sábado, 30 de janeiro de 2016

A EUROPA NO PAÍS DA CANGA

Não sei por que razão os comentadores encartados e até os políticos de esquerda no activo, não falam na "especial" competência" e "iluminação" do espírito da missão técnica da UE, representada pela Troika, para vigiar e ajudar a solucionar a realidade económico-financeira de Portugal, e que redundou num colossal embuste. Ainda agora desembarcaram sorridentes, como vedetas, em Lisboa, reportados com o seguidismo bovino e acéfalo da chamada comunicação social. Aí está o que se pode chamar uma quadrilha pouco recomendável.
De facto, nos quatro anos que por aí estiveram, dando ordens aos seus capatazes Passos & Portas (o senhor feliz e o senhor contente com a Troika) e supervisionando o sector financeiro, a Banca, os grandes especialistas nunca descobriram os descalabros financeiros do BES e do BANIF nem as contas marteladas do governo de direita. E aí estão eles continuar a obra, fiscalizar, exigir, continuar a desgraçar o país.
Mas isto não é outra coisa  que a própria desgraça da Europa, com a sua cegueira neo-liberal, a sua incapacidade para perceber que o seu desafio é alguma coisa mais, muito mais, do que se limitar a ser mera executante das políticas que interessam aos grandes grupos financeiros que, comandando a economia e os mercados, comandam a política e cavalgam a União Europeia.
O que é surpreendente é a forma como a narrativa da informação portuguesa, aliás em sintonia com a direita chefiada por Passos Coelho, faz uma chantagem verdadeiramente vergonhosa sobre o esboço do Orçamento do Estado e a especulação com as intromissões europeias.
Já agora, em nota de rodapé: ontem, após o debate quinzenal com o governo, na Assembleia da República, a TVI colocou longamente Passos Coelho a comentar o que se passara no debate que tinha sido transmitido e onde ele próprio tivera longa intervenção. Temos agora mais um comentador: Passos Coelho!
O que não comentam é o falhanço rotundo e as contas falsificadas, e as negociatas das privatizações, do governo além da Troika. Mas no país da canga e da submissão, tudo é possível, até o triunfo persistente da mentira.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A FELICIDADE PELA LEITURA

Considero a Leitura, a motivação para o prazer da leitura,uma questão crucial da Cultura e da Educação. Diversos factores, onde avultou uma certa "expulsão" da literatura dos programas do Ensino Secundário e uma lamentável estreiteza de horizontes na própria compreensão do fenómeno literário no plano programático da Escola, têm conduzido a uma situação de empobrecimento do próprio uso da Língua portuguesa, a uma iliteracia perigosa e a uma menorização da escrita como grande aventura para saber ler e compreender o mundo, como Paulo Freire dizia que a leitura devia ser.  Este estado de coisas extravasa para a universidade onde também se vive, neste aspecto, uma alegre mediocridade. Por que é que esta questão não se discute dentro e fora da Escola?
O acto de ler como prática de absoluta liberdade (Daniel Penac), como enriquecimento interior para se chegar àquele universo que, dizia Borges, é o mundo, tudo aquilo que é fermento do saber ao alcance de um livro, eis uma realidade que bem merece a atenção da sociedade portuguesa para não que o país não continue a vegetar na subalternidade do analfabetismo.
Ler para viver -- cito de memória Alberto Manguel na sua monumental História da Leitura. Neste sentido, li um dia destes uma crónica em "El Pais Semanal" que apontava para outro efeito dentro da própria vida. "Ler faz-nos mais felizes", escrevia Emma Rodriguez, explicando: "A leitura faz-nos mais felizes e ajuda-nos a afrontar melhor a existência". E, dando consistência científica à sua afirmação, informava: "Os leitores ficam mais contentes e satisfeitos do que os não leitores, e em geral são menos agressivos e mais optimistas. Quem o diz são os responsáveis de uma análise recente elaborada pela Universidade de Roma III a partir de entrevistas a 1.100 pessoas. Aplicando índices como o da medição da felicidade de Veenhoven e escalas como  como a de Diener para registar o grau de satisfação com a vida, os investigadores chegaram a estas conclusões que demonstram, como diz Nuccio Ordine, autor do manifesto A utilidade do inútil, que "nutrir o espírito pode ser tão importante como alimentar o corpo" e que necessitamos, muito mais do que pensamos, dessas experiências e conhecimentos que não se traduzem em benefícios económicos".
A cronista recolhe uma citação de Alan Brew, ex-editor do Financial Times: "Ler os grandes escritores faz-te uma pessoa melhor preparada para tomar decisões criativas, interessantes e educadas".
Há, hoje, um convencimento generalizado dos benefícios da leitura. "Quando conhecemos os bens que nos proporciona não podemos deixar de praticá-la. Vamos pois à literatura, como convidava Cortázar, "como se vai aos encontros mais essenciais da existência, como se vai ao amor e às vezes à morte, sabendo que formam parte indissolúvel de um todo e que um livro começa e termina muito antes e muito depois da sua primeira e última página".
Ler para viver.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

