domingo, 13 de novembro de 2016

INFERNOS QUE ATORMENTAM OS DIAS


Há uma narrativa da actualidade que envenena os dias de pessimismo. Não faltam mortes e crimes contra a humanidade, que nos caem na sopa, guerras que parecem eternas na sucessão dos dias, bombardeamentos que nos fazem abrir os olhos de espanto para a banalidade dos crimes,  e, nessa fronteira em que os dramas se reproduzem e ampliam, surgem rostos de desespero, a dramática condição que é tudo menos humana. Há palavras e lugares que a todo tempo entram dentro da nossa inquietação, povoam remorsos colectivos, fugazes imagens onde, se calhar, encontramos a síntese mais funda do desespero em olhares dramáticos de crianças cansadas ou na tristeza maior que fere o coração: aqueles instantes, com o aviso prévio de que as fotos podem bulir com as pessoas sensíveis, e são meninos com os corpos destroçados, se o crime for em Alepo, ou afogados no cemitério ao sol ou ao luar das praias do Mediterrâneo. Muitas dessas imagens são absolutamente cruéis, infernos concretos para atormentarem os dias. Apetece dizer como Rimbaud: "Acredito que o inferno existe. Logo estou lá"
Pensava nas circunstâncias dessa narrativa da actualidade, que é neurose do nosso tempo, e encontrei um texto que escrevi em 91 (há quanto tempo!) em que a escrita, face à desumanidade e à indignação que a emergência do quotidiano provocava (Cavaco tinha ganho as eleições com maioria absoluta!), batia à porta da esperança. Volto hoje a esse batente porque devemos continuar a acreditar que a esperança tem sempre razão. O texto:
"Às vezes um fio de céu azul, às vezes uma mão que se abre a outra mão, às vezes uma palavra murmurada quase a medo. Um gesto apenas, uma ideia, um pensamento. Um rosto, um breve sorriso, a ternura de um afecto. Às vezes um país. Uma história desigual, o intranquilo caminhar de um povo, os dramas vividos nesse fazer e refazer da vida colectiva. Nessa tarefa de um país se procurar a si próprio, nesse dramático lavrar de séculos, a expressão épica de mil contradições, aventuras e desventuras naufragadas, quase sempre a pátria adiada que sonhamos. As angústias para o dia seguinte, sabe-se lá se para o século! Penso tudo isso, mas desvio subitamente o olhar para a esperança, esse alfabeto que alguns de nós ainda falam ou balbuciam. É uma estátua de pedra, inteira, no Jardim do Paço, em Castelo Branco, que a erosão do tempo, as guerras, as servidões, as noites mais tristes, não destruíram. Feita por operários da arte, resistiu a tudo. Ali está, intacta, vertical. Este falar de pedra, a que os anos deram mais força, é a imagem de uma grande serenidade. Como quem acena à inquietação do futuro, que é a minha perplexidade de circunstância, parece que a oiço dizer: apesar de tudo, a esperança."
Apesar de tudo, repito eu agora, pensando na esperança como reduto intocável de dignidade, espécie de pão elementar e chama que alumiou sempre o caminho dos que fizeram da vida um combate pela liberdade e pelo Homem, como medida absoluta de todas as coisas.

1 comentário:

  1. Onde haja homens, há esperança. Que a vida não se aguenta de outra forma. E se nos começamos a suicidar é uma sangueira desgraçada, há pouca terra para tanto enterro, os crematórios ainda são menos, ninguém gosta de escrever na profissão, coveiro...e portanto, em prol do bem comum, melhor é que vivamos. A desesperança é triste demais e andávamos por aí macambúzios e feitos primatas em sofrimento; logo, mais nos vale a esperança que até é verde e por isso é que um burro a come de vez em quando; vale-nos que os jericos estão em extinção, senão ia-se de vez a verdura, faltava-nos de todo a luz e não há dúvida que isto às escuras é perigoso com a ladroagem que por aí existe. Portanto: mantemos o sonho, o qualquer coisa de bom que venha ou a gente consiga fazer nascer mesmo que não saia do embrião porque aborta e não vinga e não sei quê, que a gente pensa logo outra coisa e aquela é que é. Entretanto, morre de morte natural e quem sabe o que acontece depois (não antevejo coisa especial que debaixo de terra só o metro se safa e as minhocas e outros bichos que não digo por me enojarem bastante). E este ir assim correndo atrás de uma esperança que se nos furta tem muito quid.
    Um bom dia para si.

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