sábado, 12 de março de 2016

O ESCULTOR QUE NÃO IA À "MACHAMBA"...

O Zé Rui Martins (ACERT), contou há dias uma história que não resisto a trazê-la aqui, pelo que ela é reveladora da importância da arte, e, ao mesmo tempo, pelo sentido de humanidade que lhe está subjacente.
Numa zona interior de Moçambique, era uma aldeia de camponeses, ele só encontrou lá um habitante que fazia escultura em madeira, aquele longo e laborioso trabalho de paciência que é a expressão criadora de saberes ancestrais. Todas as casas estavam vazias, menos aquela. Ao perguntar pelos outros, o escultor levantou os olhos do trabalho para lhe responder:
-- Estão todos na "machamba", a trabalhar.
Ele olhou o artista e as suas obras e foi descobrir os habitantes da aldeia, homens e mulheres, elas decerto com crianças às costas, nas tarefas da agricultura. Perguntou então a um deles por que só ficava na aldeia o escultor, e todos os outros trabalhavam no agro. A resposta é surpreendente:
-- É que ele trabalha para nos alegrar os olhos!
Ali estava, digo eu agora, F.P.N., a expressão maior da sabedoria e a densidade da sua compreensão sobre o lugar e o valor do artista no interior da sua comunidade. É uma boa lição para a arrogância dos que vivem nos chamados países desenvolvidos e olham a acção cultural como um desperdício ou uma coisa subalternizável. Nesse aspecto são os senhores do mundo que revelam um fatal analfabetismo, que dá bem a imagem de uma sociedade que pode ter muitas coisas, mas há muito perdeu a alma.
Bem precisamos de quem nos alegre os olhos!

quinta-feira, 10 de março de 2016

A EUROPA NA ROMAGEM DOS AGRAVADOS...

Ao ouvir as afirmações e desmentidos do comissário Pierre Moscovici, sobre Portugal, percebemos bem as águas pantanosas em que navega a Comissão Europeia, hoje uma autêntica especialista na chantagem do medo sobre os países do sul (como eles gostam de dizer), a duplicidade dos ministros das Finanças, sempre comandados pela arrogância de Schauble. a postura de cócoras face aos poderosos, como se viu recentemente com o Reino Unido. Eles transformaram a política dos dois pesos e duas medidas na prática comum da União. E importam-se lá com as contradições, os desastres sociais, a incapacidade para responder ao problema dos refugiados. É tudo uma vergonha, que os beijinhos do sr. Junker não convencem...
Face à vergonha, só me lembro da fala de Mestre Gil na Romagem dos Agravados:
"Porque tais carreiras sigo
e com tal dita naci
nesta vida em que nam vivo
qu’eu cuido que estou comigo
eu ando fora de mi.
Quando falo estou calado
quando estou entonces ando
quando ando estou quedado
quando durmo estou acordado
quando acordo estou sonhando.
Quando chamo entam respondo
quando choro entonces rio
quando me queimo hei frio
quando me mostro m’escondo
quando espero desconfio.
Nam sei se sei o que digo
que cousa certa nam acerto
se fujo de meu perigo
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos
com que serão descansados
e eu ach’-os todos mudados
em outros mundos perdidos.
Já nam ouso de cuidar
nem posso estar sem cuidado
mato-me por me matar
onde estou nam posso estar
sem estar desesperado."  

quarta-feira, 9 de março de 2016

ADEUS CAVACO!

Ao longo de dez longos e pesados anos, gramámos a presença de uma Presidência da República de "apagada e vil tristeza", de vazio cultural que, não poucas vezes, envergonhou e feriu a pátria naquilo que são sentimentos comuns da nossa identificação como povo. Ao longo dos anos, Cavaco Silva foi indiferente à panóplia política de malfeitorias contra os portugueses, não havendo mais, nos últimos quatro anos e meio, linhas vermelhas de sofrimento colectivo, numa completa cedência aos interesses partidários do governo do PSD e CDS, de Passos & Portas. Não admira, pois, que a sua popularidade tenha descido a níveis nunca vistos num Presidente da República, em vigência da democracia.
O homenzinho vai-se embora e os portugueses respirarão melhor porque esta espécie de "salazar empalhado" deixa de ameaçar a pureza dos dias. Neste aceno de purificação quotidiana, trago aqui a lembrança do meu querido Zé Dalmeida, que foi durante os tempos sombrios um crítico implacável do cavaquismo, tendo eu, numa velha e fraterna cumplicidade (que se junta a muitos outros projectos) partilhado a expressão plástica do Zé, sempre de grande ironia, aquilo que foi também o meu persistente comentário crítico ao processo do Kavaquismo.
O país respira melhor!

