sábado, 27 de fevereiro de 2016

UM POVO INTELIGENTE

Entre os vícios antigos e que reproduzem na sociedade portuguesa um certo sentido de casta, figura com relevo aquele comportamento dos que, uma vez alçados ao poder e aos lugares chorudos, se agarram a eles como lapas, enquanto o mexilhão bate na rocha. Esta tipologia comportamental atravessa transversalmente a sociedade e é também visível, muito visível, nos poderes regionais, onde não faltam lugares cativos para os figurões. Encarripatados nos gabinetes do mando, nomeados politicamente às vezes sem outros méritos que o cartãozinho partidário, defenderam com unhas e dentes, por exemplo, o governo pafista, mas, apeado este do poder, são raros os que pedem a demissão ou põem o lugar à disposição, que têm estômago que aguenta tudo e mais um par de botas. Esta semana tornou-se caso o do director do Centro Cultural de Belém, António Lamas. Convidado pelo ministro da Cultura, a abandonar o lugar, veio logo dizer que não se demitia: daqui não saio, daqui ninguém me tira! A questão subiu ao Parlamento e o ministro foi lá dizer que, se ele não abandonar o lugar, segunda-feira demite-o.
Isto fez-me lembrar outra vez o poema satírico que José Sesinando, pseudónimo de José Palla e Carmo (que falta que ele cá faz para zurzir os tipos que se julgam proprietários do país!), que aqui deixo como alto exercício de ironia:
I
"Demito-me!”– exclamou o Governante.
"De quê?” – perguntou o próprio suportante:
"Demitido já está – quando não jante
nem almoce o povo seu garante”.
 II
"Dissolva-se!” – decretou o Presidente.
"O quê?” – perguntou-se toda a gente:
"Dissolvido já está, naturalmente,
um regime de si-próprio diluente”.
III
“Discordo!” – protestou o Governante.
"De quê?” – perguntou o Presidente:
"Contra si-próprio acaso é protestante?
 "A si-próprio agora ferra o dente?”
 IV
Nunca unido assim foi o votante;
raras vezes, assim, unanimemente
e de modo de tal modo confiante
a Oposição no Governante teve agente. 
V
A lição, no fundo, é confortante:
se o zarcão é o seu auto-dissolvente,
a economia, em nós, é uma constante.
 Somos, ou não, um povo inteligente?

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

OS QUE JULGAM TRAZER O REI NA BARRIGA!

Há histórias fantásticas, a que o tempo confere redobrada força, pois não faltam comportamentos de sujeitos que se julgam o centro do mundo e que, alarvemente, alardeiam uma condição de superioridade colhida no berço ou expropriada a um status social negociado no mercado das conveniências, onde o dinheiro confere poderes. É sempre de proveitosa leitura aquele grosso volume, intitulado "Discurso Sobre as Obrigações do Vassalo", que estabelece a dicotomia das servidões.
Porque os tempos vão como vão, é que me apetece repetir uma história contada aqui há bastante tempo, colhida de uma crónica antiga de António Valdemar. Ele, que em questões de memória é imbatível, contou a extraordinária história passada entre o corregedor de Santarém e o duque do Cadaval. Valdemar descreve o poder do duque, "símbolo de abastança económica e domínio político" que "de Melgaço a Lagos, até possuía estradas e caminhos próprios". Por essa condição, não hesitava em tratar qualquer pessoa por tu. Ora, o corregedor de Santarém não lhe permitiu tal atrevimento. Retorno a António Valdemar: "Na Biblioteca Nacional de Lisboa existe uma carta ao duque do Cadaval, enviada pelo corregedor de Santarém, insurgindo-se contra essa abusiva forma de tratamento. Talvez seja interessante conhecer o conteúdo da carta, encabeçada por dois superlativos conspícuos e concluída sob os respeitosos auspícios da Divina Providência: “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: Se o meu nascimento me pôs nas circunstâncias de V. Ex.ª me tratar por tu... caguei para o nascimento; se o meu honrado cargo, que há muito exerço, de corregedor de Santarém permite que V. Ex.ª me trate por tu... caguei para o cargo. Mas se nem uma nem outra condição consentem semelhante linguagem... caguei para o tratamento. Queira, pois, V. Ex.ª elucidar-me para saber se posso cagar para V. Ex.ª. Deus guarde V. Ex.ª.: O corregedor de Santarém”. 
Não faltam por aí sujeitos, com roupagens nobres e veneras, que julgam ter o rei na barriga, que bem mereciam, também, o vernáculo do corregedor. É que, às vezes, não há mesmo pachorra para a sua estupidez e sobranceria.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"GERINGONÇA, O TANAS!"

