sábado, 6 de fevereiro de 2016

MEMÓRIA DO PROF. JOSÉ ESTEVES


Há dias, num almoço de amigos com o Prof. Sampaio da Nóvoa, falávamos do Prof. José Esteves e da sua importância na vida cívica e cultural do país, e foi quando ele me informou que falecera em Novembro. Eu fiquei triste, muito triste com a notícia, que por circunstâncias que só eu sei, me passara ao lado. E não deixei de pensar que o país, sempre tão madrasto a reconhecer méritos, faz pequenina ideia da importância que o Prof.José Esteves teve na Educação, na Cultura, na afirmação da necessidade de democratizar o desporto e a sociedade portuguesa.
Por momentos, nesta evocação, a memória poisa em antigamente e lembro-me de quando conheci nos anos 60 o Prof. José Esteves. A juventude fundanense, ou uma parte dela, matava o tédio das horas iguais na prática desportiva. Eu era jovem e andava nas navegações da natação e do basquetebol, que eram modalidades estimulantes. José Esteves veio para nos ensinar no basquetebol, mas logo o convívio com ele se transformou numa rica aprendizagem sobre o fenómeno desportivo global na sua articulação com os direitos então sonegados na sociedade portuguesa. Ele, por seu lado, escreveu artigos no JF sobre a alienação desportiva que a Censura deixou passar até que.
Mas a minha relação com o Homem que não só sabia pensar a realidade que era dele e nossa, como tinha um percurso de exemplaridade cívica e cultural (ainda não se falava em cidadania) que todos os que se batiam contra a ditadura respeitavam muito. Então, o professor prosseguiu sempre a sua pedagogia, ensinando sempre, abrindo horizontes de pensamento, estimulando o diálogo na perspectiva que António Sérgio lhe dava como coisa imprescindível para sairmos da cepa torta. As "grandes avenidas do diálogo...", dizia ele. O pensamento de José Esteves abarcava um campo largo naquilo que depois se veio chamar a sociologia do Desporto. As desigualdades, o racismo, as condições sociais que condicionavam tudo.
Escreveu um livro que se tornou um contributo indispensável para percebermos o lugar do Desporto na sociedade: O Desporto e as Estruturas Sociais. Uma obra que ainda hoje lança sobre a problemática do Desporto um olhar projectivo e inovador. A intervenção cultural de José Esteves foi também muito importante. Ele ia lendo o que eu fazia e escrevia-me cartas estimulantes. E quando escreveu um livro de Memórias, incluiu um texto meu, que vadiava entre a prosa e a poesia, o que para mim representou uma honra grande.
Tínhamos um amigo comum que aprofundou a nossa amizade: o dr. José Salvado Sampaio, também ele grande professor e pedagogo, historiador e especialista dos maiores em questões da Educação, sobretudo o Ensino Primário, como se dizia. Foi, aliás, no funeral de Salvado Sampaio que eu estive a última vez com José Esteves. Conversámos longamente sobre livros e cultura, sobre o Jornal, sobre o Fundão a que eu o queria trazer em lembrança dos velhos tempos. Não foi possível. Mas agora evoco a sua figura, o seu falar calmo, a sua postura de professor que gostava de ensinar em qualquer circunstância, a sua qualidade de cidadão que tinha o país como questão que também tinha consigo mesmo, nas esperanças e nos remorsos colectivos.
Como eu estou grato ao Prof. José Esteves.

CARNAVALIZAÇÃO DA POLÍTICA

Quase uma boa coincidência foi o facto do dramatismo produzido pelos comentadores (?), jornalistas afins e as hostes de Passos e Portas (PSD/CDS), agora separados do casamento doPoder, por mera conveniência conjuntural, ter desaguado na época carnavalesca. É a carnavalização da política. Não se cansavam até, afivelando máscaras contra o interesse nacional, de enviarem recados à Comissão Europeia na ilusão de que esta obrigasse o governo de António Costa. Afinal, sem o apocalipse vaticinado por todo aquele universo de direita, houve acordo natural e até vozes como Manuel Ferreira Leite ou João Salgueiro vieram dizer que era um bom orçamento e que António Costa tinha conseguido uma doce vitória.
E o que se provou é que é possível passar a página da austeridade cega e fazer políticas de sensibilidade social com efeitos redistribuitivos. Os arautos da desgraça e do caos tiveram, agora, que mudar as máscaras, embora subjacente à mudança esteja uma raiva que não conseguem disfarçar.
Outra coisa curiosa, que também se enquadra na quadra carnavalesca, pois só pode originar fortes gargalhadas, é a disponibilidade manifestada por Passos Coelho, em campanha interna, a dizer que está pronto para voltar a governar. Safa! E pior: vir dizer que toda a política austeritária que devastou o país durante quatro anos e meio era matricialmente social-democrata... Viva o Carnaval!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

