quarta-feira, 23 de novembro de 2016

REBANHOS PELO MEDO PERSEGUIDOS

É bom revisitar poemas, às vezes cantados como bandeiras que circularam como punhos levantados ao alto, sementes de esperança, urgências de indignação. Às vezes, nos sons que o coro levantava do chão ("acordai, homens que dormis", ainda se lembram do Fernando Lopes Graça?) semeavam-se sonhos avulso, e, nesses fragmentários instantes de palavras não sitiadas, os dias pareciam menos cinzentos.
A poesia tem esse dom de conferir às palavras uma dimensão de intemporalidade, os seus versos voam e contêm tempos dentro do tempo. Encontramos essa faceta desde a antiguidade grega, por isso, ou também por isso, tenho sempre à mão a belíssima antologia que o poeta Albano Martins traduziu e organizou, mas a actualidade de um verso pode estar, também, em poesia que teve, pela sua própria natureza, uma finalidade de denúncia e combate.
Não sei porquê, decerto pelo estado do mundo, que está cada vez mais perigoso (e, sobretudo, mais estúpido, acrescento já agora!), basta olhar para um sujeito como Trump e vê-lo sentar-se na cadeira presidencial dos EUA ou para triunfos anunciados de populismos bebidos na irracionalidade (veja-se a senhora Le Pen), para já não falarmos no remorso colectivo que representa o triunfo das desigualdades ou a xenofobia como forma de destruir o outro, isto é, o desejo de que vá morrer longe, para não incomodar as boas digestões europeias.
Por causa de tudo isso e da debilidade de indignação que vai por aí, se calhar a eleição de Trump é que me fez mover a memória para um conceito de carneirada que um poeta português querido interpretou magistralmente. Falo do Zé Gomes Ferreira e recordo os seus cabelos brancos, muito bethovenianos, a sua palavra directa, uma ironia amável e ao mesmo tempo de grande eficácia quando se tratava de levantar a voz contra a ditadura. Então, esses versos, que podíamos, com inteira propriedade, justapor à realidade de hoje, são estes:

Oh pastor que choras
o teu rebanho onde está
Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há.


Uns de finos modos
outros vis por desprazer...
mas carneiros todos
com carne de obedecer.


Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.


Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto,
as papoilas dos trigais.

Outro poeta do meu universo, o Alexandre O'Neill, que foi quem melhor estigmatizou o problema do medo na sociedade portuguesa (outro trauma actual), escreveu também um poema que intitulou "Perfilados de Medo", que é uma radiografia perfeita desse tempo longo inscrito no rosto dos dias.
Leiam s.f.f.:

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas, somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...

Rebanho pelo medo perseguido, disse o poeta. 

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