sábado, 5 de novembro de 2016

DO BERÇO ÀS ALMAS MORTAS



ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Às vezes, desencantados com a actualidade do país relativo, com a pátria de via reduzida onde pululam tipos tão espertos, que tanto podem estar em lugares de poder como no Limoeiro, apetece desabafar através da ironia poética de Alexandre O'Neill, e dizer como inquietação às circunstâncias sórdidas da política: “ó Portugal se fosses só três sílabas/de plástico, que era mais barato!” Talvez isso ocasionasse um sorriso breve mas, como dizia o outro, isto, se calhar já só dá vontade de chorar.

É o que se pode dizer a quem tem a desdita de ouvir excessivos telejornais, saltando da comédia eleitoral à americana protagonizada por Trump (ou pela Trampa?) para a problemática doméstica, e assim vai percebendo na forma como se fazem as cousas a diluição dos valores, a indiferença face aos códigos de honra (e um amigo: ainda há disso?), a filosofia, aprendida na prática da impunidade, de que há uns sujeitos catitas sempre mais iguais do que os outros e que, por essa condição comum antigamente à herança do berço e agora às clientelas político-partidárias, estarão sempre isentos de cumprirem a lei ou prestarem contas à colectividade nacional.

Hoje, no “Público”, Pacheco Pereira verbera essa tipologia de comportamento que se está nas tintas para o conceito de serviço público, assinalando a “degradação da política e do Estado”. Diz ele que “o conflito entre a maioria dos partidos parlamentares e da opinião pública e António Domingues e os novos administradores da Caixa Geral de Depósitos e as demissões causadas nos governos (neste e no anterior) pelos falsos títulos académicos são eventos com causas próximas”. O historiador e ensaísta explica-se: "O seu ponto em comum é a contínua degradação da política e do pessoal político, em complemento e em simbiose com a degradação do Estado nas suas componentes políticas, profissionais e técnicas. É o resultado de processos de demagogia, alimentados por uma opinião pública e uma comunicação social populistas, e por uma deterioração acentuada dos grandes partidos, em particular do PSD e PS, com mecanismos oligopólicos, e a crescente importância de carreiras pseudo profissionalizadas, que se fazem dentro dos partidos por critérios que pouco têm que ver com a seriedade, o mérito, a capacidade política, profissional e técnica, tendo mais que ver com fidelidades e intrigas de grupo e com o acesso ao poder do Estado por via do poder partidário.”

Faça-se então o retrato da sociedade: "Enquanto uns vão com náusea, com uma mão no nariz mas aceitando ou pedindo privilégios e salários elevados, servir relutantemente a sua democracia e o seu país sempre enojados com essa coisa vil da política, visto que eles são técnicos ou académicos ou seja lá o que for, tudo menos ser o que são quando aceitam certos lugares; outros sabem que, uma vez “entrados”, se forem obedientes e prestarem os serviços requeridos sem pestanejarem e fizerem muitas vezes “nunca de lá saem”. Vão dos gabinetes governamentais para as autarquias, para os lugares de nomeação governamental, para deputados, e por aí adiante. Esta é uma especialidade das “jotas” dos grandes partidos. A isto se soma o desinvestimento do Estado nas qualificações profissionais e técnicas na alta função pública, com salários cada vez menos competitivos, falsos, o recurso sistemático a uma espécie de segunda linha, que na verdade tem sido a primeira, de serviços qualificados, seja de tecnocratas, de escritórios de advogados ou de empresas de consultoria financeira. Os pareceres e os estudos milionários tornaram-se norma no mesmo Estado, que não é capaz de criar uma administração assente no mérito que permita ao Estado ter recursos humanos para todos estes requisitos técnicos, sendo o recurso a serviços externos a excepção.”

Para Pacheco Pereira esta realidade decorre do “ideal burocrático que substituiu na Europa as hierarquias de nascimento ou o inventário das “almas mortas” do livro de Gogol, mas que em Portugal ainda não arrancou de uma cultura de cunhas e patrocinato” e de um contexto em que estão “em baixo”, os boys, e, “em cima”, os tecnocratas relutantes, muitas vezes desprovidos do mínimo senso político e noção de serviço público, condição para assumirem funções num Estado democrático”.

O caso da nova administração da CGD e as contradições do governo, ao baixar o nível de exigência de transparência, como se o banco público fosse um feudo e os gestores suseranos dispensados de prestar contas do seu património, é não só uma pedagogia de arrogância como o atrevimento de tratarem os portugueses como servos e não como cidadãos.

1 comentário:

  1. Eu não o diria tão bem, mas a análise parece-me correcta. Tanto quisemos extirpar as heranças da linhagem e caímos numa garra que não é menos perigosa.
    E não é assim que nos têm tratado algumas vezes, como servos? Só em alguns aspectos somos cidadãos. Somos de uns dias sim e uns dias não.

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