INSTANTES DE MAGIA

Pascal afirmou um dia que tudo o que de mau lhe aconteceu na vida foi por ter saído de casa! É certo que na nossa Língua também há um dizer, mas não de raiz tão absoluta, apenas para alguns instantes aziagos da existência dos pobres mortais que nós somos, que recomenda que "há dias em que se não deve sair de casa".
Ora, há que contrapor a este cepticismo de vocação solitária, a beleza do sol e da rua, as paisagens que o nosso olhar abarca e que, por vezes, nos deixam suspensos no tempo para que o momento ganhe a ilusão de eternidade. São os milagres da beleza e da emoção ao alcance dos olhos, uma espécie de felicidade que ainda não paga imposto nem foi privatizada...
De facto, os horizontes da vida são muito mais surpreendentes do que viagens à roda de um quarto, como queria o outro, ou a tristeza doentia e ensimesmada da solidão dentro de quarto paredes. Ainda agora, por estes dias, um sol esplendoroso tem iluminado as manhãs e as tardes; e lá ao longe, o azul das montanhas da Estrela fascina-nos por estranhas transparências, e mais perto, a Gardunha mostra o seu verde pinho austero, à espera que os cerejais procedam à transmigração da paisagem. Eu caminho à roda do Fundão (viver, respirar), contorno o muro de pedras cor do tempo da Quinta das Sesmarias, e aí estou, armado das canções de Leonard Cohen, a caminho da ribeira da Alverca, onde a água que escorre da Gardunha canta a sua música aquática. As mimosas já florescem e as pereiras e macieiras estão cobertas de flores e os campos, "verde que te quiero verde" (Lorca), estão verdes "da cor do limão" (Camões), debruados com tapetes de malmequeres, que apetece desfolhar como acto adolescente. Assim, apuro os sentidos às navegações da passarada (terão rompido o Inverno?) anunciadoras de que, qualquer dia, a Primavera estará aí em todo o seu esplendor de renovação. Por agora, parece uma antecipação precoce caída do céu. Olhamos, sentimos, vivemos. Já dei a volta pelo Alcambar, o sol começa a galgar o cimo da montanha, rápida a sombra lança o seu manto. Mas ainda olho ao redor: oferendas florais desprendem-se da terra.
A felicidade, que me perdoe Pascal, está fora de casa. Penso isso, enquanto a voz e a música de Leonard Cohen, com a força poética da sua dimensão interior, enchem os instantes de magia. Basta saber ouvir.


A CANZOADA

Continua a azia dos comentadores de serviço nas televisões sobre o Orçamento do Estado. A canzoada está raivosa com as notícias vindas de Bruxelas e agora começa a disparar contra o futuro (o Orçamento de 2017 é que vai ser o diabo...) e a sustentabilidade do acordo parlamentar que dá vida ao governo de António Costa. Já nem se dão ao trabalho de disfarçar a narrativa: estão ali para cumprir o servicinho... da desinformação e da chantagem. Vergonha!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

LUZ VERDE

As Cassandras do comentarismo, os políticos serventuários da vaca sagrada da austeridade, os jornalistas que vão comer à mão dos interesses instalados, os políticos com saudades do PAF, que são muito patriotas mas que se vendem por um prato de lentilhas aos interesses estrangeiros, devem estar inconsoláveis (e certamente raivosos!) com a luz verde dada por Bruxelas às linhas do Orçamento de Estado do governo de António Costa. Deve reinar a infelicidade por essas hostes que, durante dias e dias, nos envenenaram o quotidiano com as suas análises estúpidas e destituídas de fundamento, com o seu apocalipse doméstico que vaticinavam para Portugal. No Blogue "Da Literatura", Eduardo Pitta escreveu, há pouco, esta breve nota: "Contrariando as manchetes corrosivas dos jornais da manhã, Bruxelas deu luz verde ao draft do OE 2016. Contudo, as edições online da imprensa ainda não deram um pio. Facto: as negociações técnicas terminaram com acordo entre as partes. Aumentam os impostos sobre a Banca, o tabaco, os carros e os produtos petrolíferos. Também aumenta o imposto de selo sobre o crédito ao consumo. Os fundos imobiliários, até agora isentos, passam a pagar IMI. Paulo Rangel, o eurodeputado do PSD que em Bruxelas e Estrasburgo tem desenvolvido uma campanha vergonhosa contra o Governo português, vai ter de enfiar a viola no saco."
Não é apenas Paulo Rangel que tem de meter a viola no saco. É a legião de comentadores e políticos que urdiram uma lamentável chantagem do medo, às vezes com um paleio de encomenda que metia nojo. As Cassandras da desgraça vão deixar de cantar?

