sexta-feira, 4 de novembro de 2016

AS MUTAÇÕES DO OUTONO

FOTOS DE DIAMANTINO GONÇALVES
A imprevisibilidade de tempo no Outono é um dos seus fascínios. Este caminhar temporal dos dias para o Inverno, às vezes fugindo dele, outras antecipando-o docemente, está cheio de momentos surpreendentes. Mesmo agora, de onde estou, olho, e o vale imenso -- a Cova da Beira à beira da cidade -- abre-se até onde os olhos alcançam. Há uma neblina densa que se se eleva dos campos ou das "ilhas urbanas" que ocuparam o agro e depois se dilui no horizonte, onde sabemos que se escondem montanhas, e depois se mistura com as nuvens de tecto baixo, muito baixo. Vem às vezes uma chuva intermitente, se calhar a íntima chuva que o Drummond gostava de saudar como tempo de ler, ouvir música, namorar, ou simplesmente olhar o rosto do dia. 

Mas este Outono é, de facto, como o das quatro estações, de Vivaldi: há sempre uma ponta de alegria dentro da própria melancolia. Quando os dias estão de feição, como tem acontecido, prolongando o Verão (há-de vir, ainda, o de S. Martinho!), acolho-me à esplanada do jardim que é um bom lugar para a leitura e a escrita. É bom levantar os olhos dessa faina e olhar simplesmente os instantes que a magia do tempo pode operar na natureza. 

Está, em fundo, a Serra a espreitar, mas o Jardim, quando o sol rompe as nuvens e o azul se torna rei, é o Outono em grande estilo que temos ao alcance de uma atenção, um detalhe, um olhar. Olhamos e o que vemos? O amarelecer dos plátanos e das tílias ou os vermelhos de uma faia e, olhe lá!, os verdes diluídos daquele castanheiro da Índia! Ver as folhas no seu bailado de vento a caírem levemente no chão pode completar bem a leitura, e de certeza completa, se ela tiver dimensão poética. O chão parece agora um tapete de bosque onde apetece caminhar. No Jardim, há momentos assim: a luz intensifica a cor dessas "alcatifas" de folhas amarelas (o amarelo predomina) e faz-nos pensar como é farto em beleza e em oferendas de felicidade mínima o quotidiano. 

Um dia destes, olhava o esplendor do Jardim nas suas virtualidades outonais, quando uma brigada irrompeu no espaço, com as suas máquinas sugadoras, aspirando o chão de bosque. De repente, o tapete cromático volatilizou-se. Houve uma eficaz acção de limpeza, decerto necessária, mas a mim pareceu-me, naquele instante, que à morte das folhas correspondia a morte da paisagem. O quotidiano ficou mais triste. Baixei os olhos e regressei à leitura.

1 comentário:

  1. Há cambiantes incríveis no Outono. Ainda bem que referiu as faias, pensava que eram também plátanos as árvores de folha vermelha. Sempre a aprender. Deu ao texto a luz de Outono que eu gostaria de ter se sobre ele escrevera.

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