sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O SONHO E A REALIDADE

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Ao lume de um tempo em que o Homem todos os dias é reduzido na sua dignidade, o Natal é sempre um aceno de esperança na radicalidade de uma mensagem universal de sentido libertador e fraterno. Vem da fundura dos séculos a afirmação de um tempo em que a aventura cósmica do Homem, fazendo-se intemporalmente a si próprio, na incessante busca de um mundo melhor e mais justo, se refaz na metáfora do Natal, como se os territórios da infância que ele evoca fosse o leit-motiv de futuro que cada um precisa para enfrentar os desafios do tempo. É verdade que num modelo de sociedade que mercantiliza tudo -- até os valores humanos -- e canaliza a crueldade à escala planetária -- as Sírias do nosso descontentamento! -- ampliando a violência e glorificando o triunfo da exclusão social e das desigualdades, desvalorizando a acção solidária e o compromisso social, o sentido projectivo do Natal pode parecer arcaísmo ideológico ou ingenuidade cada vez mais fora de moda. Mas só em parte é assim. A humanidade ainda não é um remorso colectivo. "O deserto avança, mas uma árvore ou um poema podem ainda salvar o mundo", escreveu o Poeta Eugénio de Andrade, ele que sonhou sempre uma mundo "mais limpo e habitável".
Penso para mim que o Natal, como ideia e mensagem primordiais, superam os circunstancialismos limitadores da condição humana, permanecendo como luz que continua a iluminar (e a inquietar) a caminhada do Homem. De facto, o que prevalece é a metáfora de uma gruta, um mundo configurado à sobriedade da pobreza onde se cruzam olhares de bondade focados numa criança que nasce, e a placidez amiga dos animais. O quadro, na sua simplicidade, contém afinal a exemplaridade de querer dizer que a comum humanidade do presépio não é outra coisa senão aqueles versos do Armindo Rodrigues que reivindicam a utopia do homem -ser-irmão-do-homem.
É isso que apetece dizer quando as chamas dos madeiros começam a crepitar e alumiam os adros das terras da Beira.
Aos meus Leitores, votos de saúde e felicidade.

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