventura lhe lembrava a pátria distante, e murmurava:
-- Mais um dia. Este momento já ninguém mo tira!
Teixeira Gomes, escritor de grande sensibilidade, também aí, nesse seu dizer breve, nos ensinava a ver o mundo com outros olhos. A capacidade de amar as coisas belas da vida, no seu fluir temporal, deve ser a nossa descoberta de todos os dias, penso eu também. Descobrir então o deslumbramento daquele castanheiro da Índia que alguém prendeu um dia a este chão, daquela folha que balança ao sabor do vento, daquela rua que o sol de fim de tarde torna diferente.
Pensava em tudo isto, num destes dias de Outono, quando olhava a explosão de luz nos verdes e amarelos da Gardunha, que fazem lembrar o cromatismo de misturas de Van Gogh. Alain, que ensinava a buscar o tempo da felicidade, tinha razão quando dizia que a verdadeira riqueza dos espectáculos, está no detalhe: ver é procurar detalhes, parar um pouco em cada um, e, de novo, agarrar o conjunto num olhar. Pequenos momentos, mas às vezes instantes essenciais, que ajudam a superar o cinzentismo do espaço e as horas vazias em que nos movemos.
É esse respirar do tempo, esse horizonte de beleza a habitar, que Vinicius nos propõe quando inventa "uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova".
Às vezes, basta saber olhar. E amar o que se vê.

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