OS FANTASMAS DA TROIKA E O COMANDO DA USURA

 João Miguel Tavares escreveu ontem no "Público "Repetir 100 vezes: falimos", onde a ironia boçal e mistificadora vai de par com um propósito de cedência e subserviência ao austeritarismo financeiro, que o mesmo é dizer à pobreza. No mesmo jornal vinha um texto de Alfredo Barroso "Portugal "a comando da usura", que talvez desmonte o humor do engraçado cronista, que gosta de rir da desgraça do país.
O texto de Alfredo Barroso começa por fazer uma caricatura da usura: "Os fantasmas da troika, dos mercados financeiros, das agências de rating e da banca (portuguesa e estrangeira) continuam a pairar sobre os portugueses.
 Como proclamou, no século XX, o grande poeta americano Ezra Pound, num dos seus mais admiráveis poemas (o Canto 45), vivemos “a comando da usura” e “a usura é uma praga”, é um ”pecado contra a natureza”, é “um cancro no azul”. Como ele escreveu poeticamente: “Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra / blocos lisos e certos…”; “Com usura /nenhum homem tem um paraíso / pintado na parede da sua igreja…”; “Com usura (…) / nenhum quadro é feito para durar e viver connosco, / mas para vender, vender depressa…”
Menos poética e mais prosaicamente, a usura é – segundo todos os dicionários – sinónimo de agiotagem, mesquinhez, avareza, sovinice, tacanhez, forretice. E desgaste, acrescento eu. Infelizmente, os fantasmas da troika, dos mercados financeiros, das agências de rating e da banca (portuguesa e estrangeira) – símbolos da agiotagem, da mesquinhez e da usura – continuam a pairar sobre os portugueses – querendo impor-lhes mais políticas de austeridade, mais medidas para facilitar os despedimentos de trabalhadores e exercendo mais pressões para que sejam os contribuintes a pagar os desvarios e desmandos da banca – segundo a lógica perversa que considera que os lucros são para beneficiar os accionistas e os prejuízos são para ser pagos pelos cidadãos."
Barroso aponta o que está condicionar ou a matar a democracia: "A verdadeira ameaça que continua a pairar sobre a nossa democracia – sobre as possibilidades de desenvolvimento do país, e sobre o direito ao bem-estar dos cidadãos – continua a ser o governo invisível, ilegítimo e antidemocrático dos plutocratas e dos tecnocratas que os servem.
Além do regresso da troika, das ameaças das agências de rating e da intransigência da Comissão Europeia, voltou a estar na ordem do dia o grave problema do BES e do Novo Banco. Que veio acrescentar-se ao grave problema do BANIF. E, a este propósito, vale a pena lembrar o que Pacheco Pereira escreveu sobre este “caso”, em Dezembro passado, no PÚBLICO. Cito:
- "A história do BANIF é exemplar dos tempos que correm. Ela mostra tudo o que está errado nas políticas europeias e nacionais, se é que se pode falar ainda de 'políticas nacionais'. Aliás, o caso do BANIF revela até que ponto os governos aceitam ser geridos pela burocracia europeia não eleita, em decisões objectivamente contrárias ao interesse nacional e à sua própria vontade, eles que são eleitos. Este é um dos aspectos mais preocupantes da actual situação política portuguesa e europeia: a utilização, muitas vezes abusiva e excessiva, das chamadas 'regras' europeias, para impor políticas ideológicas conservadoras e soluções que correspondem a interesses particulares de outros países, de outras bancas, de outras economias, a Portugal".
É contra esta lógica infernal que é preciso lutar. É preciso mudar de vida, isto é, mudar a vida das pessoas, da sociedade e do Estado. É preciso que nos libertemos – passo a passo, gradualmente, mas firmemente – deste modelo de sociedade dominada pelos ricos e poderosos, em que o capital financeiro se impõe e sobrepõe ao trabalho, em que a economia se impõe e sobrepõe à política, em que os dogmas neoliberais se impõem e sobrepõem aos princípios e valores da democracia. Como também escreveu o Pacheco Pereira,"para sairmos desta lama que nos tolhe, temos que pensar diferente, falar diferente, e fazer diferente. Nem que seja pouco diferente, visto que, como isto está, basta um pouco de diferença para parecer uma revolução".
Quem assiste à chantagem que a União Europeia, que se apresenta como sábia mas só tem conseguido fazer miséria com a sua filosofia de austeridade e de confisco, que só tem favorecida os banqueiros, e que tem sido entusiasticamente celebrado pelos sequazes dessas políticas (a canzoada da direita mais os seus comentadores e jornalistas de trela curta), não pode estar mais de acordo com o retrato de Alfredo Barroso: "O Governo do PS, apoiado por uma maioria de esquerda na Assembleia da República, começa agora a ser confrontado e pressionado pelos poderes não democraticamente eleitos – FMI, BCE, Comissão Europeia, agências de rating, governo alemão – que impõem ao país a usura, a agiotagem e um desgaste cada vez mais profundo das nossas instituições democráticas.
Apesar dos erros gravíssimos que esses mesmos poderes não democráticos admitem ter cometido, nem por isso tencionam corrigi-los e parecem, até, querer repetir connosco todo o mal que fizeram à Grécia. Têm entre nós uma poderosa “5.ª coluna” de colaboracionistas prontos a ajudá-los. Se nos rendermos às suas imposições, estamos perdidos, e, no sombrio horizonte que então se nos abrirá, correremos o risco de ver regressar ao poder a direita que nos esmagou durante os últimos quatro anos.
Como Antonio Gramsci, também eu sou "um pessimista por causa da inteligência, mas um optimista por causa da vontade". Só é vencido quem desiste de lutar."
Só é vencido quem desiste de lutar, diz ele.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

