sexta-feira, 4 de novembro de 2016

MÁRIO DIONÍSIO: A PALETA E O MUNDO



Para a Eduarda Dionísio,
que fez da Casa da Achada uma memória viva da obra de seu pai,
com um beijo de admiração e amizade

Nunca esquecerei o que aprendi na leitura de Mário Dionísio. Eu não tive a sorte, como Luís Miguel Cintra, Jorge Silva Melo ou Eduardo Prado Coelho de ser seu aluno no Liceu Camões, mas a verdade é que o magistério de ideias de Mário Dionísio, a partir do momento em que ganhamos consciência social e política, me ensinou a ler e a compreender o mundo, e, sobretudo a olhar o complexo fenómeno da criação artística como acto de pura liberdade e de libertação, na perspectiva que Mário Vargas Llosa defendeu em Como se Faz uma Novela, desse acto ser uma desafio a deus (ou aos deuses) como pura matéria de criação outra de mundos e realidades.
Se a sua reflexão teórica (dele, Mário Dionísio) sobre a literatura e a arte em tempos de asfixia cívica e do pensamento, é muito importante para percebermos o lugar do escritor e do artista na sociedade, havemos também de encontrar na escassa produção ficcional e poética uma escrita marcada pelo rigor da palavra e um respirar verbal muito próprio e autónomo, basta ler, para o verificarmos, os seus poemas do Novo Cancioneiro, o Dia Cinzento e Outros Contos, ou ainda Terceira Idade, um certo olhar definitivo de despedida.
A propósito das comemorações do centenário do seu nascimento, que estão a decorrer, António Guerreiro publicou um excelente texto no "Público" sobre Mário Dionísio em que lembra aspectos fundamentais da biografia criadora do autor de A Paleta e o Mundo, designadamente a importância para a história da literatura portuguesa da célebre polémica sobre o conteúdo e a forma, e sobre os horizontes do neo-realismo, em que o próprio Cunhal também interveio. Como assinalou Guerreiro, no texto citado, "desde o início, Mário Dionísio parece introduzir complexidade onde as coisas, medidas por uma ideologia, tendiam a apresentar-se com uma esquemática simplicidade".
Podemos dizer que a questão da liberdade foi sempre a chave que em Mário Dionísio abriu as portas da actividade criadora, condição que Jorge de Sena (O Dogma da Trindade Poética (Rimbaud) e Outros Ensaios), também clarifica ao lembrar que "todos os grandes poetas mostram, na sua poesia, uma ou mais interpretações do mundo, isto é, um ou mais aspectos de uma compreensão geral da realidade", pelo que "a pureza de uma poesia é função dos seus graus de liberdade no mundo" e "tanto mais pura será quanto mais liberta, quanto mais reconhece a realidade plena e aceitar, até na repulsa e no ódio, a existência da própria angústia em face da realidade."
Quer-me parecer que estes sublinhados de Sena se enquadram perfeitamente na matéria de inquietação que foi a percepção de Mário Dionísio (e ele também foi um notável pintor) sobre o acto de criação na forma mais plena que o conceito abarca. Essa forma de olhar o mundo da arte está bem nítida na obra monumental que é A Paleta e o Mundo, referência do ensaísmo português (infelizmente muito ausente!), onde se aprende a olhar a pintura como fenómeno total, e, sobretudo, a abrir o espírito a todas as correntes estéticas para se poder interiorizar a emoção estética surpreendente quando ficamos face aos quadros dos grandes pintores universais.
Nunca esquecerei o que aprendi na leitura de Mário Dionísio, comecei por dizer no início, e confesso que é um autor que tenho sempre à altura da mão. Ainda agora me caiu sobre os olhos um poema biográfico de Terceira Idade, que eu gosto de reler, para que a memória não seja totalmente rasurada em Portugal. Um poema a que Mário Dionísio colocou uma espécie de epígrafe que diz (para um remorso colectivo):

Retrato de frente e de perfil
sob os chicotes da luz branca dos tormentos
muitos anos antes ou só meses
de haver no calendário o mês de Abril
Nome       Cor    e     Nacionalidade
Residência
se já a tinham nos ficheiros
Valores apreendidos     Documentos
falsos ou verdadeiros
Quando e onde foi preso quantas vezes
por defender a liberdade
por querer a total independência
do país e direitos iguais
para todos os portugueses
por resistir e por lutar
organizado e organizar
a raiva dos humilhados
Punido por gritar
Punido por calar
Punido por cantar
Punido por recusar
assinar o que não disse.     Transferência
de prisão em prisão     Reincidência
E quanto ao mais
silêncio      Nada sobre o que sofreu
com os dentes cerrados
de pé em alçapões e à mercê
de monstros profissionais
Em letras gordas "Faleceu"
sem se dizer como nem porquê.

Mário Dionísio.

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