quarta-feira, 9 de novembro de 2016

O TEMPO DOS TRUMPS

God bless América...
Também  esta não foi a madrugada que eu esperava. A vitória de Trump, a sua eleição como Presidente dos EUA, é a síntese de um conjunto de sentimentos primários utilizados como boomerang contra um poder de que, afinal, o arauto populista e cavaleiro do passado, também faz parte. É, também, um certo esgotamento da ideia de que as dinastias na política podem eternizar-se. E a verificação que continuamos a olhar a América de uma forma mítica que, em larga medida, está muito longe da espantosa realidade das coisas.
Miguel Esteves Cardoso, leitor voraz da imprensa americana, escreve hoje que a vitória de Trump é a derrota dos meios de comunicação social dos EUA e da Europa. Ele explica que "as nossas sondagens e opiniões -- incluindo as minhas -- não só se enganaram redondamente como contribuiram para criar um perigoso unanimismo que fez correr uma cortina de fumo digno dos propagandistas oficiais dos Estados totalitários." Daí, sublinha MEC, "a eleição de Donald Trump foi uma vitória da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social."  E acrescenta: "Não é Trump que tem de dar a volta. Somos nós. Trump ganhou porque foi eleito. Nós perdemos porque fomos derrotados pelos nossos próprios preconceitos e pelo excesso de zelo com que perseguimos a vitória de Hillary Clinton."
Uma análise curiosa sobre  a hecatombe dos democratas é a que Francisco Louçã que exprime uma perplexidade: "como é que a política no país mais poderoso do planeta chegou a isto? Um candidato mobiliza uma grande parte do país com a ideia de prender a adversária, expulsar milhões de pessoas, melhorar os impostos sobre os ricos e insultar as mulheres, será isto extravagante ou normal?"
Para Louçã, o quadro é o seguinte: "Desde meados do século passado que não víamos nada parecido e o que mudou é o esgotamento da globalização amável. Crescimento lento com elevado desemprego, salários rebaixados e fim da imagem do progresso social, conjugado com impotência democrática nos países em que a política é dominada por factores extra-muros, é esse cocktail que desarticula as sociedades. Para os pobres não há solução nenhuma. E a sua degradação social é o resultado de um sucesso e não de um fracasso: a globalização realmente existente, a liberalização dos movimentos de capitais, alimentou uma promessa, tudo para todos, e, ao impor-se, cobrou o preço, menos que nada para muitos e tudo para alguns."
Francisco Louçã quantifica o contexto para explicar o comportamento político dos americanos: "Há duas grandes consequências dessa globalização destruidora. A primeira foi assinalada pelo New York Times é a desconfiança em relação aos sistemas políticos. Afinal, diz o jornal, Trump tem algo em comum com a primeira campanha presidencial de Obama, em 2008, quando venceu Hillary Clinton nas primárias. O ponto seria a desconfiança face a Washington, o centro de todas as intrigas. Nestas eleições, apesar de Trump ser o multimilionário que enriqueceu com a especulação imobiliária e sem pagar impostos, é Clinton quem aparece como a voz de Wall Street, enquanto o republicano denuncia o “sistema” que permitiria todos os perigos, da imigração ao crime. Mera demagogia no estado puro, o facto é que tem sucesso, que pode ser medido pelo facto espantoso de as grosserias do candidato jogarem sempre a seu favor.
A segunda consequência radicaliza uma evolução anterior. Ao longo dos últimos 15 anos, os republicanos têm preponderado entre os eleitores brancos sem formação universitária, os mais pobres, o maior contingente eleitoral nos EUA. Entre esses, Trump arrasará com 59% a 30% de Clinton, segundo as sondagens. O anterior candidato republicano, Romney, já ganhou a Obama por 57% a 35% nessa fatia eleitoral, mas, ao aumentar esta diferença de 22% para uma vantagem espantosa de 30%, Trump poderia assegurar a vitória se assim anulasse a diferença nos outros eleitorados (entre os brancos com formação universitária, Clinton poderia ter 47% contra 43%,  entre os hispânicos 75% a 20% e entre os negros 82% a 6%). A dúvida é se esta parte da população vota em número suficiente, dado que a sua participação tem vindo a decrescer. Assim sendo, a estratégia eleitoral de Trump faz sentido: ele só poderia ganhar com os votos dos desesperados e é para eles que fala. Essa parte do país despreza Washington, imagina um passado perdido e espera agora um aurora redentora, o que Trump representa na sua pose pomposa. A violência do discurso serve este único propósito, mobilizar os esperam um super-herói para bombardear os seus males."
Louçã volta a questionar: "É isto extravagante, um pistoleiro à conquista da Casa Branca?" E responde:"Seria fácil de mais. Trump é uma trombeta do que vamos ter e é mesmo isso: o preço da globalização é a desagregação democrática e esta é a hora dos farsantes que se anunciam como cavaleiros do apocalipse. Teremos guerra civil no partido republicano, quer ganhe quer perca Trump, falecerão os tratados internacionais para o comércio, mas o que ficará será sempre isto: acabou a globalização feliz e abriu-se o cortinado sobre os escombros por detrás do palco. O século XXI será o tempo dos Trumps."
Não é só a América que precisa de protecção, somos nós todos.

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