NO REINO DA DINAMARCA

Quando Hamlet avisou que havia "algo de podre no reino da Dinamarca", Shakespeare estava longe de imaginar que o universalismo da sua arte dramática, às vezes feita metáfora, outras puro deslumbramento  de criação, pudesse sobreviver aos séculos de forma tão funda e se inscrevesse tão nitidamente como emergência da condição humana.
Neste caso da Dinamarca, logo esse reino longínquo onde existia algo de podre, se disseminou por realidades outras onde a doença letal da podridão envenenava o ar dos dias. A cada um, a sua Dinamarca e, nessa suja geografia, até nós, nos anos difíceis da mordaça, falávamos duma Dinamarca com algo de podre, que não era outra coisa senão o Portugal salazarento.
Agora, porém, a fala do Príncipe Hamlet pode ir direitinha para a Dinamarca-ela-própria, pois há muito de podre e bem podre no reino, imagem, aliás, que alastra à Europa, bem visível no retrocesso civilizacional, no relógio da História a andar para trás, a desumanidade a regressar como acento tónico da política. Ficámos a saber que no reino da Dinamarca foi aprovada uma lei que permite o confisco de valores aos refugiados (1.340 euros), um corpo legislativo que faz lembrar a teoria que Hitler desencadeou para se apropriar de bens dos judeus. Uma vergonha.

DONOS DE NADA

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
As televisões mostraram, sorridentes, os tipos da Troika, desembarcando na Portela. Vêm vigiar e esquadrinhar os restos da soberania nacional, fazer o deve-haver da austeridade e da pobreza, embaixadores da insanidade europeia. Vemo-los a sorrir e logo as notícias que a União Europeia isto e aquilo, que quer mais brutalidade austeritária, que não tolera sorrisos ou esperanças. Especialistas da arte de roubar, é o que são!
José Pacheco Pereira exprimiu essa perplexidade, que é colectiva, num breve apontamento no seu Blogue "Abrupto". Pergunta ele: "Como chegámos aqui?" E escreve:
"Como é que, algures pelo caminho dos últimos anos, perdemos a independência?
Como é que permitimos, todos, povo e governantes, o que se está a passar? E não me venham com a dívida. A dívida ajuda e muito, mas não é a questão central. A questão central é que ao abdicarmos de soberania, abdicamos também de democracia.
E estamos agora governados por uma burocracia anónima, sem legitimidade eleitoral, que responde aos seus donos e nós não somos donos de nada. Nem sequer de nós próprios".
Donos de nada!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O CANTO PRIMORDIAL DA TERRA