Desde que o engraçado Vasco Pulido Valente crismou o governo de António Costa, sustentado pelo apoio parlamentar da esquerda, de "geringonça" que comentadores, jornalistas e políticos banalizaram a expressão a um tal nível que ela se virou contra os próprios, à medida que o governo avança e se recomenda. É verdade que os saudosos da coligação de direita, que fez Paf e desapareceu, não se cansam de refocilar no verbo, mas o que os utilizadores revelam -- não digo o sr. Montenegro ou o sr. Passos, ou o sr. Mota ou a sr.ª Cristas -- mas sobretudo os jornalistas e os comentadores de serviço, é um servilismo lamentável ou, se quiserem, uma falta de imaginação atroz. Já nem se dão ao cuidado de colocar aspas na expressão. Seja como for, a recente aprovação do Orçamento do Estado veio mostrar como o comentário anda divorciado da realidade. O que, levou ontem Ferreira Fernandes, a fazer a aritmética dos votos que aprovaram o Orçamento ou o desaprovaram e a dizer que a democracia estava precisamente na maioria expressa na Assembleia da República.  A crónica de Ferreira Fernandes, no "DN" tinha o curioso título: "A geringonça, afinal, funciona. A prova? 122". Tirando, mais uma vez, o chapéu, ao cronista, aqui deixo a saborosa prosa:
"Sobre ontem, disse-se que foi "histórico" (nunca o PCP e o BE tinham aprovado um Orçamento) e "poético" (Sérgio Godinho foi citadíssimo). Ora, o mais importante a dizer de ontem fazia-se com aritmética. Todos disseram que o OE passou com votos de PS, BE, PCP e Verdes, e de todos os seus deputados, pois a votação era em bloco. Está certo, mas são letras a mais e osso a menos. Se eu fizesse o título deste acontecimento, seria assim: "122". Uma aprovação inevitável, pois maior do que a metade de todos os deputados. Isto é, superior ao mágico 116, onde as coisas políticas começam a ser. E, abaixo desse 116, a ainda não ser. Poria, pois, esse 122, porque ele é uma lição. Este ano letivo político começou a 4 de outubro, quando tanta gente honrada e sábia meteu os pés pelas mãos. Uns disseram "ganhámos", outros "perdemos", e o que se seguiu mostrou que estavam todos enganados. A política é dinâmica, mas deve cumprir aquela leizinha do 116. PSD e PP não ganharam porque não chegaram lá, ponto. Costa serviu-se da dinâmica, fez dos seus 86, em outubro, 122, ontem, e por isso governa, ponto. Em Espanha, também ontem, os socialistas e o Ciudadanos fizeram um "pacto de governo" e atiraram foguetes. Errado. Juntos fazem 130 e o número mágico, lá, é 176. Ou criam dinâmica ou é uma fantasia. A ignorância é internacional, de esquerda e de direita. Devíamos agradecer a quem nos livrou dela cá. Geringonça, o tanas! Este governo funciona: 122."
Também eu digo aos trapaceiros do comentário e do jornalismo, com as suas nebulosas narrativas, ou à demagogia dos "paf's": "Geringonça, o tanas!"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

