sábado, 9 de janeiro de 2016

OS RISOS DE MARCELO


Um dos aspectos mais mistificatórios da campanha de Marcelo Rebelo de Sousa é fingir que a sua candidatura é independente e que o apoio do PSD e do CDS é uma coisa puramente circunstancial, que lhe caiu do céu. É como se ele apagasse subitamente da sua biografia todo o percurso político  que o levou, na ditadura, ao apoio ao Marcelismo - ao Marcelo Caetano, o outro -, e, depois à sua condição de secretário de Estado de Sá Carneiro, ministro de Balsemão, secretário geral do PSD, apoiante da PAF (do governo de Passos e Portas), de admirador e apoiante de Cavaco Silva. Agora, na campanha, veste o fato de independente, esconde os símbolos do PSD e do CDS, quer andar de braço dado com a esquerda e o centro, pondo a direita no armário das conveniências. Ele gosta de tratar os portugueses como idiotas.
Para se perceber como Marcelo-ele-próprio não acredita nesta efabulação, criada por si, basta ler o que ele respondeu - e como respondeu! - a uma pergunta, na entrevista hoje concedida ao "Diário de Notícias":
Está à espera que Paulo Portas e Passos Coelho apareçam na sua campanha?
- É uma questão que vou ter de ponderar. Devo reconhecer que o dr. Passos Coelho teve já declarações mostrando que compreendia perfeitamente que uma campanha independente fosse uma campanha independente. [Risos].
Risos, fez ele. É, de facto, para rir, tanta lata para negar o que foi e é público e notório!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O VOTO DE CAVACO

Recolho da entrevista que Sampaio da Nóvoa concedeu ao "Diário de Notícias": "A ideia que Marcelo tem para o país é totalmente colada ao que foram os últimos quatro anos e meio das políticas do PSD e do CDS. Marcelo foi sempre coerente, do ponto de vista político, como um homem da direita portuguesa. Nós sabemos, porque isso é público em quem o general  Ramalho Eanes, o dr. Mário Soares e o dr. Jorge Sampaio vão votar: vão votar na minha candidatura.
Por isso, é que ninguém tem dúvidas em quem votará o dr. Cavaco Silva, não é? Em Marcelo. Ele é, obviamente, o homem que esteve nas candidaturas de Cavaco, que se mobilizou por elas, ainda que agora queira parecer uma espécie do seu contrário".
É como a prova do algodão: não engana! A cada candidato o seu Presidente(s)...

QUANDO O VERNIZ ESTALA

DESENHO DE JOÃO ABEL MANTA
Foi o primeiro debate a sério desta campanha eleitoral, tão formatada pelas televisões na over dose da banalidade, na pobreza demagógica de tantos candidatos, como se a eleição de um Presidente da República fosse espectáculo menor da política, uma espécie de dividir o mal pelas aldeias, o que é sempre uma estratégia informativa deplorável. Ontem, o debate na SIC, foi um verdadeiro frente a frente entre Sampaio da Nóvoa e Marcelo Rebelo de Sousa. Houve mudança de qualidade: Sampaio da Nóvoa, confrontando Marcelo Rebelo de Sousa com a memória das suas posições, com a sua política biface - uma caricatura de Tartufo à escala portuguesa... - obrigou o candidato apoiado pelo PSD e o CDS (va de retro satanás... afastem de mim esse cálice!) a perder o ar do candidato que só vendia chá e simpatia e a mostrar como o contraditório, coisa de que ele se dispensava nas missinhas dos seus comentários, durante quinze anos. Não era a vaca que ri -- era a vaca sagrada, ungida pelos deuses, que ruminava semanalmente verdades indiscutíveis.
Marcelo apresentou-se nestas eleições como se a sua biografia não estivesse manchada pelas políticas de direita, sempre contra os direitos colectivos e as conquistas de Abril (como o Serviço Nacional de Saúde ou a Escola Pública, como lembrou, com factos, Sampaio da Nóvoa) e, nos últimos anos de devastação social, apoiando a austeridade e a destruição do Estado Social. Tudo isso lembrou Sampaio da Nóvoa sublinhando como, ainda nas últimas legislativas, andou feliz e contente apoiando Passos & Portas e desejando a continuidade das suas políticas... E agora aí o vemos como se nada disso tivesse existido.
Confrontado com os factos, ele enervou-se, esbracejou. E chegou àquela retórica de perguntar ao contraditor: onde estava no 25 de Novembro? Ou na Constituinte? Curiosamente, não perguntou onde estava o seu adversário no 25 de Abril, uma data que não constará no seu manual de inquisidor. Ele sabia (e nós também) que Sampaio da Nóvoa lhe poderia dizer que uma coisa não tem na sua biografia: a de ser informador sobre o que se passava no Congresso Democrático de Aveiro, na cartinha que escreveu a outro Marcelo, o Caetano, e que Freire Antunes um dia foi descobrir no Arquivo do ditador.
A memória é uma coisa lixada. Faz cair muitas máscaras... O que num candidato tão versátil, é perigoso. Acabou o tempo do chá e simpatia!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

O REI VAI NU...