EUROPA

"O rosto com que fita é Portugal", assim disse Pessoa, nos versos identificadores de uma Europa que era continente de utopias. A Europa foi-nos proibida durante a ditadura, mas saltávamos sempre fronteiras físicas e imaginárias em busca do sonho e da Liberdade.
Agora, que a Europa se vai tornando pesadelo, assassinando todos os dias, mais um pouco, a esperança dos povos, que faz tábua rasa dos princípios civilizacionais que a firmaram como referência e horizonte de humanidade, para se tornar arauta de uma envernizada ditadura financeira, que se intromete nos direitos democráticos dos povos e promove escravaturas modernas, talvez só nos reste o refúgio da poesia. E é assim que vem ao meu encontro, como se fora uma voz distante, um belíssimo poema de David Mourão-Ferreira, em que o poeta personifica a Europa na visão persistente de uma Rapariga. Não haverá melhor louvor para a Europa:uma rapariga sempre à nossa espera, cheia de mistério. "muito hirta de pé no patamar do sonho".


Retrato da Rapariga

Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de que andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó de arroz um pó de biblioteca
Surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liège em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa.

David Mourão-Ferreira, in Obra Poética 1948-1988

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

DESIGUALDADES, EDUCAÇÃO, POLÍTICAS PÚBLICAS

Há semanas, coube-me a sorte de moderar um debate sobre Educação, Desigualdades e Políticas Públicas: realidades e desafios para o futuro, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UBI. Foi uma jornada de trabalho, fechada, em que participaram professores e directores de Escolas da Cova da Beira (estava um autarca da Covilhã), investigadores portugueses e brasileiros, e a sessão articulava-se em video-conferência com Universidades brasileiras, designadamente a Universidade Federal de Minas Gerais e da Universidade Federal de Ouro Preto, que desenvolveram projectos com a Universidade da Beira Interior nas áreas da Educação, Economia, Estatística e Sociologia.
Foi uma tarde de diálogo alargado e construído de diversidades, projecto que deve amadurecer, no futuro, aberto à comunidade, para debate mais amplo, como é vontade dos organizadores, os Professores Pedro Guedes de Carvalho, Maria Eugénia Ferrão e Alcino Couto, que com entusiasmo abraçaram a iniciativa.
Aprofundou-se a questão das desigualdades, estranhamente (ou nem tanto) tão presente na sociedade contemporânea, e mergulhou-se na realidade, par lá da superfície, à procura de causalidades que nos possam levar a questionar aquela fatalidade, para não lhe chamar outra coisa. Uma das conclusões, bem assinalada pelos intervenientes, foi a necessidade de ver a Educação, não como sector isolado, mas como integrador das várias políticas políticas sem as quais os problemas não serão inteiramente superados.
É na exigência dessa perspectiva que se deve ver o contexto da Escola: as políticas públicas e educativas, a persistência das desigualdades, a natureza das políticas inclusivas, a natureza da equidade na sociedade, os problemas associados à retenção. Recolho uma intervenção: "Onde não há capacidade de investir e a distribuição do rendimento é débil, as desigualdades agravam-se" e, acrescento eu, a sua terrotorialização dilata-se. Houve exemplos claros das desigualdades educativas (Pampilhosa da Serra, por exemplo) que agravam abismos na periferia das periferias.