HISTÓRIA DE UM REQUIEM

Há 16 anos (estávamos em 2000), publiquei uma longa entrevista com o Dr. António Lourenço Marques sobre o que então se chamava a Unidade da Dor, criada no Hospital do Fundão, do Centro Hospitalar da Cova da Beira. Escrevia, na abertura do texto prosa levemente indignada sobre uma questão que em Portugal dá bem a imagem não só da banalização da desumanidade, como do brutal atraso do país sobre a realidade concreta da morte. Dizia eu, então: "Há situações limite de sofrimento, doentes atirados para o desvão do esquecimento, numa sociedade que fez da indiferença um álibi contra a solidariedade. Há sete anos, o dr. Lourenço Marques criou uma Unidade de Tratamento da Dor, no Hospital do Fundão. O balanço é largamente positivo. O médico anestesista recusa que os doentes terminais sejam objecto descartável do sistema de saúde e diz que a Universidade tem de ter um papel diferente na forma como olha a problemática da dor. E deixa um recado: as estruturas regionais de saúde da região dialogam pouco".
Agora, olho para as folhas de jornal amarelecidas pela patine do tempo, e recordo o início da conversa que se estende por duas páginas.
(-A Unidade da Dor do Hospital do Fundão, quantos anos tem? - perguntei então, e Lourenço Marques esclareceu: - Começou em 1992. É um percurso que evoluiu de acordo com a sua especificidade, embora com um crescimento sustentado, mas discreto e limitado.
E eu: - A unidade da Dor do Fundão é a primeira a surgir no interior do país?; e ele: - Sim, com internamento, podemos dizer até que é a primeira no país. A segunda surgiu no Porto, em 1997. A unidade da Dor do Fundão, foi criada na perspectiva do tratamento da dor, mas quando avançámos para o internamento isso traduziu um maior interesse pelos doentes.
Pergunto eu: - Quando diz  que a Unidade da Dior teve um crescimento limitado, isso deveu-se a quê? Ao facto da dor ainda ser uma realidade de certo modo oculta na sociedade portuguesa?; respondeu Lourenço Marques: -A Unidade da Dor insere-se num contexto regional, no distrito de Castelo Branco, onde morrem por ano com cancro cerca de 500 doentes, até talvez um pouco mais, mas é o que dizem as estatísticas. O problema é que nós aceitamos os doentes a partir do próprio sistema, isto é, enviados pelos médicos que os estão a assistir na fase anterior. E é um facto que eles não são enviados. O papel dos médicos face aos doentes que estão a morrer é, em muitos casos considerado muito desinteressante. Os médicos mantêm-nos até uma fase muito tardia de tratamento, e quando a situação já está de tal modo avançada que os horizontes de vida se fecham, não se envolvem no futuro da própria situação dos doentes. Isso reflecte-se na limitação do crescimento da Unidade da Dor. Não há uma sensibilidade em relação a esta realidade.)
Estávamos em 2000. Há uma circunstância tão especial, que eu nunca esqueço. Talvez em 1992, talvez, alertado para uma situação de dramatismo extremo (dramatismo extremo? Fraca forma de definir uma uma realidade concreta que era uma descida ao inferno), precisamente de um caso terminal no Casal da Serra, em que um homem abandonado por todas as estruturas da saúde, assistia à sua própria devoração por um cancro, que lhe cavara uma enorme cratera no rosto, onde só dois olhos brilhavam, brilhavam muito. A minha percepção do que ali estava em jogo, levou-me a pedir ao António Lourenço Marques que me acompanhasse a esse inferno quotidiano, vivido a meia encosta na Serra da Gardunha. O Adelino Pereira registou o caso fotograficamente. E eu escrevi uma prosa tão indignada que o caso se tornou num enorme escândalo nacional, que levou à intervenção da Presidência da República e do Ministério da Saúde para que o doente fosse socorrido.
Penso que nesse caso esteve a génese da Unidade da Dor do Fundão. Nunca mais esqueci aqueles olhos e aquele rosto e a impressão ficou tão funda gravada na memória que anos mais tarde ficcionei a história porque a literatura nunca escapa a estes casos limite.
Ora, por razões estranhíssimas, a Unidade da Dor, no quadro do Centro Hospitalar da Cova da Beira, foi sempre um espaço mal-amado. O Ministério da Saúde também nunca se interessou verdadeiramente pelo problema (Fundão? Unidade da Dor? Não queremos saber...). Como acontece muitas vezes em Portugal, mudou-se o nome. Veio a Unidade de Cuidados Paliativos. Depois, tudo passou a girar à volta dos Cuidados Continuados.
Agora, dizem-me que a Unidade de Cuidados Paliativos (ainda será unidade?) irá passar para o Centro Hospitalar da Cova da Beira.
O Fundão assiste, impávido e sereno, ao seu próprio funeral.

