quarta-feira, 9 de novembro de 2016

AS NUVENS E O REPOUSO DE DEUS

No outro dia, escrevi aqui que a imprevisibilidade do Outono era um dos seus fascínios. Essa ideia voltou a poisar no pensamento quando um dia destes subimos à Serra e, lá no alto, as nuvens pareciam abraçar-nos para fingirmos que estávamos mais perto do céu. Elas caminham no espaço, às vezes fazem lembrar os versos de António Machado: "Eu vou sonhando caminhos da tarde", numa coreografia que é feita de bailados inesperados e de transfigurações no espaço: ora se transformam em mares interiores com ondas de espuma branca, muito branca, ora se tornam esculturas de rostos de mulheres, de cavalos à desfilada ou de leões, sabemos lá, de touros sem toureiros ou de fragmentos da natureza. Coisas que só cada um vê nas nuvens moventes, à medida da sua imaginação. Isso acontece, sobretudo, quando o céu está azul, de um azul marinho e intenso, e as nuvens flutuam sopradas pelo vento ou pela suave brisa, se o dia estiver de feição. Quando o horizonte anuncia chuva ou tempestade, ficam carrancudas, sem graça, escurecem quanto há escurecer e pesam sobre nós, quando pomos o nariz no ar. Mas ainda assim são surpreendentes as suas figurações.
De qualquer forma, as nuvens fascinam-me, gosto desse exercício de liberdade que é olhar para elas imaginando desenhos momentâneos ou pinturas que logo desaparecem ao golpe súbito de outro olhar. Há muita cenografia no céu, penso eu, enquanto as olho. Talvez por isso o livro do José Manuel Castanheira, Desenhar Nuvens, tenha despertado em mim enorme prazer quando o Zé me pediu que o prefaciasse e o fosse apresentar ao Instituto Italiano, em Lisboa. É antigo este apelo das nuvens, Há mais de dezasseis anos, também escrevi sobre elas um texto que incluí no segundo volume de Crónica do País Relativo - Portugal, Minha Questão, de que agora aqui quero deixar registo.
O texto intitulava-se O Repouso de Deus e era assim:

"Li algures, numa crónica, que Heine, o poeta, contara um dia que Deus, tendo trabalhado seis dias na criação do mundo, chegou ao sétimo dia cansado. Então, chamou Goethe - e pediu-lhe: "Agora, cria tu as nuvens!" Goethe deve ter inventado bons desenhos para o céu. Mas a história pode levar-nos a perceber que o horizonte que olhamos, às vezes com a brevidade de um traço ou de um segundo, apenas, contém sempre ocultas virtualidades, que apenas esperam o gesto de um olhar.
Não sei se Deus deu total liberdade ao poeta alemão para riscar o céu - que isto da criação tem as suas fronteiras -, mas a verdade é que as nuvens, mesmo em tempo de trovoada, quando a neve do céu são raios de luz, oferecem-nos sempre matéria de espanto para os olhos. É tudo muito rápido: as imagens estão sempre em lenta combustão. Penso, então, que o poeta não se confinou ao céu e desceu à terra para a invenção dos dias claros, paisagens soberbas que se agarram à memória. O sol que muda as cores das cidades, o rio que as abraça, os bosques verdes que ajudam a respirar, os grandes lagos que acolhem uma alegre fauna e são uma brisa marítima para os olhos. Instantes. Continentes e mundos de diversidade, horizontes singulares de beleza, a terra, o espaço, o tempo. Tudo ao alcance do olhar, às vezes à beira nossa, outros infinitos inalcançáveis que alimentam utopias. Mas quando a memória arquiva  um desses prodígios naturais apetece-nos regressar à história de Heine e segredar-lhe, de mansinho, que foi bom Deus ter repousado."

Nuvens. Olho-as, outra vez, no fim de tarde que cai. Lá estão elas em movimento. Há um risco ténue de um avião numa ligeira aberta onde o sol espreita envergonhado. As nuvens caminham até que a noite torne o céu uno. Estão baixas as montanhas voadoras. Hoje, de certeza, não veremos estrelas no céu.

1 comentário:

  1. A beleza que existe nas nuvens que pairam no azul. E a fonte de preocupações e tristezas que constituem as outras nuvens que nos perseguem a mente e a vida. Bom, mas também há nuvens de flores, de moscas, de pássaros e de quase tudo que existe. Há muita nuvem e de muita forma e conteúdo. São dois textos muito sugestivos. Obrigada.

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