segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O MUNDO DE ALBANO MARTINS

Na biografia de uma obra em que a poesia é o elemento vital, outros voos essenciais definem o percurso criador de Albano Martins como autor de horizontes vastos sobre o mundo, a  arte e a escrita. Esse universo multímodo, onde avultam, para além do alimento primordial dos versos, as traduções da poesia grega clássica, de Pablo Neruda ou da poesia italiana, a que se acrescenta uma reflexão persistente sobre a problemática literária e cultural, como grandes desafios às perplexidades da condição humana.
É nesse sentido que se inscreve a publicação do terceiro volume de Circunlóquios, onde o autor reune ensaios e crónicas, alguns inéditos, dá expressão a um memorialismo onde se reflecte muita da sua afectividade e das vivências de um companheirismo muito especial com gente do mesmo ofício,como é o caso dos textos sobre António Ramos Rosa, Raul de Carvalho, Lêdo Ivo ou Cruzeiro Seixas. Circunlóquios III é igualmente importante pelas quatro entrevistas em que Albano Martins se explica, e, explicando-se, fala do seu ofício de poeta e da sua relação com o mundo.
Talvez a raiz da sua poesia esteja nas palavras que um dia escreveu assinalando a riqueza da Língua como matéria de sonho; "Quando Vergílio Ferreira, num texto emblemático, proclamou "Da minha língua vê-se o mar", podia ter acrescentado, com toda a propriedade, que dela se vê também a terra com seus montes, seus vales, seus rios, seus bosques e seus pomares". E acrescenta: "Organismo vivo, posto ao serviço de seres vivops, a língua carrega consigo os mundos todos: o visível e o invisível, o sensível e o que apenas se pressente, o audível e o inaudível. A língua é, além disso, um instrumento musical onde pulsam todas as variedades tímbricas. Ela é "tuba canora e belicosa", mas também lira, flauta, harpa celeste e violino. Nela cabem todos os sons -- todos os tons -- da escala e as suas modulações. A língua portuguesa nasceu molhada: pelo sangue derramado nas campanhas da reconquista, primeiro; pela água dos mares vencidos pelas quilhas das naus das descobertas, depois; mas também pela água das nascentes -- a água pura da "fontana fria" de que fala uma bonita cantiga de amigo de Pero Meogo que ecoa até hoje na nossa memória e permanece no nosso imaginário poético, quer dizer, no nosso tradicional  e colectivo vocabulário lírico. Julgo que a minha poesia recebeu algo dessa água lustral e que nela vibram os sons da música saída das flautas e dos violinos da sua polifónica orquestra verbal".
A tudo isso acresce a raiz funda que Albano Martins mantém à sua Beira. Eu próprio publiquei um ensaio sobre essa pertença poética. Daí que Circunlóquios III toque também nessa reserva íntima do poeta, em textos em que o autor revisita o universo originário do Telhado (onde nasceu) e da Capinha (onde frequentou a escola primária). Eu costumo dizer que há uma poesia que traduz essa fidelidade à terra, poema que Albano Martins inclui num desses textos:

Pertenço  a esta
geografia, ao lume branco
da resina, ao gume
do arado. A minha casa
é esta: um leito
de estevas e uma rosa
de caruma abrindo
no tecto do orvalho

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