OS CASAIS DE FOLGOSINHO

Uma crónica de há dias, na tsf, do meu querido Fernando Alves, transportou-me para os Casais de Folgosinho, que é território de sonho na mítica Serra da Estrela. Não sei quantas vezes já por ali fui, na demanda de sabores (a gastronomia de Folgosinho é célebre!), mas sobretudo para lavar os olhos da alma com aquelas paisagens de horizontes vastíssimos e surpreendentes. Às vezes, quando aportamos, as montanhas já não são azuis, mas as cores nos vales dos casais, ou no dorso das serranias próximas dissolvem-se nas diversidades que fazem os instantes soberbos de deslumbramento. E, claro, há o mistério da água e todo o seu imaginário, de que fala também a crónica de Fernando Alves.
Mas os Casais de Folgosinho, muito antes do filme de Jorge Pelicano sobre os pastores lhes trazer mais celebridade, evocam em mim outros tempos e seguramente a primeira visita de um Presidente da República ao lugar. Era o general Ramalho Eanes, na sua primeira Presidência, e eu lembro-me de andar nessa geografia, então distante para mim, em acto de reportagem. Então, os Casais reflectiam ainda muito de isolamento e da pobreza que vinham do fundo dos tempos, de pastores atónitos com as novas regras que a CEE estava a impor à produção de queijos e que tornava as queijeiras espaços mais humanizados do que aqueles onde viviam as pobres criaturas. Lembro-me, aliás, de o director do Parque Natural, quando Eanes anunciou o desejo de visitar a Serra, ter dito (ou oficiado) que "a Serra da Estrela não estava em condições de ser visitada por sua Excelência o Senhor Presidente da República..."
Mas agora é a magia das palavras e dos sons de Fernando Alves que me transportam para lá e então o que a memória traz são os horizontes da paisagem da Serra, sempre a perder de vista. Oiçam o Fernando Alves:

Sinais - TSF Rádio Notícias

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"TUDO ESTÁ ARMADILHADO"

