terça-feira, 15 de novembro de 2016

O TRIUNFO DOS MEDÍOCRES

Há estigmas na sociedade portuguesa que parecem eternos. Do fundo do tempo chegam-nos notícias das "dificuldades que tem um reino velho para emendar-se", como escreveu Ribeiro Sanches. No outro dia, um amigo meu queixava-se amargamente de como, em Portugal, ter mérito é, muitas vezes, perigoso. E dava exemplos do triunfo da mediocridade em múltiplas instituições ou na esfera dos poderes que se alimentam muito da partidocracia. Eu disse-lhe que já tinha escrito vezes sem conta que não ter cartãozinho do partido, era ser ladrão de si próprio... Esse meu amigo, que conhece bem essas tramóias por dentro, despediu-se da conversa com uma certeza inabalável:
-- Quem não tem padrinhos está lixado!
Vim para casa a pensar na conversa de café e lembrei-me logo do "reino cadaveroso da estupidez" ou da célebre advertência (parece que do Schiller) de que contra a estupidez até os deuses lutam em vão. A verdade é que a cultura do mérito é um epifenómeno sem impacto na sociedade portuguesa. Esse vazio é uma das razões que conduz ao triunfo da mediocridade, de sujeitos sem obra credível que trepam alegremente na escala profissional ou política. Dei comigo a reler um texto que escrevi em 1991 e poderia ser escrito hoje, pois as mesmas causas produzem os mesmos efeitos. Então, na altura, verberava as clientelas e a prosa, com alguma indignação, dizia:
"Em poucos países, como em Portugal, a cunha se transformou numa instituição com tantas e tão fundas raízes. Não há nada que a supere. Nem o talento. Nem o profissionalismo. Nem a capacidade. Nem a seriedade. Quem tem cunhas trepa nas várias escalas em que se resume a vida social; quem as não tem pode muito bem ficar aviado para o resto da vidinha.
A cunha tornou-se, de tal forma, essencial à mobilidade do cidadão comum que arregimenta à sua volta verdadeiras multidões. A grande ambição, na maior parte dos casos, é estacionar no mercado de emprego, se possível à sombra do Estado. Mas aí pia mais fino! Quando essas legiões logram alcançar os patamares da política ou do Poder, necessitam antes de fazer prova da sua condição de clientes. É assim que o Poder arranja assuas clientelas. Nesses casos, é bem provável que, antes da cunha, peticionário/candidato ao lugar tenha de mudar de emblema, isto é, de clube político. Depois, feita a prova de fidelidade, abrem-se as portas do presente ou do futuro,consoante o escalão social e, às vezes, a curvatura dorsal do pretendente.
E não se trata de fenómeno novo na sociedade portuguesa, embora nos últimos anos os clientelismos tenham alastrado como a pior das marés negras. Almada Negreiros, em 1933, já detectava a cunha como um dos males endémicos da vida portuguesa. Escreveu, então, o autor de Nome de Guerra:
"Declaramos guerra ao empenho, à cunha, à apresentação, ao salamaleque, à porta travessa, à côterie, às amizades e às inemizades pessoais, e a toda essa gama de pechotice que medra  e faz medrar a marmelada nacional".
As palavras de Almada têm perfeita actualidade.

1 comentário:

  1. Sabe, logo após o 25 de Abril, entre outras, eu tinha, como tanta gente desprotegida, a esperança de que a cunha deixasse de ser a única moeda corrente para subir na profissão ou encontrar emprego. E talvez os bons de modesta origem - aqueles que têm algum valor e se empenham no que fazem - pudessem ter voz, dizer que mereciam os lugares. Mas a força e o sonho de alguns foram insuficientes contra a onda esmagadora do clientelismo, da subserviência parola, da cunha descarada que não obriga ao trabalho. É uma monarquia muito forte e impositiva a da cunha.
    E o que me desgosta é que os exemplos mais gritantes e até histriónicos, são de gente humilde que subiu à custa sabe Deus de que artimanhas e não tem sequer o fair play dos grandes trastes. Antes aparecem espertalhaços e torpes, a negar o que podia ser a sua grandeza e que emporcalham sem cessar, na boa.
    O mundo é o mundo.

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