Um amigo aponta-me uma perplexidade sobre a compatibilidade do candidato apoiada pelo PSD e CDS à Presidência da República, Marcelo Rebelo de Sousa, ser presidente do Conselho de Administração da Fundação da Casa de Bragança e associar-se às respectivas manifestações monárquicas e, ao mesmo tempo, querer ser Presidente da República.
Decerto que a incompatibilidade poderá ser do domínio ético, mas eu já tranquilizei o meu amigo: isto é, apenas, mais uma aspecto da comicidade biográfica do candidato Marcelo Rebelo de Sousa. Mas lá que, além de cómico, é estranho, é...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

MARCELO E A ARTE DE ESCONDER

Nas mistificações que por aí vão desfilando, à medida que correm os dias da campanha para as Eleições Presidenciais, há estranhas omissões e vacuidades. Marcelo não quer ouvir falar em Passos e Portas, e uma espécie de cérebro branco fez esquecê-lo que participara com entusiasmo na campanha para as legislativas, ao lado daqueles que agora, por oportunismo, acha pouco recomendáveis! Alijando da sua biografia tudo aquilo que poderia ser comprometedor, desde os tempos de outro Marcelo - o Caetano - aparece agora como espécie de homem invisível, passando, sem se ver, pela história de vida que lhe possa trazer incómodos. Claro que os jornalistas não perguntam e mesmo os outros candidatos parece que têm medo em confrontá-lo...
O que é mais estranho é essa omissão aos acontecimentos de quando apoiava o PAF (Passos & Portas eram salvadores da pátria) e as suas políticas de austeridade, mais a Troika e todos malefícios que se conhecem: pobreza, desemprego, desigualdades, acções predatórias contra os velhos e os funcionários públicos. Isso é tudo omisso. Agora a retórica de Marcelo é de sinal contrário: viva o Costa! e o Estado Social!, já cá não está quem falou!
Apetece voltar àquela pergunta que Baptista-Bastos celebrizou, desta vez não para perguntar "onde estava no 25 de Abril" (todos sabem onde ele navegava), mas para lhe perguntar: onde estava nas últimas eleições legislativas?

A CERVANTES VAI ENCERRAR?

Quem conhece e ama Salamanca, tem a sua monumentalidade na memória. Sabe como a Livraria Cervantes se tornou parte referencial da cidade que é património da Humanidade. A Cervantes era um mundo ou um universo, como Borges diria se por lá tivesse passado e ganhasse tempo a tocar os livros ou a respirar os saberes que ali se cruzavam. Pensávamos todos que a Cervantes era eterna ou viveria um tempo ainda mais longo do que a história já leva de vida: 80 anos!
Um dia destes, um jornal de Salamanca publicou uma notícia que nunca gostaríamos de ler: "Cierra la mítica librería Cervantes tras casi 80 años de actividade". E acrescentava: "Como diría García Marquéz, era la crónica de una muerte anunciada. La librería Cervantes de Salamanca, la más emblemática de la ciudad y uno de los grandes referentes nacionales en el sector bibliográfico, cierra sus puertas. La jubilación de Jesús Sánchez Ruipérez, propietario del establecimiento, y la falta de un proyecto de continuidad por parte de sus familiares ha llevado al librero salmantino a tomar esta decisión y echar el cierre en los próximos meses".
Lia este pré-obituário e não pude deixar de pensar na entrevista recente que Manuel Rivas concedeu ao "Babelia", do "El Pais", em que o cronista e escritor bem sublinhava que a Literatura é resistência" e considerava uma exigência cívica e cultural "salvar as livrarias". Aliás, o seu último romance, "El último día de Terranueva, narra precisamente  o pós-guerra através da vida de uma livraria condenada ao encerramento". Quando olhamos para antigamente, todos teremos lembranças de livrarias que eram alimento primordial de pequenas vilas ou cidades, lugares de cumplicidades onde se aprendia, de alguma forma, tomando contacto com os livros, a resistir. 
Nessa geografia de memória, lembro, no Fundão, o Zé Henriques Abrantes, com as suas prateleiras onde sabíamos exactamente onde estavam os escritores brasileiros, como o Jorge Amado, ou os portugueses, como o Redol e o seu "Barranco de Cegos". E por aí fora... Na Covilhã, como não recordar a Livraria Nacional e o senhor Mendes dos Santos, que até editou livros de poesia, e fez da Nacional um ponto de encontro da Cultura: foi lá o Ferreira de Castro e penso que o Erico Veríssimo e,ainda lá apresentei um romance do Manuel da Silva Ramos e do Alface, salvo erro o "Beijinhos", num fim de tarde em que a neve tinha descido até quase à cidade. E, em Castelo Branco, a Livraria do dr. Pinto Garcia, um homem de cultura que amava a história e a literatura como poucos, que tinha sempre bons conselhos de leitura, fosse para os clássicos, fosse para os modernos autores portugueses. E também o stand Vidal, onde havia uma verdadeira cumplicidade na venda de livros proibidos... 
Agora, parece que os sinos vão dobrar pela Cervantes. Se isso acontecer, eles decerto estarão também a dobrar por nós.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

