sábado, 23 de janeiro de 2016

VOTAR A COR DA LIBERDADE

Amanhã, há eleições para a Presidência da República. No período de reflexão em que estamos - o que parece um estranho anacronismo - vem-me sempre à memória o longo combate contra a ditadura, pela liberdade e pelos direitos elementares entre os quais o direito de votar e eleger os representantes do povo. Duros combates, batalhas infindáveis, um tempo longo que parecia eterno, mas cuja eternidade era sempre estilhaçada pela esperança.
Alguns, que viviam no conforto da ditadura, às vezes com duplicidade, é verdade, escamoteiam hoje essa relação promíscua, como se a vida tivesse sido uma coisa linear; muitos outros, ficaram pelo caminho e houve um poeta portuguesa, um dos melhores, Jorge de Sena que escreveu: "Não hei-de morrer sem ver a liberdade". E os seus versos eram uma paleta de cores como numa grande tela onde estivesse escrita a palavra Liberdade.
A palavra liberdade também nós a escrevemos, todos os dias, na cidadania e na acção cívica, no exercício desse direito tão difícil de conquistar e que o 25 de Abril materializou, somando-o a muitos outros que são parte inteira da dignidade humana. Também nós podemos saber as cores da liberdade, de que falava Sena, na forma como encararmos a eleição de um Presidente da República - um Presidente que se identifique com Abril e que seja capaz de renovar a esperança colectiva. Amanhã é outro dia.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A FARSA DE MARCELO

Marcelo Rebelo de Sousa continua o seu jogo de sombras, como se não estivesse a disputar umas eleições para a Presidência da República, mas a tratar da sua entronização, como se tivesse sido ungido para guiar os portugueses ao bom caminho da reconciliação. E lá vai continuando a narrativa da sua missinha, com vista ao que ele chama o propósito de unir os portugueses. Saudoso de uma união nacional?
O mais surpreendente é a farsa que Marcelo vem representando, afivelando a máscara de candidato independente, de acordo com as circunstâncias, fazendo dos portugueses idiotas. Ainda ontem, visitando a Câmara do Porto, assumia a sua condição de independente, como Rui Moreira, disse ele, com a maior das naturalidades. É caso para dizer: independente, mas pouco...  De facto, que raio de independência é a de um sujeito que é o candidato do PSD e do CDS, de Passos e Portas, que ainda há dois meses andou na campanha do PAF, defendendo a continuação das políticas que tornaram a vida dos portugueses num inferno! Que raio de independência! Que raio de candidato!

SONDAGENS
As sondagens, ontem divulgadas, não garantiam a vitória de Marcelo à primeira volta, embora alguns jornalistas, numa vergonhosa subserviência, dessem como certa a sua eleição e quase já lhe chamassem Presidente. E, no entanto, na RTP, Pedro Magalhães, que comentava a sondagens da católica, ia advertindo que todas elas, afinal, davam como bem possível a segunda volta... É por isso que é preciso votar em Sampaio da Nóvoa. Depois, na segunda volta, cá estaremos para estragar a entronização de Marcelo e a sua união nacional...

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

MARCELO E OS MEDIA: NEM BERLUSCONI...

O Prof. J.-M. Nobre-Correia publica hoje no "Público" um artigo em que analisa a conexão do candidato Marcelo Rebelo de Sousa e o universo dos média portugueses. O texto, intitulado "Um Berlusconi mais performante" (que pode ser lido clicando na coluna das Leituras deste Blogue) não deixa de ser um retrato bastante objectivo da construção de um candidato, ao longo de décadas, com a cumplicidade bacoca dos média portugueses. Transcrevo dois trechos que são bons instantes de reflexão sobre a sociedade portuguesa:

"A campanha para as eleições presidenciais mostra bem a urgência que há em repensar o modo como média e jornalistas concebem a informação. E como ao longo dos anos impuseram o candidato “Marcelo”… Seja qual for o desfecho que a campanha para as eleições presidenciais venha a ter, média e jornalistas deveriam tomá-la como tema de reflexão. Urgentemente. E não só sobre a maneira como cobriram a dita campanha. Sobre as prioridades que deram a tal ou tal outro personagem ou tema. Sobre as formas de tratamento que adotaram para abordá-los. Até porque, no fim de contas, estas e outras interrogações se põem de maneira geral e constante no que diz respeito à maneira como a informação é concebida neste país…
Mas a principal interrogação que as eleições presidenciais propõem é a que diz respeito a Marcelo Rebelo de Sousa. Um personagem nascido e criado na fina-flor do salazarismo, denunciador de comunistas ou simples opositores ao regime, que depois do 25 de Abril se pôs a utilizar os média para intrigar e manobrar. Nas célebres páginas 2 e 3 do Expresso primeiro. Depois no Semanário e bastante mais tarde na dupla penúltima página do Sol. Paralelamente na TSF e em seguida na TVI, na RTP e de novo na TVI.
A dupla página no Expresso como no Sol e a emissão dominical na TVI (para falar apenas naquelas a que pudemos ter pessoalmente acesso) constituíam em termos jornalísticos perfeitas aberrações. Em termos de tamanho (gigantesco), de escrita (singularmente descosida) e de temática (exageradamente saltitante), nenhum média europeu norteado por princípios profissionais teria aceitado assumi-los. Até porque não tinham parentesco algum com o que pretendiam ser: análise política. Mas também porque nenhum média jornalisticamente decente admitiria que um antigo dirigente político, indesmentível e permanente militante partidário, pudesse ter a pretensão de fazer análise política, género jornalístico que tem por autoria politólogos ou jornalistas seniores altamente especializados.
Não impede que, durante os quatro decénios de democracia, Rebelo de Sousa se tenha feito pagar principescamente para marcar presença. Para se fazer ler. Para se fazer ouvir. Para se fazer ver. Para fazer o seu “show”. Para, na altura que viesse a achar mais apropriada, viesse a candidatar-se à Presidência da República. Sem necessidade de fazer uma campanha de imagem dispendiosa, porque a imagem já tinha sido feita e até lhe tinha sido sumptuosamente paga.
(...)Esta impunidade foi fruto de um relacionamento cuidado com o meio jornalístico, sendo Rebelo de Sousa uma fonte privilegiada “off the record” do que se passava em meios de poder que frequentava e em que por vezes assumia funções. Propondo exclusividades em troca de uma imagem positiva dele nos média assim favorecidos. Inventando exclusividades quando se encontrava a seco (Paulo Portas que o diga). Traindo uns e outros (Francisco Pinto Balsemão foi uma das vítimas, segundo as suas necessidades táticas e cataventistas do momento. Mimando os jornalistas de modo a que toda e qualquer declaração sua fosse imediatamente repercutida nos média audiovisuais no próprio dia e na imprensa escrita logo no dia seguinte, de preferência com títulos de primeira página: nenhum verdadeiro analista político usufrui alguma vez de tais benesses por parte dos média no resto da Europa!…"

