sábado, 2 de abril de 2016

RICOS E POBRES

Garrett fez a pergunta no século XIX – quantos pobres é preciso fazer para produzir um rico? -, mas a questão, por demasiado complexa, passou sempre por expressão indignada de um humanista que falava bem e escrevia melhor. A verdade, porém, é que à medida que o abismo das desigualdades se tornou doença fatal da nossa idade, a pergunta de Garrett continua a pairar sobre a sociedade, não apenas como indignada percepção social – mas como sintoma patológico de uma sociedade em que a pobreza se tornou endemia congénita do sistema, a que alguns, por conveniência ideológica, atribuem o grau de inescapável fatalidade.
Trata-se de realidade inquietante, sabemos todos, geradora de desesperos e angústias que podem convergir em múltiplas tensões sociais incontroláveis, como são sempre as que emergem dos condenados da Terra. A pobreza tornou-se fenómeno à escala global e é
 talvez nessa inquietação sobre o futuro imediato que se fundam os apelos iniciados no próprio coração do capitalismo, os EUA, quando, há anos, o segundo homem mais rico do mundo, Warren Buffett (“parem de mimar os super-ricos”, disse ele), veio dizer que os ricos deviam pagar mais impostos. Em França, outros disseram o mesmo: era preciso comparticipar mais na batalha contra a crise.
Em Portugal, a sugestão caiu em saco roto, e logo vieram alguns solícitos descodificadores da realidade a carpir para deixarem em paz os nossos ricos. E, quando o actual governo anunciou que ia aumentar os impostos sobre os príncipes financeiros, logo ecoaram os choros solidários sobre os coitadinhos dos grandes milionários. Não perceberam os inteligentes analistas que, sobretudo no caso português, se trata de uma questão de equidade. Com a classe média exangue e o assalto continuado aos rendimentos do trabalho, ao contrário da benevolência fiscal para os rendimentos dos super-ricos, incluindo a especulação financeira, repartir os sacrifícios por todos (e não apenas só por alguns) é da ordem moral.
Curiosamente, sabe-se que os vinte maiores grupos económicos portugueses têm 74 sedes em países europeus com menor carga fiscal e em paraísos fiscais. Quer dizer, fogem patrioticamente aos impostos... Não se exige, como Acácio Barreiros pedia na Assembleia, nos tempos inflamados do PREC, que os ricos paguem a crise. Mas que, já agora, paguem qualquer coisinha. Como dizia o Vasco Santana – ou comem todos ou há moralidade...

quarta-feira, 30 de março de 2016

LIBERDADE, LIBERDADE!

Não sei porquê, ou talvez saiba, quando ouvi a notícia da pesada condenação a que foram sujeitos Luaty Beirão e os 16 activistas políticos, fez-me lembrar os tempos sombrios vividos em Portugal, antes do 25 de Abril, quando a liberdade era proibida e pensar um delito gravíssimo que o Estado Anti-Direito reprimia sem contemplações. O exercício do direito de manifestação, hoje uma coisa tão banal, era severamente reprimido, e, quando as reivindicações elementares de vida digna assumiam dimensão colectiva, que incomodava ou fazia tremer o regime, então era fatal o surgimento das notas oficiosas a verberar o carácter subversivo das acções cívicas e a retórica do insulto considerando os insubmissos perigosos sujeitos que atentavam contra a segurança do Estado.
Foi isso que me ocorreu quando li que os cidadãos angolanos eram "malfeitores", envolvidos em "actos preparatórios de rebelião e associação de malfeitores". E, então, lembrei os tempos em que os patriotas angolanos lutavam, cá dentro e lá fora, em Angola também, por uma exigência elementar de dignidade, por uma batalha sem fim pela liberdade. Ora, agora em Angola, como antes de Abril, em Portugal, o que havia de comum era, de facto, esse desejo desmesurado de liberdade e da possibilidade de viver de cabeça levantada, na exigência plena de realização humana.
Penso nisso, agora, outra vez, enquanto leio a crónica de uma condenação anunciada, em Angola. E de muitas maneiras e mais uma, é ao poema de Paul Eluard que os meus pensamentos vão dar, pois nenhum canto é tão belo como esse em louvor da Liberdade. O crime dos dezassete activistas angolanos foi apenas terem escrito no quotidiano da pátria angolana a palavra liberdade.