segunda-feira, 7 de março de 2016

UM ABRAÇO DE GRATIDÃO AO ACERT

A VIAGEM DO ELEFANTE
UM ASPECTO DAS CONVERSAS NO ACERT

Para o Zé Rui Martins, que nunca desiste

Há coisas verdadeiramente fantásticas, nascidas com o tempo novo da democracia, que se construíram colectivamente fora da glória dos grandes centros e afirmaram a capacidade criadora do interior português, esse vastíssimo espaço de assimetrias e desigualdades que os poderes, que gostam de rebatizar as situações, anatemizaram com o eufemismo de territórios de baixa densidade. Talvez um dos casos mais fortes dessa força para romper atavismos ancestrais e edificar altos voos de sonhos de criação e utopias, seja o caso do ACERT - Trigo Limpo que, há 40 anos, nasceu em Tondela para materializar uma identidade funda com a comunidade, e, ao mesmo tempo, projectar a sua acção cultural à escala do país.
O inventário desses sonhos programados como um destino colectivo é hoje uma história riquíssima que enche de orgulho, certamente, os seus construtores, os seus fazedores, e também todos aqueles para quem a cultura é uma luz indispensável à vida. Sábado, subi a Tondela para dar um abraço de gratidão ao Acert e a essa vanguarda revolucionária (no sentido em que transforma as coisas...), que eu corporizo sempre no Zé Rui, e para lhes dizer que também eu sou tributário grato dessa longa viagem que, é certo, não foi tão longa como a do Elefante. Mas talvez a forma como o Acert inventou, do ponto de vista épico e dramático, A Viagem do Elefante, de José Saramago, que andou por Portugal e Espanha e certamente não chegou à Áustria por falta de apoio, mereça aqui um sublinhado para culminar a multifacetada obra cultural do ACERT e exemplificar a dinâmica social que gira à sua volta, mobilizando milhares de pessoas, como acontece também com as produções da Queima do Judas ou da Morte do Galo.
Mas no sábado fui ao coração do ACERT -- um equipamento verdadeiramente notável -- para participar no programa das comemorações dos seus 40 anos e moderar aquilo que eu chamei uma conversa vadia em que participavam, também, o Manuel Carvalho da Silva, a jovem presidente da Amnistia Internacional, Susana Gaspar, e Daniel Oliveira. Habituado a estas andanças, devo dizer que esta sessão, prolongada por quase três horas, foi um momento fascinante, pela qualidade das intervenções, pela empatia com o público, decerto, também, pela actualidade projectiva do tema central que visava a questão da participação na sociedade portuguesa.
Mergulhou-se na realidade, falou-se dos constrangimentos  da cidadania, das novas interacções geradas pelas mutações tecnológicas, da real realidade (a desvalorização do trabalho e a mercadorização de tudo e mais alguma coisa, os espaços de ruptura entre gerações, etc.), mas num diálogo sem laivos de auto-flagelação, que é uma espécie de arrogância dos portugueses, como explicou Daniel Oliveira.
Voltámos todos a reflectir sobre o que se passa à nossa volta: a rua está a deixar de ser um espaço público, a decadência da democracia e da política, o exercício da pedagogia para a derrota -- que tem sido prática recorrente da esquerda, a profundíssima crise da comunicação social.
A determinada altura, Carvalho da Silva sobre o comodismo e a apatia cívica: pensar dá muito trabalho. E acrescento eu: e é perigoso!
A Susana Gaspar sobre a participação, afirma não querer ser cúmplice da anemia cívica e do desinteresse, e coloca a intervenção política (na rua ou fora dela) como essencial à democracia, virtualizando também o papel da arte como respirar essencial da sociedade. E Carvalho da Silva, num aviso à navegação: não há pensamento único - o que há é pensamento dominante!
Foi este o fio de uma meada que se prolongou por cerca de três horas. Venham mais conversas. A Jornada, diziam os circunstantes, foi um bom início para pensar os quarenta anos. Vamos em frente. E apontem na agenda: 26 de Março, queima do Judas; e lá para Julho o Tom de Festa, que este ano promete muito. Até lá.