ETTORE SCOLA E A FÁBRICA DE SONHOS

Na "Fábrica de Sonhos" -- a melhor definição que até hoje vi de cinema, que, penso eu, se deve Morin -- Ettore Scola ajudou-nos bastante a tecer a matéria de sonhos, e, ao mesmo tempo, a ensinar-nos a olhar a realidade em planos de aproximação à vida. Essa sabedoria de contar histórias que está na essência do cinema, era, afinal, as formas solidárias de Ettore Scola se implicar naquilo que a condição humana tem de mais surpreendente: a afirmação de uma humanidade comum aos homens e aos lugares que, às vezes, comportam ignomínias e desigualdades e são, por isso, menos habitáveis.
Então, Ettore Scola, herdeiro do cinema italiano mais comprometido  com a realidade social e histórica, na expressão dos fabulosos filmes do neo-realismo, fascinou-nos, também, com a sua pessoalíssima "Fábrica de Sonhos". A sua filmografia, no drama ou na comédia, representa uma luta incessante na forma de apreender e imaginar o real e contá-lo através de imagens.
Construiu obras que olharemos sempre com o mesmo fascínio e surpresa. Há tempos, estive a rever "Um dia inesquecível", filme realizado em 1977, com as interpretações fabulosas de um Marcelo Mastroiani e uma Sofia Loren. Poucas vezes o ambiente concentracionário do fascismo sofrido no quotidiano foi tão bem retratado. E, no entanto, a caligrafia da linguagem cinematográfica de Scola era de despojamento e de sobriedade: tudo se passa dentro de quatro paredes, a história de um homem, um locutor expulso pelo fascismo da Rádio, e uma mulher doméstico, no centro de uma família, que aplaudia o Duce, no contexto histórico da visita de Hitler a Roma, ao seu parceiro Mussolini.
Um homem e uma mulher, eles próprios vítimas individuais do Estado totalitário que, por momentos, parece inventarem a felicidade possível. Mas o que nos deixa perfeitamente atónitos é a densidade dramática do medo e da vida irrespirável, figurados, sempre, pelo som persistente da parada militar e da narrativa de louvor épico a Hitler e Mussolini, no ritual encenado do "davam-lhes uniformes, estandartes e música".
Na filmografia é impossível esquecer filmes como "Feios, Porcos e Maus", o "Baile", "A Família" (para só citar alguns) ou o documentário sobre Fellini. que ontem passou na RTP2, e tem uma ironia desconcertante. Numa entrevista ao "Liberation", Ettore Scola mostrava, há tempos, o seu desencanto com os labirintos do cinema, na actualidade, designadamente com a produção e a distribuição dos filmes que perversamente dominam os mercados.
Ettore Scola. Vamos continuar a ver os filmes do grande realizador italiano, e nesses instantes seguramente teremos a ilusão de que ele continua connosco.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

MÁSCARAS ENTRE O POVO


Uma das coisas que mais gosto em Sampaio da Nóvoa é a forma como ele encara o interesse e o serviço público e o transforma sempre numa prioridade absoluta. Não é de estranhar em quem tem passado a vida a servir e não a servir-se, no exacto cumprimento da ética republicana. Também nisso encontramos uma singularidade na sua candidatura em relação a outros, que muitas vezes metem no armário das inutilidades a consciência pública.
Gostei de ouvir Sampaio da Nóvoa responder a Marcelo Rebelo de Sousa, quando lembrou a esse candidato a ausência de preocupação sobre o facto de haver "dois países -- um dos mesmos rostos de sempre que se perpetuam na política e no poder mediático, e o de todos aqueles que, independentemente do que deram à causa pública, se deveriam limitar, ouvi-o dizer, à condição de soldados rasos". Oiçam Sampaio da Nóvoa: "Mas soldados rasos somos nós todos, porque isso é que é a República de todos iguais, e não de castas ou de clubes fechados".
É espantoso como nos querem fazer crer que aquela ideia de que todos somos iguais, mas há sempre uns mais iguais do que os outros, é uma fatalidade que os tipos que julgam barões ou detentores, em exclusivo, da acção política, continuam a apregoar, no fundo para continuarem a servir-se -- e não a servir.
Há um poema de Sophia que assenta como uma luva ao papel que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa vem fazendo, desconstruindo politicamente a sua candidatura, com um jogo de palavras que semeiam máscaras entre o povo. Deixo só alguns versos:

"(...) Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras
(...)

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra"