terça-feira, 29 de março de 2016

NOTÍCIA DO PAÍS NORMAL

Faço minhas as palavras de Eduardo Pitta, trancrevendo-as, com a devida vénia, do seu Blogue "Da Literatura":
"O Presidente da República promulgou hoje o OE 2016. Falando ao país por volta das cinco da tarde, Marcelo disse, em síntese: «Os portugueses precisam de saber aquilo com que contam. Depois de ter lido o Orçamento, não encontrei dúvida que justificasse pedir a fiscalização junto do Tribunal Constitucional. Este documento resulta da convergência da maioria da Assembleia da República e das instituições europeias, que o aceitaram. O Orçamento abre uma nova fase da vida nacional, porque os países não podem viver permanentemente em campanha eleitoral. É preciso viver em estabilidade» Após cinco anos de akrasia, regressa a normalidade democrática".
Acrescento eu, apenas: Mas há por aí muito boa gente, com ideias em estado de guerra, amargurada pela normalidade democrática. Habituados a uma funcionalidade partidária (não é verdade Passos Coelho?) e ao apoio acéfalo do anterior inquilino de Belém, não disfarçam a azia e andam por aí a remoer cobras e lagartos de Marcelo.

segunda-feira, 28 de março de 2016

BRASIL, BRASIL!

O BRASIL DE PORTINARI
Era num dos telejornais e a crónica alargou-se por largo tempo para contar as tropelias de 200 pessoas (dizia a repórter), na Avenida Paulista. Eu ouvi, de novo, e acrescentei para mim que eram duas centenas de arruaceiros, a queimarem as efígies de Dilma e de Lula, numa expressão fascizante de intolerância e de boçalidade, de analfabetismo puro, de apelo à violência gratuita, saudosos porventura dos musculados militares da ditadura militar, que pôs o Brasil a ferro e fogo. Há muitos apelos de regresso ao passado, numa comunicação orquestrada que alimenta a direita e a extrema-direita. Fazer notícia de uma manifestação de 200 pessoas em S. Paulo, diz tudo sobre o jogo de mistificação que por aí vai e que se transforma num espectáculo deplorável. Se há corrupção, investigue-se e julgue-se, mas não se passe o tempo a jogar pedradas no charco, nem se promova a indignidade ou ou se transforme a justiça num acto mixordeiro de arremesso.
O Brasil, que evoca em mim tantas imagens boas, olho sempre para ele como a pátria de Portinari ou Villa-Lobos, de João Cabral ou Erico Veríssimo, dos poetas enormes como Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade, o Brasil de uma cultura tão poderosa e original que se faz música com Vinicius, com Chico Buarque ("bonita festa, pá!"), com Gilberto Gil ou Caetano Veloso, com a Ellis Regina a embalar-nos nas "águas de Março" ou a Maria Bethânia, com a sua voz tão quente e original a semear amor. É esse Brasil, o Brasil da liberdade, o Brasil que faz milagres na Língua portuguesa, que eu amo e não dispenso como aventura criadora de dimensão universal.
E agora? Ontem, no "Público", Alexandra Lucas Coelho publicou uma crónica admirável, com o sugestivo título "O que Portugal tem a ver com o Brasil",  em que contextualiza a história do Brasil, nos 322 anos de ocupação portuguesa e nos 194 de independência. A determinada altura do texto, lembra Alexandra Lucas Coelho: "A violência sistémica brasileira tem raízes nas duas violências fundadoras da colonização portuguesa, extermínio indígena e escravatura africana. Os portugueses não inventaram a escravatura, mas inauguraram o tráfico em grande escala. Dos 12 milhões de indivíduos que as potências europeias deportaram de África até ao século XVIII, 5,8 milhões foram traficados por Portugal. Isto significa 47 por cento, ou seja, quase metade do tráfego foi assegurado por Portugal, e a grande maioria destinava-se a sustentar a sustentar a colonização do Brasil (...)".
Talvez aí radiquem muitas das questões por que o tempo fica lento para poder transformá-las.
Só podemos desejar é que no Brasil, à dimensão da sua continentalidade, onde houve, de facto, redistribuição da riqueza, saída de 18 milhões da pobreza, um combate decisivo, embora ténue, contra as desigualdades, não se verifique um retrocesso social, um regresso ao passado, àquele passado em que o homem é a medida de coisa nenhuma.
Agora, vou ouvir a música e a poesia do Chico Buarque, para ouvir os sons do Brasil que eu amo.