Estava eu a pensar no interesse colectivo da iniciativa da FCSH da UBI, quando, um dia destes, deparei com um interessante artigo de Clara Viana, no "Público" sob o título "Portugal é o país europeu com uma maior associação entre chumbos e pobreza". "Portugal é o da Europa "que mais associa chumbar com um baixo estatuto socioeconómico e cultural da família", alerta-se num estudo sobre a retenção no ensino básico e secundário. O estudo foi feito em parceria entre o Conselho Nacional de Educação (CNE) e a Fundação Francisco Manuel dos Santos, no âmbito do projecto aQeduto, que se propõe explicar a evolução dos resultados dos alunos portugueses nos testes PISA (provas promovidas pela OCDE)."
No estudo afirma-se que "as escolas portuguesas parecem estar a ser incapazes de fazer um trabalho de nivelamento de oportunidades". mas talvez a isto seja preciso acrescentar que a realidade do universo escolar se veio a degradar com as políticas de austeridade e de pobreza, com a completa insensibilidade social do governo além da Troika.
Como se vê, isto anda tudo ligada. Dizia o poeta Eduardo Carneiro. E repito-o eu.

domingo, 31 de janeiro de 2016

31 de Janeiro

À medida que os anos rodam e começam a pesar, de cada vez que a soma se dilata com mais um, há todo um mundo de memórias que nos transporta aos tempos iniciais, quando o calendário parecia ser uma coisa meramente externa que não nos dizia respeito e as horas não entravam no inventário da vida. Tudo, então, parecia eterno.
Se calhar, no lugar-comum que diz que o homem é ele e as suas circunstâncias, vir ao mundo no dia 31 de Janeiro corresponde, talvez, ao destino que nos cabe em sorte e onde a data de uma revolução (falhada é certo) surge historicamente como um acto de esperança, prenunciador da República, que aconteceria pouco depois. Agora, ao sol dos dias, penso que talvez estejam aí os adn's da participação cívica e cultural, na perspectiva que a Liberdade é um coisa inexpropriável e que a transformação da realidade é o grande desafio que cada um transporta consigo, à sua maneira.
De facto, desde que ganhei consciência das coisas e comecei a perceber o "rumor do mundo" muitas vezes pensei na expressão simbólica do 31 de Janeiro se ter atravessado no meu caminho, como circunstância benigna de carácter projectivo sobre a complexidade individual e biográfica.
Não sei, ou talvez saiba, por que trago aqui uma reflexão tão intimista, mas a verdade é que a memória nos empurra para a folha branca, como se assim se fizesse alguma luz sobre o tal inventário dos dias. E é por aí que vamos sempre ao encontro de Pessoa/Álvaro de Campos quando ele escreveu aquele soberbo poema sobre o aniversário, cujos primeiros versos talvez expliquem tudo: "No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,/ Eu era feliz e ninguém estava morto"...
É essa realidade que agora levemente se insinua e me cerca porque sei, de ciência certa, que há uma voz que pela primeira vez me vai faltar, a de meu irmão Zé César, que todos os anos, onde quer que estivesse, me dizia como um abraço:
-- Viva o 31 de Janeiro!
Nos último verso do poema, Pessoa diz: "Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!..."
Mas agora, devo confessar, o universo de amigos que comigo partilha palavras nestas navegações do Blogue e do FB, quiseram manifestar a sua amizade e desejar-me futuro. Fico grato e feliz. E, na circunstância (eu e as circunstâncias...) não tendo palavras para lhes oferecer, socorro-me do poema que Eugénio de Andrade dedicou aos Amigos (in "Coração do Dia") e que é assim:

"Os amigos amei 
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga."

Partilhar "a sede de alegria". Haverá melhor programa?