sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A POESIA COMO UMA ESPÉCIE DE MÚSICA


Às vezes, temos que regressar aos instantes de emoção, ao chão da glória efémera dos acontecimentos em que estamos envolvidos, à biografia dos percursos que fazem uma vida. Como aqui disse aos meus Leitores, à volta do livro A Materna Casa da Poesia. Sobre Eugénio de Andrade, que eu escrevi e agora foi reeditado, revisto e ampliado com capítulos novos, realizou-se na Casa de Portugal - Residência André de Gouveia, no vasto campus da Cidade Universitária Internacional de Paris, uma sessão que não foi outra coisa senão um louvor feito de palavras, música e versos à arte poética do autor de As Mãos e os Frutos. E, no caso do poeta que nasceu em Póvoa de Atalaia, nada melhor para ir ao encontro da sua obra do que uma sessão assim, com esse formato, pois a poesia de Eugénio é "uma espécie de música", como bem assinalou Óscar Lopes.
Na tarde cinzenta de Paris, o dia tornou-se claro e luminoso porque a substância do tempo naquelas horas se fez das palavras que, dizia o poeta, às vezes "são como um cristal". Habituado a este tipo de iniciativas, guardo na memória a de Paris como singular. Esta singularidade radica num conjunto de factores -- ou circunstâncias, se quiserem -- em que avulta, desde logo, a acção da responsável pela organização do evento, a Prof. Ana Paixão, professora universitária e directora da Casa de Portugal, que à frente desta instituição, como já tantas vezes escrevi, tem realizado uma obra notável de divulgação da cultura portuguesa e da sua universalidade, levando ao magnífico auditório da Residência André de Gouveia escritores, poetas, ensaístas, artistas que são a expressão maior da capacidade criadora de uma pátria. Depois, no centro da iniciativa, estava, como sempre, a militância de amizade do Abílio Laceiras, o seu afecto, praticante de generosidade como ele é e portador daquela ideia de que nada do que diz respeito a Portugal lhe é estranho. A estes factores é preciso juntar a participação do Prof. José Manuel Esteves, que na universidade tem obra notável sobre a literatura e o pensamento portugueses e que, fora dela, é incansável divulgador dos nossos poetas. Como aconteceu na apresentação de A Materna Casa da Poesia, em que José Manuel Esteves, acompanhado ao piano por João Lourenço, disse poemas e textos do livro, com um recorte de rigor, fazendo corpo com a poesia de Eugénio, sem o excesso de artificialismo ou exuberância retórica, que, aliás, o autor detestava. Também Adelino Pereira leu "As Mães", essa fantástica prosa poética que Eugénio me definiu como "um texto de todo o mundo".
Ana Paixão falou de A Materna Casa da Poesia e do autor destas linhas em termos que me desvaneceram, mas o importante foi mesmo a celebração do universo criador da poesia de Eugénio de Andrade. Como se escreve n' A Materna Casa da Poesia,  a poesia de Eugénio de Andrade e a sua prosa poética consubstanciam uma profunda raiz telúrica como se ela se alimentasse daquelas fontes inesgotáveis, que não têm princípio nem fim, onde "as águas reflectem o silêncio" e "o subterrâneo rio das palavras" corre sempre ao encontro da luz numa "paixão pelas coisas limpas da terra, inexoravelmente limpas".
Resta reafirmar aqui, que a minha gratidão se estende à Associação de Beirões de França, Instituto Camões, Université Paris Ouest (Nanterre) e Université Paris 8 (Vincennes), que se quiseram associar à iniciativa.

Sem comentários:

Enviar um comentário