FREITAS ABENÇOA MARCELO

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Na engrenagem de propaganda ao candidato Marcelo Rebelo de Sousa, a tvi levou lá o Prof. Freitas do Amaral, a fazer o frete lamentável de elogiar o parceiro. Um tempo de Antena, à semelhança dos que havia antigamente. Não esperava, contudo, assistir a um procedimento pusilânime de Freitas do Amaral, onde, assumindo a postura de inspector pidesco disse desconhecer a vida (privada?política?) do Prof. Sampaio da Nóvoa, chegando ao ponto de insinuar que ele poderia estar em Tancos, no 25 de Novembro. A Pide ou a DGS, que é mais do tempo em que Freitas abençoava a ditadura, não fariam melhor. A "jornalista" poderia ter-lhe dito que até foi publicado, já durante a campanha, uma biografia (não oficial) do Prof. Sampaio da Nóvoa, com a fotografia do candidato na primeira página, que é um trabalho sério do jornalista Fernando Madaíl, como reconheceu, aliás, Pacheco Pereira que sublinhou o facto de isso nem sempre acontecer em biografias que andam por aí (a de Passos Coelho, por exemplo). Nesta campanha eleitoral não têm faltado à comunicação social a fabricação de acontecimentos de favorecimento do super-protegido Marcelo, tratado como um candidato que Deus tivesse enviado à "santa terrinha" (como dizia o Jorge de Sena) par redimir o comportamento político dos indígenas.
Tão indignado como eu, o meu amigo António Russo Dias colocou o seguinte comentário na sua página:
"Compreende-se o apoio de Freitas do Amaral a MRS. Ele próprio enumerou algumas razões como a antiguidade da amizade e os laços académicos e profissionais que os unem. "Esqueceu-se" de uma outra: ambos foram entusiásticos apoiantes do fascista Marcelo Caetano. Veremos agora quais serão os apoiantes dos outros nove candidatos que a seráfica locutora entrevistará a seguir".

MIL CHICOTADAS!

Talvez se perceba melhor a ofensiva que vai um pouco por todo o lado contra o direito à informação e a liberdade de informar (em Portugal, também, embora com "brandos costumes": outras espécies de mortes -- os despedimentos, as precariedades...) se lermos com alguma atenção o último relatório de Repórteres Sem Fronteiras, que inventaria a seguinte situação no ano que passou: "sessenta e sete jornalistas foram mortos em todo o mundo em 2015 no exercício da profissão, de uma lista de 110 profissionais que perderam a vida em circunstâncias pouco claras. A esses juntam-se 27 bloggers e outros sete colaboradores de meios de comunicação social, elevando para 787 o número de mortos na última década. O Iraque teve o maior número de jornalistas mortos em 2015 (nove confirmados de 11 possíveis), seguido da Síria (nove de dez), ambos palco de conflitos armados e com a presença do grupo extremista Estado Islâmico (EI). A França subiu ao terceiro lugar (oito de oito) devido ao atentado terrorista contra a redação da revista satírica Charlie Hebdo a 07 de janeiro, que fez 12 vítimas. Seguem-se na "lista negra" o Iémen, o Sudão do Sul, Índia e México, indicou a RSF. A maioria das vítimas era jornalista local (97%) que trabalhava fora de zonas de conflito (64%), ao contrário do que sucedeu em 2014, quando a grande parte dos 66 jornalistas foi assassinada em zonas de guerra. "É imperativo adotar um mecanismo concreto para a aplicação do direito internacional sobre a proteção dos jornalistas", declarou o secretário-geral da Repórteres Sem Fronteiras, Christophe Deloire. Neste sentido, considera imperativo que as Nações Unidas designem um "representante especial" para a proteção dos jornalistas".
Aqui, referem-se as situações mais dramáticas. Mas há muitas outras, envoltas em silêncios cúmplices, em prisões miseráveis, onde a desumanidade e a negação do Homem são expressão nas torturas mais horríveis, para os quais a banalidade do esquecimento é a receita.
Um desses casos é Raif Badawi, jornalista da Arábia Saudita, condenado a 10 anos de prisão e a mil chicotadas. Crime: pensar e defender a Liberdade.
É por isso que hoje aqui reproduzo a capa do livro 1 000 Coups de Fouet - Parce que j'ai osé parler librement, já publicado na Alemanha e em França, que a querida amiga Fernanda Gabriel, jornalista sempre na luta pela liberdade de expressão, me ofereceu. E eu aqui deixo o nome da vítima - RAIF BADAWI - que é sempre uma forma de inquietar consciências. Lembro-me bem como, quando a liberdade era proibida em Portugal e as prisões estavam cheias de pessoas de bem, a importância que tinha pintar clandestinamente numa parede um nome seguido da palavra LIBERDADE. E lembro, também, o alento que representava uma notícia sobre qualquer destas arbitrariedades saída na imprensa estrangeira. No fundo, a mesma coisa que o grande Pablo Neruda fez no Canto General, quando no meio dos seus versos denuncia a longa prisão de Álvaro Cunhal.
Às vezes, basta um nome, um grito, uma bandeira, uma batalha para que a esperança se reproduza, como um dia escreveu o poeta Egito Gonçalves, no belíssimo poema que dá nome a este Blogue: Notícias do Bloqueio.