A indisfarçável azia de partidos de direita e dos comentadores e jornalistas que vêm trazendo pela trela, com a aprovação do Orçamento do Estado, reflecte, sobretudo, a incomodidade pelo facto da esquerda, pela vez primeira, materializar um acordo parlamentar de apoio ao governo do PS. A reversão social de muitas das políticas do governo de direita, é o verdadeiro cimento que garante a estabilidade do governo de António Costa. Curioso é que, aprovado o Orçamento, logo surgiram as habituais Cassandras de circunstância a efabular cenários de futuras crises, ao mesmo tempo que agitam espantalhos da Comissão Europeia e dos Mercados, cujas vergonhosas chantagens eles aplaudem, de alma e coração.
Pacheco Pereira, mais uma vez, fez no último artigo publicado no "Público" uma radiografia à situação actual, avisando que "Tudo está armadilhado". Aconselhando a sua leitura, tomo, no entanto, a liberdade de uma comentário genérico, sublinhando algumas das passagens do texto.
"Se Costa não tivesse rompido com o “arco de governação”, a governação PSD-CDS continuaria exactamente a mesma política, porque ela é pensada como sendo para 20 ou 30 anos, como se isso fosse possível em democracia e, como não teria resultados, teria que ser eterna. Para ser “eterna” teria que ser cada vez mais autoritária, como já estava a ser", lembra o historiador que, mais adiante, assinala que "no actual contexto europeu, o que se está a passar em Portugal, sendo na verdade apenas uma tímida mudança,  é tratado quase como uma revolução e, como tal, mobiliza as gigantescas forças que estão preparadas para matar no ovo qualquer desvio menor que seja ao cânone alemão". E depois: "O governo de Costa tem todas as probabilidades de ser derrubado pela Europa do PPE e dos socialistas colados aos alemães, seja directamente por um qualquer “chumbo” europeu, seja indirectamente pela obrigação de aplicar políticas que lhe retirem o apoio parlamentar do BE e do PCP. O Orçamento de 2016 foi apenas uma amostra e o governo saiu já bastante magoado dessa amostra, que lhe abastardou a política que pretendia seguir, criou desconfianças e distâncias com os seus aliados e colocou-o junto da opinião pública como um governo fragilizado, errático nas finanças e na economia, mesmo incompetente. O comportamento europeu para as décimas do défice, a sucessão de declarações hostis sobre os “riscos” da política portuguesa de incumprimentos vários às “regras” do Tratado Orçamental, contrasta com a complacência face a idênticos incumprimentos do governo anterior, que, como era “amigo”, tinha margem de manobra e podia no fim esnobar dos relatórios do FMI, que hoje brande contra o PS. Aliás, a dureza e hostilidade que existem contra o governo de Costa, contrastam com a vontade dos principais dirigentes europeus darem a Cameron medidas que significam recuos importantes (e que também estão nos Tratados) em matéria de liberdade de movimentos e direitos sociais dos emigrantes, para que este volte com um frágil papel para convencer os eleitores ingleses que afinal, com uma longa lista ainda podem continuar na Europa. Ou seja, em matéria de direitos sociais, a mesma Europa que não cede a Portugal uma décima no défice sem vilipendiar um governo eleito, está disposta a abdicar perante a pressão inglesa. Na economia do “ajustamento”, não há um milímetro de cedência às “regras”, nos direitos sociais, tudo é negociável.  Por tudo isto, a “Europa” actual, Schäuble, Dijsselbloem, Moscovici, Dombrovskis, mais as suas cortes de funcionários zelosos, a última coisa que desejam é que possa haver qualquer mitigado sucesso de um governo que está a cometer esse crime de lesa-economia que é “reverter” salários e pensões, taxar fundos e bancos e não ao contrário".
Para Pacheco Pereira, "o braço armado desta política é, hoje, em Portugal o PSD de Passos, que está convencido de que o seu regresso ao poder é a curto prazo" e "Passos continua a comportar-se como se fosse  um primeiro-ministro usurpado, de bandeirinha governamental na lapela, a fazer falsas inaugurações, e ainda na Europa, o seu grande aliado, a instigar a fronda contra a política do Governo e a falar para as agências de raiting  e os mercados mostrando-lhes qual o sentido político que pode ter em Portugal uma subida de juros ou uma abaixamento de raiting:destruir o governo deles".
É neste contexto que Pacheco Pereira avisa: "PS, BE e PCP ou reforçam de qualquer modo a coordenação política, que lhes permita ganhar algum ânimo colectivo e defrontar em conjunto e de forma capaz toda a tempestade que cai e vai cair sobre o Governo, ou vão ter um lindo enterro. Lindo porque deve estar sol, mas só por isso".
Pensemos nisso.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

A ESTUPIDEZ NÃO PERDOA

Às vezes, no reencontro de papéis velhos, que nos actualizam sempre a memória, encontramos coisas excelentes, histórias que um dia lemos e nos fizeram sorrir. Agora, encontrei este apontamento: Parece que o conto mais curto da literatura universal se resume a duas ou três linhas. É de um autor da América Latina, que eu li e agora não encontro, como gostaria, para oferecer aos leitores, perdido que anda no labirinto de papéis da biblioteca. Um dia há-de ser. O que interessa é relevar o génio de contar, a capacidade de fazer da história uma navegação breve, como Borges também gostava de praticar. Um dia destes, no garimpo da arte de contar, fui de novo parar ao excelente livro “Contos de 1 Minuto”, de István Örkeny, editado há anos pela Cavalo de Ferro. Não resisto a oferecer aos leitores esta pequena maravilha:

