quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

RECEITA PARA FAZER DITADORES

    Lembrei os poemas de Brecht sobre os tempos sombrios no nazismo ("Que tempos são estes em que defender uma árvore parece um crime?", estou a citar de memória), em que ele falava do pintor medíocre que tinha chegado ao poder na Alemanha, porque li um interessante artigo no "El Pais" (autoria de Luis Doncel) em que analisa uma biografia sobre a vida do Fuhrer, desde o seu nascimento até 1939, em que se retrata um "Hitler mais normal". É certo que, por todo o lado (até cá!), não têm faltado exemplos piedosos de reabilitação de ditadores e de malfeitores que prendiam as pessoas de bem, quando o país era um "remorso colectivo".

No artigo em causa, o autor coloca uma interrogação pertinente: "até onde se pode humanizar o monstro?" Que olhar se pode, tantos anos depois mas com tantas feridas abertas, lançar sobre "o grande genocida". Na análise à biografia de Volker Ullrich, cita-se a definição que o New York Times fez do livro: "uma admirável parábola shakesperiana. A nota crítica sugeria "paralelismos com o presidente dos Estados Unidos. Donald Trump". Volker (que tinha em 2013 escrito sobre o tema) justifica o interesse por este regresso a Hitler: "Sem ele, não se tomava nenhuma decisão no III Reich", e, por estes dias, "quando em todo o mundo triunfam líderes autoritários e carismáticos interessa ainda mais responder à pergunta: como foi possível?"
O jornalista pergunta-lhe: por que pensou que o mundo necessitava de outra biografia de Hitler? Volker Ullrich respondeu: "Escrevi-a no convencimento de que este tipo de políticos está de volta. São os que sabem como mobilizar os medos e esperanças em épocas de crise. Isso o entendeu Hitler melhor que ninguém durante a República de Weimar. Apresentou-se como o Messias que devolveria a grandeza à Alemanha". Ulrich mostra como o ditador nazi, ao contrário do que se diz, tinha vida além da política,contrariando as encenações que ele próprio fabricou para si próprio. Os dotes camaleónicos, assevera o historiador, permitiam-lhe falar "como um sábio estadista no Reichstag, como uma pessoa moderada face aos empresários, ou frente às mulheres como um pai bem humorado que ama os seus filhos".
Aqui, sublinha o jornalista, surgem as semelhanças com Trump. Entre as primeiras, o biógrafo assinala "um carácter egocêntrico com tendência a misturar a mentira com a realidade", a "promessa de voltar a fazer grandes os seus respectivos países" ou "a capacidade de ambos de utilização dos meios de comunicação". "Ainda que veja Hitler mais sofisticado e táctico", diz Volker. Mas o artigo não deixa de referir que as diferenças também são enormes, pois "Hitler nunca obteve maioria absoluta numas eleições democráticas (foi designado Chanceler pelo Presidente da República depois de ter sido o partido mais votado com 33% dos votos)" e o seu partido nacional socialista "estava totalmente centrado no Fuhrer". "Trump lança proclamações xenófobas e machistas mas não sabemos se é apenas retórica eleitoral".
Volker Ullrich faz um "retrato dual" de Hitler, mas a pergunta fundamental fica sem resposta. "Como foi possível?" Resposta possível do biógrafo: "Hitler beneficiou de uma constelação única de crise que aproveitou de uma forma inteligente e sem escrúpulos. Teve uma relação simbiótica com o povo alemão. Nunca teria chegado ao poder se não tivesse explorado ideias profundamente arreigadas na tradição cultural do país: nacionalismo extremo, antisemitismo profundo, ressentimento contra o parlamentarismo e a democracia. Alemanha era o caldo de cultivo para estes políticos carismáticos". Ou para ditadores potenciais.

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