Um dia destes, subi à Guarda, ao TMG, para ouvir a Brigada Victor Jara e encher a alma dos sons profundos da música tradicional portuguesa. Não é sem emoção que digo o nome do grupo, que é sempre uma evocação daquele que, cantor da liberdade no Chile de Allende, foi brutalmente assassinado por Pinochet e as suas bestas de mão -- aqueles que apenas existiam para torturar e matar. Na reverência à memória do cantaautor da liberdade, é bom lembrar sempre o que fizeram os torcionários: lentamente, partiram-lhe os dedos das mãos e desfiguraram-lhe o rosto, a raiva brutal contra quem apenas produzia música e canto. Assim, até à morte. Por isso, quando oiço os sons da Brigada Victor Jara, é como regressar à força primordial da terra e pensar que a música e o canto da Brigada, com a força da sua poesia, é sempre um tributo de gratidão e de memória a Victor Jara.
Mas a Brigada Victor Jara, que no sábado veio encher de calor a noite fria da Guarda, evoca em mim tantas emoções, sobretudo pela sua persistência para mostrar que a música tradicional é um elemento fabuloso de cultura, construída pelo saber ou os saberes do "povo que canta", como tão bem nos explicou sempre o Manuel Louzã-Henriques, que é sábio destas matérias. Eu já o disse: tive a sorte de muito jovem acompanhar Michel Giacometti (que estava sedeado na casa de meus pais) nas suas navegações pela Beira a perscrutar e ouvir o falar e o canto do povo, a cavar fundo, como dizia Ernesto Sábato, para descobrir tesouros e salvá-los da morte pelo esquecimento.
A Brigada Victor Jara lavrou também esse território e recolheu sementes, como se vê pela sua obra. A Brigada tem esse ADN e o próprio Manuel Rocha, que é um grande músico e dirige a formação, também andou nessas andanças, há anos, à procura do tempo de Giacometti, recuperando a memória de lugares e de pessoas que tinham cantado para o etnomusicólogo, para um documentário que passou na RTP. Acompanhei o Manel em Aldeia de Joanes - e foi uma festa.
Uma das características do grupo é a alegria que coloca na sua aventura criadora. Transportam para o palco essa força e viajam pela música tradicional portuguesa, como se o país estivesse todo dentro da música e das canções que lançam ao vento. Daí a relação de afecto que criam com o público, que também põe "o seu pezinho" nas cantigas.
Foi bom dar aquele abraço ao Manuel Rocha, corporizando nele todos os elementos da Brigada, que nos ofereceram um concerto memorável. Foi bom festejar 40 anos da Brigada Victor Jara, num acontecimento que poderíamos considerar uma noite de convívio, povoada de alegria. A publicação da Discografia completa da Brigada é, também, um altíssimo serviço prestado à cultura portuguesa.


A HONRA ERA LUTAR

Nestes dias que correm, onde às vezes o desencanto se torna mágoa, não há como a poesia para abrir horizontes de esperança e sacudir o tédio das horas iguais. Um amigo, que não gosta de vergar-se ao desalento, tão conforme ao pessimismo português, enviou-me um poema de Miguel Torga, que é um depoimento sobre o desafio pessoal e a honra de resistir.  Aqui fica:

"Depoimento

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não, nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder."

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

UM PRESIDENTE "ENGRAÇADO"!

