quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

A MENINA DA CAIXA TEM OS OLHOS TRISTES

Há três anos, por este tempo que o calendário elegeu como de bondade, escrevi uma crónica sobre realidades outras do Natal. Quotidianos com os quais nos cruzamos, mas a observação fugaz descarta para o lado. A realidade ainda lá está, intacta, e as grandes superfícies, agora tão engalanadas de faiscante fantasia, são uma babel de sons, com a disputa dos consumos a comandar gestos e comportamentos. Fui recuperar o texto de há três anos e a menina da Caixa continua a ter os olhos tristes.

Neste tempo de luzinhas a brilhar nas árvores e campainhas a tocar nas ruas, longe dos não sei quantos sem-abrigo que andam agora a contar (parece que não faziam parte das estatísticas!), um rio de gente corre para as compras de Natal, muitos iludindo a abundância que não têm. Há os que ficam à margem de qualquer banquete, alguns com tal peso de marginalidade que nem se aproximam das breves sopas aquecidas para pobres ou das consoadas improvisadas pelo catálogo da solidariedade social, que no dia de ser bom até os capatazes do capitalismo mais selvagem autorizam algumas migalhas sociais.
 Nestes dias, o corre-corre das compras enche os templos do consumo, as grandes superfícies convidam todos a entrar, mesmo aqueles que não precisam de nada, porque têm, sobretudo para esses, aquilo que lhes convém...Também por ali o cenário do Natal é uma especificidade para a fantasia e o cenário desperta apetites a criancinhas e não só. Aparentemente, é um mundo feliz, longe das lágrimas da crise, o que por ali anda em movimento. Era assim a paisagem até que os meus olhos poisaram nas jovens caixas, que mecanicamente, ao longo de muitas horas (estas não escapam às 40 horas ou mais!) colocam em sacos a montanha de compras dos clientes e depois põem as máquinas registadoras a desdobrar facturas e a receber pagamentos. São jovens, muito jovens, adivinho licenciadas a que o país fechou as portas de outros horizontes, e estão ali, de pé (“já nem sinto as pernas”), com os olhos cansados pela turbulenta navegação das horas. Muitas vivem no fio da navalha e sabem que serão trucidadas na selva da precariedade, a tal flexibilização laboral onde os direitos não existem e o trabalho toca a fronteira da escravatura moderna, as tais condições que os arautos do cifrão dizem serem óptimas para o futuro da economia.
As filas, com os carrinhos atulhados de compras, dilatam-se. E elas lá estão, peças de uma engrenagem poderosa, direitas, repetindo mil vezes os mil gestos de todos os dias, olhos cansados, a máscara de sorrisos de circunstância no fio dos lábios e as palavras que fazem a liturgia do instante na ponta dos lábios.
Tento imaginar as realidades quotidianas deste mundo precário, e, como num filme, imagino um plano a correr sobre os rostos das jovens caixas do hiper, procurando detalhes de um dia, instantes breves de vida. Tudo mecânico e industrial, como convém. Os sorrisos a escorrer e os votos natalícios na ponta da língua. Mas numa delas (terá o despedimento à vista, pensei eu, para mim só) pareceu-me descortinar duas lágrimas que caíam sobre um embrulho colorido, com um belo laço de fantasia.

1 comentário:

  1. A vida de hoje é isto tudo. Oxalá melhore! Um bom Natal e feliz Ano Novo!

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