terça-feira, 20 de dezembro de 2016

ALEPO!

Ao infindável inventário de cidades mártires da História, há que juntar-se mais uma: Alepo. Batidas as sílabas do seu nome, tão doce, tão carregado de antiga civilização, Alepo é agora olhada como um enorme cemitário a céu aberto, uma vala comum que parece só acabar quando for morto o seu último habitante. Alepo, talvez a mais importante cidade síria (teria suplantado Damasco), é agora um reduto de ignomínia, cercada de morte e desespero. A narrativa da actualidade banalizou mais este crime contra a humanidade. Cidade mártir, terra bombardeada, onde as pessoas se tornaram moeda de troca ou escudos humanos das conveniências dos senhores da guerra. Nem sequer se cumprem tréguas para garantir a saída de civis, velhos, mulheres, crianças que, em Alepo, se transformaram em carne para canhão. 
Nesta guerra, que envergonha ou devia envergonhar o mundo, há imagens que doem, a que se poderia talvez sobrepor a força do célebre quadro de Munch, como legenda absoluta e definitiva. Abrimos os olhos de espanto, custa esquecer aquela imprecação da mulher no meio dos destroços, levantando os braços ao alto, como se quisesse interrogar deus ou deuses com um desespero que carrega todas as angústias de que um ser humano é capaz; ou aquela criança de olhos esbugalhados para o absurdo em que o seu mundo se transformou como destino. A síntese de tudo isto poderá definir-se apenas com uma palavra: morte. Uma palavra que é preciso repetir mil vezes e se deve transformar em remorso colectivo. Os vencedores da guerra, sejam eles quais forem, serão sempre triunfadores do mal. Vencedores da sordidez e da desumanidade manejando os mortos como meros casos estatísticos, como dizia o outro.
O Victor Cunha Rego deixou-nos há anos uma frase, que era uma advertência: o mundo está cada vez mais perigoso. Penso nisso agora, neste exacto momento em que escrevo. Está muito mais perigoso. Perigosíssimo. Nem a época de ser bom, que dizem ser o Natal, escapa a essa contingência do tempo que nos coube em sorte.

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