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
1. Há anos, realizou-se em França um inquérito que, visando apurar o estado da democracia, chegou à conclusão de que a doença da indiferença abria uma longa ferida na pureza dos ideias democráticos. Nada que, afinal,  não se soubesse de uma realidade para qual Edgar Morin chamara insistentemente a atenção. Acho que em Portugal também nós estamos doentes da democracia e do país, uma doença que historicamente vem de longe, com a longa e persistente duração dos autoritarismos e das ditaduras, com as perseguições à expressão livre do pensamento e o recurso sistemático à ideia de que pensar em voz alta é perigoso.
Essa circunstância temporalmente longa no fio da história - que levou Sérgio a considerar que a mentalidade era a questão dominante da sociedade portuguesa - produziu sempre fenómenos de exclusão e tragédia: a neutralização (às vezes liquidação mesmo) daqueles que, tendo a consciência clara dos problemas nacionais, seriam capazes de materializar a mudança no Portugal de "apagada e vil tristeza". Devemos, por isso, ter consciência plena de que a indiferença e a apatia cívica ("Vai-te embora boi da paciência", diriam os versos de Ramos Rosa!), aliados à pobreza cultural que ainda dominam o país, reflectem o diagnóstico de António Sérgio, como conjunto de fenómenos que criam no país fobias contra a mudança (o medo do futuro) e instalam na sociedade um estado de servidão que reproduz súbditos em vez de cidadãos.
Digo isso, hoje, no rescaldo das eleições presidenciais, do seu contexto, e, sobretudo, das narrativas da informação que as condicionaram, da forma como o acto se configurou, pelo vazio e o fait-divers, como se a questão não fosse política, tudo na convergência dos interesses do candidato ganhador, Marcelo Rebelo de Sousa. Chega-se a Belém, por esse trilho de facilitismo, mas numa encruzilhada de dúvidas e incertezas, pois não só o pensamento presidencial do ganhador foi o não dito, como as promessas de fidelidade a António Costa e ao governo sustentado por maioria de esquerda (tão contrários ao percurso político e ao ADN de Marcelo) deixam um rasto de elevada incerteza, conhecendo-se, como se conhece, o perfil irrequieto e volúvel da personalidade do novo Presidente da República. Irá ser assim?

2. O que estas eleições demonstraram foi a evidência do célebre diagnóstico das televisões se poderem transformar em vendedoras de sabonetes ou de Presidentes da República. Num país que lê o que lê, que debate o que debate, que faz da participação cívica quase um delito, que vive em círculos de medos e dependências do favorzinho, que aceita a canga da pobreza e do desemprego e das troikas como uma fatalidade dos deuses, num país assim não é estranho que as eleições presidenciais adquiram o ar circence que lhe imprimiram, em que o acessório foi sempre mais interessante do que o essencial.
Ainda hoje, no "Público", Miguel Esteves Cardoso dava um "Viva a democracia!", escrevendo a certo passo: "Marcelo Rebelo de Sousa será o Presidente da República mais inteligente, culto, simpático e engraçado que Portugal já teve". Engraçado? E não sei como o MEC conseguiu apurar essa definição absoluta do "mais inteligente e culto"...

3. Bati-me, com honra e entusiasmo, pela eleição do Prof. António Sampaio da Nóvoa, que personificava, de certo modo, não só os valores de Abril (a Liberdade, entre todos) e a emergência cívica e cultural da sociedade civil, mas também a qualidade da participação cívica e cultural, como forma inquestionável de superar a anquilose em que vegeta a democracia.
Ao contrário do vazio, que é um álibi para todas as situações, Sampaio da Nóvoa tinha uma ideia para o país e explicou-a mostrando que o que é verdadeiramente urgente era mudar, corresponder a um novo ciclo, a um "tempo novo" de felicidade possível, valorizando as pessoas e implicando-as na própria aventura de terem uma pátria sua. Penso que país é este que se dá ao luxo de perder uma oportunidade destas, mas não deixo de pensar, também, que Sampaio da Nóvoa continuará nosso companheiro de jornada na esperança da "cidade sem muros nem ameias".
Não foi possível. Ele chegou onde tudo era possível para a segunda volta: o patamar dos 23%, mais de um milhão de votos. Então, devemos interrogar-nos porque razão, mais uma vez, a esquerda (com particulares responsabilidades para os que, no PS, dividiram, para apontar uma faca chamada Maria de Belém a Sampaio da Nóvoa) e as formações de esquerda que ficam felizes com Marcelo em Belém, desde que passeiem as suas vaidades partidárias. Façam uma introspecção e pensem como a direita se une, ainda que abomine o candidato e lhe chame "catavento mediático". Pensem mais no povo que dizem defender e menos nos interesses particulares da contagem dos votos... e da doentia afirmação partidária.

3. Dito isto. A direita está em Belém. Mas seja qual for o desenvolvimento futuro do novo Presidente,  por muito "engraçado", há uma coisa levemente positiva: Cavaco vai-se embora e isso é motivo de regozijo. Vai-se acabar, em breve, a vergonha de o ter suportado dez anos como Presidente de alguns portugueses.