O QUE NÃO QUERIA SER HERÓI

Se calhar são coisas esperadas, vamos tendo conhecimento que a saúde se debilita e a vida se fragiliza, mas quando a notícia da morte de um amigo acontece, e de um amigo com a qualidade de Nuno Teotónio Pereira, percorre-nos não apenas uma súbita tristeza, mas também um tremor interior muito forte, pois temos a exacta noção da enorme perda que o seu desaparecimento representa. Poucas pessoas conheci com a coragem cívica de Nuno Teotónio Pereira, e, ao mesmo tempo, o seu despojamento face à sua condição de resistente ao fascismo ou de militante contra a guerra colonial. Nada o fazia desviar dessa postura, nada abalava as convicções da sua cidadania. Essa recusa de ser improvável herói era, apenas, o sinal da sua dimensão humana e a certeza de que a luta pela Liberdade era sempre uma batalha comum, com muitos heróis anónimos. Na cadeia, a PIDE (prendeu-o quatro vezes) torturou-o brutalmente; Nuno Teotónio Pereira resistia como podia. Eu olhava para ele, perscrutava a sua modéstia na narrativa dos combates, e perguntava-me que raio de país era este em que alguém como o Nuno, com a sua qualidade humana e a sua inteireza ética, podia sofrer assim a impunidade dos carrascos do ditador. Era, do mesmo passo, um homem e um artista que prestou assinaláveis serviços ao país, sobretudo no âmbito da arquitectura, em que Nuno Teotónio Pereira, várias vezes Prémio Valmor, deixou espalhada pelo país (também aqui no distrito de Castelo Branco) a marca do seu talento.
Em Abril de 2015, escrevi neste espaço, o texto que a seguir reproduzo e que intitulei "Nuno Teotónio Pereira: o arquitecto das causas cívicas". E se agora o reproduzo é porque é um um breve aceno ao Nuno Teotónio Pereira -- vivo e inquieto sobre a pátria comum que era preciso libertar, sempre.

"Num país que gosta tanto de fazer justiça a título póstumo, esquecendo normalmente os gestos de ternura e o reconhecimento do mérito aos vivos, temos que saudar a atribuição do Prémio Universidade de Lisboa 2015 ao arquitecto Nuno Teotónio Pereira. A distinção acontece aos 93 anos de uma vida singular no plano criador e no plano humano. A biografia de Nuno Teotónio Pereira, se é muito importante em relação aos horizontes novos e rasgados que abriu na arquitectura portuguesa, também o é pela exemplaridade cívica e cultural, pela coragem que a sua vida reflecte na dura luta contra a ditadura de Salazar e Caetano. Foi um combate que travou como acto pleno de cidadania, pela liberdade, contra a guerra colonial, como se fosse a consciência moral de um povo. Foi preso e brutalmente torturado, mas Nuno Teotónio Pereira assumia esse compromisso com a humildade de quem cumprira apenas um dever na batalha pela liberdade e pela dignidade de um país.
É por isso que a Universidade de Lisboa, ao anunciar a atribuição do Prémio, sublinha justamente que ele distingue o exercício "brilhante" na área da arquitectura e como "figura ética" da sociedade portuguesa. Diz o júri que Nuno Teotónio Pereira contribuiu "de forma notável para o progresso da ciência e da cultura e para a projecção internacional de Portugal". E acrescenta: "Mais do que um profissional brilhante na área da arquitectura, assume-se como uma figura ética que, desde sempre, soube afirmar posições de grande vigor cívico". Destaca igualmente a "sua vasta obra na cidade de Lisboa, que inclui três prémios Valmor", uma obra marcada "pelo constante e o intemporal" e "permanentemente comprometida com a necessidade de se construir uma sociedade cada vez mais justa e cada vez melhor".
Ao Nuno Teotónio Pereira, aquele abraço!"

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O QUE LEMBRO DE ALMEIDA SANTOS