domingo, 3 de janeiro de 2016

A INDIGNAÇÃO DO ZÉ

Tinha acabado de escrever o comentário sobre os debates de via reduzida e a manipulação que por aí vai sobre as Presidenciais, e já o meu querido Zé Dalmeida, muitas vezes parceiro de ironia, com as suas ilustrações, neste Notícias do Bloqueio, fazia um grito de indignação sobre o colinho que a comunicação social está a dar ao Marcelo. Que interesses estão subjacentes a isto? Ele indignou-se, e muitos outros também, com a edição de hoje do "Público". E eu, meu caro Zé, faço também minha a tua indignada exclamação:
"O jornal "Público" fez hoje um atentado ao jornalismo. Capa e oito páginas para levar ao colo o candidato Marcelo... Assim, Porra!"
Caro Zé, a "choldra"bem merece o teu sarcasmo. Como diz o BB: não os deixes estrebuchar!

DEBATES DE VIA REDUZIDA


(Declaração de interesse: pertenço à candidatura de António Sampaio da Nóvoa)

Se houvesse dúvidas de que as eleições Presidenciais estão a decorrer num contexto informativo que objectivamente as desvaloriza, bastaria ouvir a maioria dos debates televisivos e dar alguma atenção à forma que eles assumem para perceber que se está a produzir um profundo défice de esclarecimento dos portugueses. A receita para conduzir à indiferença é fácil: três debates por dia (só um, o da RTP, em canal aberto), em forma de contra-relógio, mais vocacionados para a fulanização das questões e menos para a discussão sobre o sentido da função presidencial. A isso acresce aquela ideia tão peregrina por aí (e com tão efeitos práticos na sociedade contemporânea) de que o excesso de informação é a melhor maneira para desinformar. Os debates da tv vão nesse sentido, alegremente, com o objectivo não de esclarecer os indígenas, mas fazer apenas pequenos espectáculos para distrair as audiências acríticas e de rebanho.
Um dos sinais dessa desvalorização é o tempo disponível para os debates, que a maior parte das vezes se esvaziam em generalidadees ou ataques pessoais, que é aquilo de que as televisões gostam. Ainda ontem, o debate entre Sampaio da Nóvoa e Henrique Neto foi, a vários títulos lamentável. Bem sei o incómodo de Sampaio da Nóvoa em responder à letra ao seu opositor, porque a um velho, diz-se, tudo se deve tolerar. Então, o moderador, José Rodrigues dos Santos, também a navegar nessas águas, deixou andar ou fazer corpo com Henrique Neto. Sampaio bem tentou que o diálogo se deslocasse para o futuro, mas os outros queriam apenas o passado (o "jornalista" até obcecado com Sócrates!), e Neto com a Universidade (estaria industriado por Mira Amaral?). Deplorável.
Assim vamos. E hoje, o "Público" publica uma entrevista com Marcelo oito páginas no interior (sempre perguntas porreiríssimas!) e uma foto quase de página inteira, na primeira, com o candidato em pose pré-presidencial. Vamos esperar que os restantes candidatos tenham idêntico tratamento. A ver vamos, como diz o cego.