sábado, 31 de dezembro de 2016

MIL ROSTOS

FOTO DE DANIEL MORDZINSKI, 2016

DANIEL MORDZINSKI

Decifrar o rosto dos escritores através dos instantes que a fotografia capta, procurando na imagem surpreendente e inesperada uma espécie de captura da "alma", é um velho desafio que se confunde com a história dos caçadores de imagens, que nos ajudam a prolongar a ilusão de eternidade dos grandes criadores que já partiram. Sempre me fascinou essa busca dos mil rostos, que podemos revisitar vagarosamente, como quem vai ao encontro das palavras, dos versos, das histórias que fizeram vida e tornaram a substância dos dias em lume de futuro.
Gosto de folhear esses álbuns, essas fotobiografias que nos desdobram imagens que arquivam traços biográficos essenciais, mil rostos, em que enquadramos sempre o de Pessoa ou a pose imponente de Borges caminhando sobre as sombras da cegueira. Há dias, andei pelo mundo de Jorge de Sena (A Voz e a Imagem), na sua monumental fotobiografia, para me cruzar com o seu chão de vida tão bem documentado na edição monumental. As páginas ficam coladas à mão, para nos determos no filme das imagens, paramos para descobrirmos pormenores, olhares, circunstâncias. Também é assim com a fotobiografia de Eugénio de Andrade (O Amigo Mais Íntimo do Sol) ou as de Eduardo Lourenço (Tempos de Eduardo Lourenço), de José Marmelo e Silva (Não Escrevo para Ganhar Dinheiro) ou de António Ramos Rosa, que inclui belíssimas fotos (passe a declaração de interesse) de meu filho Ricardo Paulouro Neves, ou do poeta Albano Martins. Mil rostos, então, que nos fazem companhia. Andei nestas navegações porque hoje, no café matinal que comporta a leitura do "El Pais", Leila Guerriero escreve uma matéria interessante precisamente sobre o tema "quando o escritor é a paisagem". Diz ela que "a imagem dos autores é a parte fundamental da memória que guardamos deles". Eu prefiro alargar o universo da memória às palavras e à poesia, sobretudo a esta, que dizia Octávio Paz é a escrita da biografia dos poetas. "Há um fotógrafo, há uma câmara, há uma paisagem", escreve a cronista. "Essa paisagem é um rosto. O rosto austero, de olhos de febre, de um senhor chamado Samuel que escreveu, entre outras coisas, algo chamado À Espera de Godot. Ou o rosto de bigode quase cómico de um senhor chamado James que escreveu, entre outras coisas, Finnegans Wake. Ou o rosto de uma mulher chamada Virgínia que escreveu, entre outras coisas, algo chamado As Ondas. Há um fotógrafo, há uma câmara, há um rosto. Só que não é qualquer rosto, mas um rosto que estava ali quando esse homem ou essa mulher escreveram Enquanto Agonizo ou Cem Anos de Solidão. Há uma câmara, há um fotógrafo que espera o instante preciso para disparar e lograr... o quê? A imagem definitiva de Beckett, Neruda, Woolf." Entre os fotógrafos famosos, que fizeram muito do inventário dessas vidas, figura o meu amigo Daniel Mordzinski, que tive a sorte de encontrar quando Luís Sepúlveda venceu o Prémio Eduardo Lourenço, do Centro de Estudos Ibéricos. No companheirismo da jornada, Mordzinski falou-me da viagem com Sepúlveda à Patagónia, mas também das fotos que fizera a Borges ou a Cortázar. E, no meio da conversa, também eu ganhei uma fotografia dele, que aqui deixo hoje pelo sentido estético e a força que o retrato revela. Leila Guerriero conta de Mordzinski: "Em 1978, o argentino Daniel Mordzinski trabalhou como assistente num documentário sobre Borges. Um dia, durante a rodagem, tomou-lhe uma foto. Agora, 38 anos depois, retratou centenas de escritores que, nas suas fotos, não aparecem junto a uma biblioteca, mas jogando aos cowboys, ou dormindo junto a uma marionete, ou se autoparodiam gozando com os lugares-comuns que circulam à sua volta: Vila-Matas posou como um sátiro exibicionista de si mesmo, abrindo um sobretudo repleto de fotos suas". 
Mil rostos na ilusão de que eles continuam connosco. Nunca pagaremos, por isso, tudo o que devemos aos caçadores de imagens.

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