sábado, 5 de março de 2016

DEBATER A IMPRENSA E O JORNALISMO

Não faltam os que avisam -- num aviso que vem de longe -- que a imprensa e o jornalismo estão doentes em Portugal, numa doença que também se alarga ao país e à democracia. Esse diagnóstico, feito repetidamente, tem caído na banalidade do esquecimento, que é um procedimento comum em Portugal, sempre que as questões adquirem dimensão incómoda. No caso da imprensa e do jornalismo, é verdade, a classe dos que trabalham no mundo da chamada comunicação social (o social aqui tem sempre um significado tautológico) tem algumas responsabilidades no cartório, na forma como tem praticado silêncio à volta destas questões, umas vezes certamente por medo, outras por excesso de corporativismo ou simplesmente por desqualificado desinteresse.
É por esse contexto circunstancial que vale a pena relevar dos acontecimentos desta semana, em que a imprensa e o jornalismo foram pensados de uma forma crítica e actualizada. No primeiro caso, saúda-se o nascimento da AECJ - Associação de Estudos de Comunicação e Jornalismo, fundada por um grupo de jornalistas e académicos. Alexandre Manuel, meu camarada de tantas iniciativas, afirma que a associação nasce "porque cremos que é possível fazer alguma coisa para melhorar o jornalismo actual" afirmando uma convicção de optimismo: "Creio que vai valer a pena". Uma conferência do Prof. José Manuel Paquete de Oliveira analisou uma questão de grande actualidade: "Os media e o Poder Político - Comportamento dos media nas últimas legislativas e presidenciais."
Outro caso foi o artigo de Nobre-Correia no "Público" em que faz um retrato penoso dos media em Portugal, mas não deixa de dar sugestões para combater o mal. Do texto, permito-me,com a devida vénia, retirar uma parte em que o articulista analisa o fulcro da questão. Assinala ele que "Portugal tem o índice de penetração da imprensa diária mais baixo da até há pouco chamada Europa Ocidental: umas sete a nove vezes inferior ao da Europa escandinava" sendo "provavelmente também o país que conta menos títulos diários relativamente às respetivas demografia e superfície".
E acrescenta Nobre-Correia: "Como se isto não bastasse, diários há que correm o risco de deixarem de ser publicados. Enquanto outros se encontram em situação financeira grave, despedem jornalistas, diminuem o número de páginas e reduzem custos, o que se traduz numa inevitável perda de qualidade. Perante tal situação absolutamente catastrófica, parlamentos e governos sucessivos guardam silêncio, mantendo-se indiferentes e inertes, como se isso não lhe dissesse respeito. A pontos de deixarem pensar que, no fim de contas, a classe política deste país preferiria fazer a sua vidinha sem que jornalistas e jornais se metessem-se nela. Ou dito de outro modo: sem que os cidadãos fossem minimamente informados do que se passa nas esferas do poder…"
"Sejam quais forem as críticas a fazer às caraterísticas dominantes dos mundos mediático e jornalístico, a circulação de uma informação de qualidade constitui um elemento indispensável ao bom funcionamento de uma democracia", acrescenta o articulista que, pensando numa perspectiva de futuro propõe: "Pelo que urge elaborar um plano suscetível de favorecer a sustentabilidade dos títulos existentes e, paralelamente, promover a criação de novos títulos. Para além da sustentabilidade, conviria incentivar iniciativas que levassem os atuais diários de informação geral (em papel ou em linha) a reforçar as equipas de redação e a desenvolver o jornalismo de investigação, de reportagem e de análise, assim como as correspondências do estrangeiro, e mais particularmente da União Europeia e dos países de língua portuguesa. Mas também iniciativas de natureza a propor uma melhor cobertura da atualidade do país “do interior” e até o lançamento de cadernos regionais com informação e publicidade específicas. Assim como iniciativas suscetíveis de alargar consistentemente as magras difusões atuais, quer em Portugal mesmo quer junto da lusofonia no mundo. Paralelamente, conviria privilegiar o lançamento de novos diários de informação geral (pelo menos em versões digitais) baseados em três ou quatro cidades das regiões de “baixa densidade”. De modo a descentralizar uma informação demasiadamente concebida em função de um litoral Centro-Norte e sobretudo de Lisboa e dos meios dirigentes (políticos, económicos, culturais, sociais e desportivos) que por lá reinam… Mas de modo também a favorecer uma informação regional concebida em termos de qualidade profissional, o que é raramente o caso hoje em dia."
Oxalá que o debate se alargue e se quebre, finalmente, a apatia crítica que reina em torno dos media.



sexta-feira, 4 de março de 2016

BOMBAR!