Com a morte de Almeida Santos desaparece um senador da República, que teve um papel relevantíssimo na construção da democracia portuguesa. É assim que agora revejo a sua biografia cívica e as circunstâncias que fizeram dele, beirão talhado em granito, um combatente pela liberdade, desde os tempos da sua militância, como estudante da Universidade de Coimbra, contra a ditadura, e, depois, nas múltiplas batalhas contra o salazarismo e o caetanismo, esse tempo longo de expropriação da Liberdade, em que Almeida Santos esteve sempre na primeira linha do combate.
António Almeida Santos foi um dos obreiros da edificação do Estado de Direito e das transformações políticas que fizeram uma enorme mudança social na vida dos portugueses. Não admira, também, que tendo ele vivido o processo de resistência ao fascismo em Moçambique e as lutas contra a guerra colonial, que tenha tido, também, papel de relevo na construção da independência das colónias, como ministro da Coordenação Inter-Territorial, a seguir ao 25 de Abril.
Mas há que destacar, em Almeida Santos, a sua dimensão humana e o seu perfil cultural, que deram ao seu percurso uma singularidade enriquecedora. Não era, só, o homem política e culturalmente actualizado, o que conferia ao seu convívio um universo de saberes muito especial; era, sobretudo, o homem de memórias, que gostava de contar histórias e cantar o fado de Coimbra, e que foi capaz de transpor essas facetas para a criação literária, como ensaísta arguto sobre a realidade política ou o ficcionista que fez do conto uma paixão. Gostava de trabalhar a palavra, virtualizando numa escrita de grande simplicidade, uma certa oralidade, e garimpando fundo a memória para deixar impresso o traço de uma densa experiência pessoal. O seu memorialismo e o seu ensaísmo político podem agora ler-se como um contributo assinalável para percebermos os tempos que foram os seus no fio da história portuguesa. São cerca de vinte e cinco títulos, em que os géneros se misturam. Enviou-me, com palavras amáveis, alguns dos seus livros, e eu, que os lia com interesse, pensava quando os folheava na vida cheia de Almeida Santos, nas suas batalhas, nas suas causas -- sempre com o traço distintivo da humanidade a marcá-las -- e vinha-me então à lembrança que também ele, como Pablo Neruda, poderia fazer a síntese de uma vida, com um título do poeta chileno: "Confesso que Vivi!"

UMA HISTÓRIA COM O ARCEBISPO DE BRAGA

Não resisto a transcrever aqui uma história que Almeida Santos um dia me contou, com o seu falar cheio de ironia. Nos tempos idos, a seguir ao 25 de Abril, quando Mário Soares era primeiro-ministro e ele ministro do Governo da nova República, realizaram uma viagem a Braga e Soares pensou logo em ir visitar o Arcebispo. Eram tempos crispados, de revolução à flor da rua, e o Mário (como Almeida Santos dizia) queria desdramatizar. Na delegação ia Raul Rego, eleito deputado por aquele distrito. Raul Rego, como todos recordam, era de um anti-clericalismo virulento. Soares, preparando a ida ao Arcebispado, recomendou-lhe calma:
-- Oh Rego, você vai, mas fica calado, não abre a boca, para não haver surpresas!
Ele disse que sim, embora levemente contrariado, que não era homem para lhe adesivarem a boca.
Recebidos pelo Arcebispo, num salão de rico património histórico, com valiosos quadros dos antigos Arcebispos, Soares para fazer conversa apontou um deles:
-- Aquele quadro é imponente!
O Arcebispo disse docemente o nome da figura que a tela representava.
-- Oh! Esse era um pistoleiro de primeira! -- exclamou logo Raul Rego, perante o ar perplexo de Soares.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

EM DIRECTO DO INFERNO...

No outro dia, a propósito da entrevista de Sean Pen ao narco Joaquim "El Chapo" Guzman, um cronista citava que, a sede de sensacionalismo e o desejo desmedido de sordidez levou um repórter a dizer um dia que se o diabo lhe garantisse uma entrevista estava disposto a ir ao inferno fazê-la. Não faltam por cá, na imprensa (veja-se o "Correio da Manhã"), sujeitos que, armados de caneta e papel, microfone ou câmara de filmar, mesmo sem poderem entrevistar o diabo, que está bem e recomenda-se, descem todos os dias aos infernos que eles próprios cultivam, alimentando-os amorosamente com a putrefacção da informação de sarjeta, feita às vezes com o despudorado ataque ad hominem, isto é, ao carácter de pessoas de bem. Cumprem os seus objectivos na insinuação barata de mentiras, na devassa privada que a deontologia reprova, nos ataques à reserva essencial da dignidade. No fundo, hábeis praticantes de voyerismos ou de janelas indiscretas, mas sem o génio de Hitchcok, comprazem-se nesse lodo onde pretensamente chafurdam as suas investigações.  Muitos deles, andam nisto enfeudados a interesses sombrios e utilizam a informação como arma de arremesso, compondo um ar moralista e beato apenas para disfarçarem aparências, não vá o diabo tecê-las. A prática não é nova, mas envernizou-se nos tempos actuais e ampliou-se porventura para dar mais dividendos ao negócio. O país, para esses tipos, é um imenso Big Brother, onde vale tudo, porventura até tirar olhos. Quando o país se decide politicamente e a manutenção de poderes pode desequilibrar a balança, refinam as patifarias e a devassa aumenta, misturando insinuações e mentiras num processo que não visa outra coisa senão inquinar a opinião pública.
Nisto tudo, que é lamentável e triste, apenas resta o reconhecimento que tanto recurso à infâmia só é possível porque eles sabem que afinal o seu estimado candidato da direita tem o certo por incerto, e, se calhar, a sondagem real dos votos, no dia 24, encerra uma surpresa.

