terça-feira, 29 de novembro de 2016

O HOMEM DO "CHAPÉU PRETO"

Morreu há dias, aos 86 anos, Arlindo de Carvalho, compositor e intérprete que levou para a música, como grande paixão, as sonoridades e os cantares da Beira Baixa. Ele próprio foi autor de canções de que o povo rapidamente se apropriou, inscrevendo-as no imaginário colectivo, como se fizessem parte do tempo. Foi assim, decerto, com "Chapéu Preto", "Fadinho Serrano", "Comboio da Beira Baixa" e muitas outras. Grandes intérpretes, como Amália, ou músicos como Júlio Pereira, e tantos outros, deram expressão a composições suas.
Arlindo Carvalho era um amigo. Estou a vê-lo, sempre com aquele seu jeito de camponês exilado, vir ao meu encontro no JF para me falar dos seus projectos, para me levar as suas edições, às vezes para me mostrar que cantava poetas de primeira água, que tinham escrito para ele, como Nuno Júdice.
O antigo professor primário, que se fez músico e aprendeu a cantar no Coro de Lopes Graça, que foi para Paris aprender novas coisas no Conservatório de Poitiers e ser leitor de português no liceu, tinha, de facto, a Soalheira, onde nasceu, e a Beira Baixa, no coração, e essa fidelidades à raiz originária fortaleceu-a com o tempo. Era parte inteira desse universo e não admira que tivesse criado, em 1999, na sua Soalheira, um Coro de mulheres, que foi elemento de auto-estima para a população local. Regeu o Coro enquanto pôde e contaram-me que, estando a residir em Lisboa, se metia no combóio duas vezes por semana, para ensaiar essas cantoras saídas do povo. E foi assim até que a saúde o permitiu!
O Arlindo Carvalho era, também, um homem bom, sempre disponível para participar nas iniciativas que pudessem valorizar a região. Castelo Branco prestou-lhe uma grande homenagem e o Fundão também lhe fez tributo de merecida gratidão.
Partiu quando a azeitona "já está preta" e se começa "a armar aos tordos". O homem do chapéu preto partiu para a longa viagem.

Sem comentários:

Enviar um comentário