O líder do PSD, Pedro Passos Coelho, afirmou esta semana que se estivesse a governar estaria “a bombar para que a crise ficasse cada vez mais para trás” e criticou quem, no debate político, perde tempo a insultar. “Estamos a recuperar da crise e eu, se estivesse no Governo, estava a bombar para que a crise ficasse cada vez mais para trás e nós pudéssemos crescer para criar mais ainda oportunidades de emprego para aqueles que ainda não têm”, afirmou Passos Coelho. 
A ligeireza verbal de Passos Coelho é curiosa: bombar! Mais curioso é quando diz que "se estivesse no Governo estava a bombar para que a crise ficasse cada vez mais para trás..." Então, que andou ele a bombar nos quatro anos e meio que esteve a governar e durante os quais devastou Portugal com mais pobreza, mais privatizações, mais desemprego, mais desgraça.
Ó meu, isso é que foi bombar! 

quarta-feira, 2 de março de 2016

CHEFES E ALMAS MORTAS


Para a Eugénia, que me contou uma história

Na literatura universal e muito na dramaturgia, não faltam exemplos de personagens que parece terem saído de armários repletos de fantasmas e teias de aranha para se apropriarem de quotidianos avulsos e inquinarem a felicidade dos outros. A ficção e a narrativa dramática retirou-os da realidade e recriou-os, com pinceladas de ironia, visando a caricatura de mundos que ao longo dos tempos envenenaram as sociedades.
Nesses abencerragens, que vieram ao mundo para infernizarem a vida das pessoas de bem, situa-se com relevo a figura do chefe ou dos chefes. São de todos os tempos e de todos os lugares, às vezes figuras tristes e sem interesse, que enchem o peito de ar como suporte de autoridade e arrastam pelas horas a sua irrelevância. O anedotário está cheio de histórias bacocas de chefes. Que seria do humor dos povos sem os chefes?
Vêm do fundo dos tempos, com o seu arcaísmo mental, a sua falta de decência (sabem lá o que isso é!), exercitam a estupidez com aquela agilidade com que C. Cipola definiu as suas várias categorias. Geralmente, porque o não sabem fazer, odeiam quem pensa - sobretudo quando o pensamento se eleva em voz alta. Há muitos anos, um desses tipos, chefe arvorado, desfeiteado pela inteligência do interlocutor, disparou-lhe, num propósito de humilhação, que é sempre a arma dos imbecis:
-- O senhor não está aqui para pensar!
Comportamentos destes reproduzem-se no tempo. Não se lembram do que Antero respondeu ao chefe da polícia, que proibia as Conferências do Casino:
--Mas Ex.mo Senhor será possível viver sem ideias?
O ódio ao acto de pensar tem,aliás, raízes fundas nos universos totalitários ou de ditadura. Hannah Arendt tem uma reflexão muito interessante sobre a questão: "A humanidade viva de um homem declina na medida em que ele renuncia a pensar".
Isto explica tudo. Mas regresso novamente ao fenómeno literário que tanto fustigou essa fauna, que Camilo tinha dificuldade em classificar numa escala zoológica... A Gogol (e a Tchekov também) não escaparam esses pitorescos sujeitos. Em Almas Mortas fez este fabuloso retrato de um Chefe:
«Agora suponhamos por exemplo que entramos numa repartição pública e que nessa repartição há um chefe. Vejamos como ele se comporta no meio dos seus subordinados. Quando o ouvimos dar ordens, quase ficamos mudos de medo. O seu rosto respira nobreza, orgulho e sabe Deus o que mais! Um Prometeu, um verdadeiro Prometeu! Que ar majestoso! Que andar imponente! Parece uma águia! Mas mal sai dali, com a papelada debaixo do braço, e entra no gabinete do director, a águia transforma-se em perdiz…».
Almas mortas.

terça-feira, 1 de março de 2016

O IMAGINÁRIO DO CINEMA NO PARLAMENTO

Mais uma crónica excelente de Ferreira Fernandes, que é chamado várias vezes a este espaço, pelo motivo simples de ele ser um oásis no deserto do jornalismo português, a que os leitores não desdenharão aplauso. À volta de uma sessão do Parlamento, ele leu os acontecimentos à luz do imaginário do cinema. O resultado é como segue:

"No Parlamento: "Houston, temos um problema..."
A discussão era sobre o Orçamento mas a AR, ontem, mais parecia o antigo cinema Quarteto. "Show me the money", lançou a deputada Ana Rita Bessa (CDS) ao ministro da Educação. E não é que Tiago Brandão parecia o nosso crítico João Lopes? Respondeu-lhe: "Jerry Maguire?", e acrescentou que ela deveria era pensar no filme de Kubrick Dr. Estranho Amor: neste, o sábio louco queria explodir o mundo como o anterior ministro Nuno Crato queria implodir o Ministério da Educação. Talvez o espetáculo de ontem fosse só a febre dos Óscares de segunda-feira de madugada, mas é pena. O balcão do Parlamento podia tornar-se o Chiado-Terrasse se mantivesse no cartaz o ciclo das melhores frases do cinema.
Ainda ontem, Ferro Rodrigues, depois de contar os deputados da oposição, deveria mandar calar a deputada: "O mundo divide-se em duas categorias, os que têm a pistola carregada e os que cavam. Tu cavas..." (O Bom, o Mau e o Vilão). Ah, que dias de cineparlamento! Catarina para Jerónimo: "Acho que este é o começo de uma bela amizade" (Casablanca). Centeno sobre a TAP: "A mamã dizia sempre: a vida é como uma caixa de chocolates, nunca se sabe o que se vai encontrar" (Forrest Gump). Depois de Jerónimo confessar que continua comunista, Costa: "Ora, ninguém é perfeito..." (Quanto mais Quente melhor). Carlos César para o deputado do PAN: "Sempre acreditei na bondade dos desconhecidos" (Um Eléctrico Chamado Desejo). Costa a pedir à oposição uma moção de censura: "Make my day, faz-me feliz!" (Dirty Harry). E Passos a responder-lhe: "Carpe Diem, aproveita o momento" (O Clube dos Poetas Mortos). Entretanto, num cinema longe, em Belém, foi desprogramada para o dia 9, uma frase: "I' ll be back." Já ninguém quer ver o Exterminador Implacável."

AQUILINO, SÓ PARA LEMBRAR

Um dos temas que Aquilino aborda, com alguma persistência, no seu mundo ficcional, é a questão da Justiça, e mal ele saberia que mais tarde, já no ocaso do seu lavrar como criador da Língua, haveria de estar a contas com ela, por via do seu romance "Quando os Lobos Uivam", em que o velho lobo serrano fez o seu guinhol (palavra de que ele gostava) para denunciar usurpação de direitos seculares de populações da Beira (os baldios) e a superestrutura do aparelho repressivo dos Tribunais Plenários, que eram braço armado da PIDE e da ditadura.
Os meus leitores já devem ter notado, que eu vou muito ao universo criador de Aquilino, na tentativa de falar de um dos grandes construtores da Língua Portuguesa, que as escolas atiraram para o desvão do esquecimento e a estupidez mandante em Portugal decidiu matar, pelo silêncio -- não há pior morte para um escritor. E, no entanto, poucos como ele fizeram da escrita um trabalho de rigor, edificando uma obra fabulosa, de funda identidade, com páginas em que o autor de O Malhadinhas cavou fundo à procura de tesouros de dimensão universal.
Podem, por isso, os analfabetos de serviço ignorar Aquilino, que eu cá o vou relendo, e relendo-o, como dizia Henry Miller dos seus autores dilectos, é como se falasse com ele. Tenho andado a buscar horizontes vastos em algumas das suas páginas. Vou muitas vezes à Aldeia - Terra, Gente, Bichos, e ainda tenho fresca na memória a saga que ele escreveu, O Romance de Camilo, três volumes notáveis em que ele pinta o genial escritor com rugas e arestas, mas dá, também, toda a grandeza de Camilo, outro construtor da Língua.
Então, pararam-me os olhos em reflexões de Aquilino sobre a Justiça. Atentem nesta página recolhida em Aldeia - Terra, Gente, Bichos:

"A aldeia bárbara, petrificada através de séculos de bronquidão, teve a certa altura do seu ser, surdo e inflexível como fluxo duma ribeira, um sobressalto. Foi quando em virtude duma reforma administrativa, que tomava como princípios basilares a distância geográfica e a densidade populacional, lhe coube ficar cabeça de concelho. Siderados de todo, com a boca fendida até para lá dos zigomas, viram os serranos um belo dia apear de bestas de alquiler os oficiais da Correição e, logo de seguida, percorrer beco a beco, casa a casa, em busca dos locais em que instalar a senhora Cãmara, a Roda dos expostos e a Cadeia, as três pernas, ao que consta, da trípode municipal. À falta de edifícios, nobilitados por lavor de escola ou insígnia heráldica, decidiram-se por tais e tais espeluncas, lojas de gado e moradias devolutas.
Felizmente estes agentes da Casa do Cívil eram todos do barro daquele juiz de Barrelas que dava audiência sentado no cabeçalho do carro ou comendo o caldo com a tigela empoleirada na palma da mão esquerda. Chamado à Corregedoria da Comarca a explicar-se acerca de sentença anfibológica: "Vi e não vi; sei e não sei; corra a água ao cimo; deite-se fogo à queimada; seja o réu enforcado em nó que não corra, etc; como não lhe oferecessem cadeira, tirou a capucha de burel e, dobrando-a tantas vezes quantas era necessário para formar um assento razoável, sentou-se nela.  Retirava-se, tendo dito da sua justiça, quando o desembargador lhe disse:
-- Olhe a capa...
-- O juiz de Barrelas não tem costume de levar o banco em que se senta -- respondeu com altivo desdém."
Em O Romance de Camilo, Aquilino escreve:

"Deixar-se ir para juízo sem estrebuchar, não. Tão-pouco, deixar sem aparo aquela criatura que desencaminhou. Mas a justiça portuguesa, além de zorreira e minuciosa, era destituída de contemplações com os que sofriam. Notabilizava-se também por ter estômago de jibóia. Devorava os demandistas. Noutros tempos uma das pragas das rameiras: oxalá que a justiça te caia em casa!
Quer dizer, a justiça, em vez de ser bem-vinda nos negócios e vida do cidadão, quando se corporizava em seus ministros e agentes, era temida como uma flagelo. Nesta terra, assinalada pela brandura dos costumes, mostrava-se umas vezes tão frouxa que deixava morrer os presos sem julgamento, outras vezes tão lassa, que os criminosos andavam à solta e ninguém lhes ia à mão. Não raro tomava-se de marasmo, e só para desentorpecer era um castigo."

Aquilino, só para lembrar.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

OLHAR A NEVE

Há anos que o Fundão não goza o deslumbramento da primeira neve. Vem dos territórios da infância esse sortilégio em que a paisagem, quando o nevão é grande, parece ficar unidimensional, liberta de arestas, e se na montanha a dimensão fantástica assume as formas de árvores vergadas ao peso da neve, ou geladas, com o sincelo a fazer-nos entrar na magia pura, já nos vales a terra se transforma em planuras a caminho do infinito. Nas terras, a realidade urbana também se acolhe ao manto de fantasia, mas nunca a austera realidade do conglomerado de casas se deixa dissolver inteiramente na brancura da paisagem. Nas ruas ou nas praças, a neve tira as impressões digitais aos passos que se aventuram e os miúdos, já em alvoroço, giram à volta da neve. Ano de nevão não era apenas ano de pão; era, também, ano de gazeta às aulas, as escolas fechavam e os dias transformavam-se em milagres reais. É certo que havia, como sempre no quotidiano, o contraste das desigualdades, e a pobreza, que era presença intensa na realidade social, fazia que muitos não achassem piada à neve.
Nestes dias de frio, com os especialistas do tempo a vaticinarem neve acima dos 500 metros, se desenhou por aqui a esperança de nevão. Muitos espreitavam o céu, densamente encoberto, apuravam os sentidos ao frio, e perguntavam:
--Então, como está o astro? Vai nevar pela certa...,
É o nevas! Assim, a alegria pode ser olhar a Serra da Estrela. Às vezes, o sol poisa na neve, e, ao longe, parece prata. Que maravilha! A neve torna-se então mais íntima porque vai estar ali à distância dos nossos olhos alguns dias, até que a Serra tire o seu manto branco e volte, outra vez, a respirar a paisagem das montanhas azuis que se divisam ao longe e das esculturas graníticas que, imponentes, se recortam, ou a ouvir a música das águas que descem bravias por todos os lados. Então, apura-se o ouvido, e, se tivermos sorte, poderemos ouvir outra a música: a dos rebanhos que restam, à procura do cervum. O que isto quer dizer é que a Serra, nas suas diversidades, é território de sonho para todo o ano, com surpreendentes descobertas dentro dos vários tempos. Repito Alain em busca da felicidade efémera: basta saber olhar e amar o que se vê! É quanto basta.