IN MEMORIAM DR. K.H.G
– Holderlin ist ihnen urbekannt? («Não conhece Hölderlin?») – perguntou o Dr. K.H.G. enquanto estava a escavar a cova para o cadáver de um cavalo.
– Quem era? – perguntou o guarda alemão. -- Aquele que escreveu o Hyperion – explicou o Dr. K.H.G, que gostava muito de explicar as coisas.
– A figura mais significativa do romantismo alemão. E Heine, por exemplo?
– Quem são eles? – perguntou o guarda.
– São poetas – disse o Dr. K.H.G. – E o nome de Schiller, não lhe diz nada?
– Conheço, sim – disse o guarda alemão.
– E Rilke?
– Esse também – disse o guarda alemão, que ficou vermelho como um pimento quando abateu a tiro o Dr. K.H.G.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

EUTANÁSIA: QUE DEBATE?

Penso que foi Mário Mesquita que disse uma vez que as polémicas ou os debates sensíveis, agora chamam-lhe fracturantes, parecem "touradas à espanhola". Não sabendo eu se as touradas à espanhola lhe conferem uma tipologia especial, que no caso das discussões, as diferenciem das portuguesas, há que sublinhar que a metáfora de Mesquita se aplica que nem uma luva à nacional tendência de pôr as ideias em estado de sítio, de cada vez que se tenta aprofundar uma dessas questões tabu que, em Portugal, sofrem o profundo desprezo de se arrumarem na gaveta, dizendo-se: é melhor não falar nisso.
Afinal, isso é, apenas, o velho trauma de esconder o essencial, menosprezar direitos, subalternizar tudo aquilo que é comum ao Homem. E, como disse alguém, nada do que é comum aos homens nos deve parecer estranho. Mas basta ver o "tumulto ideológico" que por aí vai a propósito do direito à morte assistida, desde que uma centena de personalidades veio apenas dizer num manifesto que o problema devia ser discutido na sociedade portuguesa, que muitos guardas do templo dos tabus e dos dogmas, levantaram o machado de guerra para liquidar os infiéis portadores de heresias de mau agoiro. No fundo, também eles vêm dizer aos hereges: é melhor não falar nisso e deixar que a morte, mesmo nos casos-limite, siga o seu caminho normal. É a velha teoria de que o sofrimento e a dor é para os outros, embora se saiba agora que ninguém está livre que elas caiam em cima dos pobres mortais que somos.
Reflectia eu sobre estas coisas quando li um pertinente comentário do meu amigo Eduardo Maia Costa, respeitadíssimo magistrado, no Blogue "Sine Die", onde ele costuma colaborar. Julgo que vale a pena lê-lo, na esperança que o debate sobre a Eutanásia não se transforme numa tourada à portuguesa. Aqui fica:
"Colocado o tema da legalização da eutanásia em discussão pública, logo os guardas da moral católica vieram a terreiro defender a “integridade e integralidade” (?) da vida humana… Mas os dogmas católicos são só vinculativos para os católicos! A legalização da eutanásia não é nenhuma promoção da morte! É a solução admissível para as soluções extremas e só quando o próprio a pedir… Os que são favoráveis à legalização da eutanásia também amam a vida! E amam também a dignidade humana, a dignidade das pessoas concretas. E também são a favor dos cuidados paliativos, mas sabem que há situações em que esses cuidados já não resolvem o problema da dor, muito menos o da dignidade do doente… Os “juristas católicos” são mais católicos do que juristas ao defenderem que o preceito constitucional que estabelece a inviolabilidade da vida humana proíbe radicalmente a eutanásia e o auxílio ao suicídio, pois aquele conceito não é absoluto. E fica-lhes mal dizerem que a eutanásia é um passo na progressiva eliminação dos mais fracos, sugerindo de alguma forma que há propósitos eugénicos na proposta de legalização a eutanásia. É ainda mais feio os “médicos católicos” sugerirem que por detrás “desta aparente morte misericordiosa” estejam escondidos interesses economicistas… É sempre feio tentar desclassificar os adversários ideológicos atribuindo-lhes intenções maldosas escondidas… Enfim, o debate sobre a eutanásia começou; mal, como era de esperar…"