domingo, 20 de novembro de 2016

UM CONTADOR DE HISTÓRIAS DE PROVEITO E EXEMPLO


Dois dias sem Notícias do Bloqueio geraram algumas perplexidades nos meus leitores, a quem peço desculpa, mas o programa segue dentro de momentos, como se dizia quando a imagem da televisão, nos velhos tempos, se avariava ou tremia como o pudim flan, o que acontecia com muita frequência. Neste interim, em que o mundo decerto não melhorou, fui a Coimbra apresentar um livro de crónicas, Ponte Europa, de um querido companheiro de jornada, o Carlos Esperança, que eu tive a honra de ter como coalaborador enquanto dirigi o "Jornal do Fundão". Numa sala cheia, que respirava fraternidade, fui lá de certo modo ampliar o que já escrevera com gosto no prefácio. Quem tem a sorte de conhecer o autor, sabe da sua qualidade como contador de histórias -- às vezes a sua toada de conversa faz-me lembrar o Manuel da Fonseca --, e aí, nessa sabedoria feita de tempo, se explica muito de como ele se tornou um cronista de eleição.
No andar e ver mundo que foi a sua vida aprendeu que a escrita é uma grande paixão, que ele pratica incessantemente, com prazer. Sempre admirei a forma sensível como ele selecciona a realidade naquilo que ela comporta de verdadeiramente essencial e de como nessa capacidade de observação ele vai ao encontro do detalhe, à densidade humana dos dias, à complexidade da condição humana. Aí colhe a matéria prima das suas narrativas de expressão ficcional. Mas o Carlos Esperança tem outra dimensão muito importante: o combate pela memória muito presente nos seus comentários. Essa faceta tem muito de exemplaridade cívica num país onde a memória é tantas vezes, subtil ou grosseiramente, assassinada, onde o esquecimento programado e o branqueamento do fascismo se tornaram norma. Nos seus escritos, essa é uma batalha sem fim para tornar o seu país mais limpo e habitável e o mundo um pouquinho mais justo.
Na sessão de Coimbra, eu bem o convoquei a contar histórias da sua Guarda (como a da Libaninha) ou da Covilhã, que é lugar privilegiado do seu memorialismo, da cidade industrial e socialmente estratificada e da vivência de sonhos inauditos de liberdade. Aliás, como tantas outras crónicas de Ponte Europa, muitas delas publicadas no JF, há uma particularmente saborosa, "Daqui Houve Nome Covilhã - 140 anos", em que Carlos Esperança faz uma radiografia do tempo sombrio que aqui se vivia, no início da década de sessenta, evoca rostos e lugares, pois, como ele diz, "as pessoas fazem as cidades, mas estas são as suas circunstâncias que as moldam e lhes imprimem  o carácter, os hábitos e os gostos". Nessa crónica, Esperança evoca a páginas tantas uma saborosa história: "Recordo o Leal que uma noite me guardou sob a camisola, o jornal habitual que, à largura de toda a primeira página, anunciava em letras garrafais de um título em caixa alta: "Ontem reuniu a Assembleia Nacional para apreciar as contas gerais do Estado relativas ao ano findo". A ausência de um "t", nas contas, pôs o país a rir e a polícia a confiscar o diário, mas o Leal, fiel e cúmplice, guardou um exemplar para o cliente de todos os dias".
Fecho com um parágrafo do prefácio: "As crónicas do Carlos Esperança fornecem-nos o retrato de um incrível país, com as suas fogueiras de estimação e os seus fantasmas, avultando em muitos textos aquilo que se poderia designar por uma militância cívica exemplar, contra a amnésia histórica, uma cidadania que é traço essencial da sua biografia. (...) Olho para as suas narrativas, falo sobre ele a amigos comuns, e logo vêm à conversa histórias magníficas. E uma ideia central: o Carlos Esperança é uma pessoa excepcional e tem a rara virtude de não ficar com palavras atravessadas na garganta. Diz o que tem a dizer, e faz da sua fala um pensamento livre, em voz alta".

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