domingo, 17 de janeiro de 2016

MODERADO, HEM?

1. Quase ao mesmo tempo que, em Viseu, uma senhora, como se estivesse a contar fábulas a criancinhas, crismava Marcelo de Pirilampo, e o candidato  (já que estamos em maré de fábulas) despia a pele de lobo e vestia a de cordeiro, para se auto-proclamar como moderado, eu lia o artigo publicado no "Público", pelo historiador Manuel Loff, em que o autor, servindo-se da "biografia consentida" de Marcelo Rebelo de Sousa, feita por Vítor Matos, faz um retrato preciso do que chama o "herdeiro", herdeiro, já se vê do salazarismo-caetanismo, e do radicalismo que ele, sempre que pôde, imprimiu à direita.
É um texto longo, mas que vale a pena ler para vermos até que ponto se fundamenta contraditoriamente o pensamento político de Marcelo, sempre sustentados pelas máscaras de ser uma coisa e o seu contrário, as sibilinas mudanças de opinião, a mentira descarada ou subtil, o verdadeiro "campeão da ambiguidade". Diz Manuel Loff: "Desde 1973, primeiro no "Expresso", depois no "Semanário", na TSF (1993-96) e na TVI ou na RTP (consecutivamente desde 2000), que conta as histórias que quer, como quer, explicando Portugal como se fosse como ele diz, mas que não passa de um país que ele inventa semanalmente a seu gosto. Para o ajudar a chegar onde ele quer. Porque o herdeiro, agora, quer ser Presidente".
Os grandes produtores de informação têm passado o tempo a desvalorizar a campanha eleitoral, desvalorizando-a objectivamente como se fosse um circo, na sequência, aliás, do que foi a táctica de Marcelo: esvaziar o período eleitoral das questões políticas, tornando-o refém do fait- divers, da fulanização e daquela ideia que o poeta Ruy Belo tão bem traduziu em verso: no meu país não se passa nada!
No plano contrário, está o seu principal opositor: o candidato Sampaio da Nóvoa. Ora, olhando o labirinto das sondagens que sustentam a narrativa falseada do vencedor antecipado, apetece lembrar a advertência que um dia Marx fez aos convencidos da inalterabilidade do fluir da realidade social: às vezes, a História tem mais imaginação do que aqueles que a fazem.
É por isso que, nas circunstâncias e no tempo em que estas eleições decorrem, gostei de ontem ouvir Vieira da Silva, ministro de António Costa, a lembrar as responsabilidades históricas do povo de esquerda. Nós somos mais (vejam a Assembleia da República) e temos nas mãos a chave do problema. Basta sabermos distinguir entre o essencial e o secundário.

2. Voltando à história do pirilampo e da cobra, ao tempo em que os animais falavam, encontrei curiosamente em informação avulsa sobre os vaga-lumes, ou pirilampos, esclarecimentos preciosos que também podem fazer luz sobre a adequação da nomenclatura do insecto à figura do candidato Marcelo Rebelo de Sousa.
Assim, fiquei a saber que "os vaga-lumes ou pirilampos têm colaração alaranjada, que o Dicionário da Língua Portuguesa, considera vaga-lumes uma eufemização, e que, entre outras designações de pirilampo, há uma popular muito curiosa: "caga-lume". Quem diria...