quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A DECADÊNCIA DO OCIDENTE


Vale a pena reflectir à volta do artigo que Mário Vargas Llosa publica hoje, no "El Pais", sobre "A decadência do Ocidente". É um texto longo, o do Prémio Nobel da Literatura, mas a questão central que ele levanta pode resumir-se no seguinte parágrafo: "Primeiro foi o Brexit, agora, a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. Só falta que Marine Le Pen ganhe os próximos comícios em França para que fique claro que o Ocidente, cume da cultura da liberdade e do progresso, assustado pelas mudanças que a globalização trouxe ao mundo, queira fazer marcha atrás radical, refugiando-se no que Popper baptizou como "a chamada da tribo" -- o nacionalismo e todas as taras que lhe são congénitas, a xenofobia, o racismo, o proteccionismo -- como se aprisionar o tempo ou retrocedê-lo fosse mera questão de mover os ponteiros do relógio."
Vargas Llosa sublinha a sua perplexidade, em relação a Trump, de que "sessenta milhões de norte americanos tenham acreditado nele respaldando-o nas urnas" e assinala que "todos os grandes demagogos da história atribuíram os males que padecem os seus países aos perniciosos estrangeiros, neste caso os imigrantes, começando pelos mexicanos, traficantes de drogas e violadores e terminando nos muçulmanos terroristas e nos chineses que colonizam os mercados estadounidenses com os produtos subsidiados e pagos com salários de fome. E, por isso, também têm a culpa da queda dos níveis de vida e do desemprego os empresários "traidores" que levam as suas empresas para o estrangeiro privando de trabalho e aumentando o desemprego nos Estados Unidos".
Para o autor de A Guerra do Fim do Mundo, "o Brexit e Donald Trump -- e a França da Frente Nacional -- significam que o Ocidente da revolução industrial, dos grandes descobrimentos científicos, dos direitos humanos, da liberdade de imprensa, da sociedade aberta, das eleições livres, que no passado foi o pioneiro do mundo, agora vá ficando para trás." E isto, na perspectiva do escritor, acontece "não porque esteja menos preparado que outros para enfrentar o futuro, mas por sua própria complacência e cobardia, pelo medo que sente ao descobrir que as prerrogativas que antes julgava exclusivamente suas, um privilégio hereditário, agora estejam ao alcance de qualquer país."
A radiografia está feita. O Ocidente está refém de cobardias e de medos. Aí radica a razão profunda do seu declínio. Um bom tema para nos pensarmos a nós próprios.

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