domingo, 27 de março de 2016

Sinais

Sinais

Foi talvez a crónica da semana, mais uma magistral do meu querido Fernando Alves, com a sua música das palavras, que é sempre capaz de revelar, como o poeta, aquele espanto que é a sua realidade de todos os dias. É sobre os trágicos acontecimentos de Bruxelas: "Tin Tin chora na primeira página". Fica-me no ouvido o recado do cronista: Não tenhas medo.

FAZER OU ASSISTIR À HISTÓRIA?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Um personagem do texto dramático de José Cardoso Pires, O Render dos Heróis, diz, a certa altura, qualquer coisa como isto: "Vê? Lá está o senhor convencido de que faz História. A História faz-se em Lisboa, senhor oficial. Gente como nós assiste a ela e já não é mau!"
A temporalidade da acção decorre no século XIX e a escrita de Cardoso Pires está datada: Dezembro de 1960. Mas lida hoje e aqui, percebemos como a persistência temporal de uma realidade castradora da plenitude cívica é, na sociedade portuguesa, uma questão cultural que se prende à própria reinvenção do futuro. É hoje um lugar-comum que os homens são menos produto da História do que os seus próprios produtores. E o que contém de exaltante desafio à participação crítica, numa acção determinada como sujeitos activos da realidade social, motivadora de fecundas inquietações e perplexidades, é responsabilidade histórica de cada um e de nós todos, que não admite, sequer, a doce ilusão dos adiamentos póstumos, abençoados sempre pela desculpabilizante estratégia política do esquecimento.
No fundo, o que está em causa é tão só saber se, enquanto povo de uma região à margem -- e marginalizada --, recuperámos o direito à palavra e à fala, enquanto gestos de um processo de desenvolvimento verdadeiramente libertador. E se, em tal circunstância, o nosso falar (através das estruturas políticas institucionalizadas ou no quadro do que se convencionou chamar a expressão da sociedade civil) é audível, mais longe do que a nossa própria voz, isto é, se logramos ter eco junto dos decisores políticos das precárias angústias expressas colectivamente.
Basta citar os eufemismos de linguagem para esconder a realidade (já se chamou interioridade, já se crismou de desertificação, já se baptizou (e é o último artifício verbal: territórios de baixa densidade), mas se nos fatais "arcos de governação" alguma coisa mudou, foi para tudo ficar na mesma - ou pior!
A tudo isso acresce a irracionalidade feita com letra de lei das comunidades urbanas, uma forma absurda de cindir o território, criar divisões e bairrismos, dividir o mal pelas aldeias.
Quem assistiu a tudo isso, não pode olhar para a recente criação da Missão para o Interior, com alguma desconfiança, a desconfiança que o Prof. Pedro Guedes recentemente defendeu num texto do JF, face a um contexto longo de oportunidades falhadas nas questões do desenvolvimento. Eu, por mim, em milhares de páginas, andei a defender a necessidade e urgência de uma cultura de região, capaz de pensar a realidade acima dos interesses meramente conjunturais dos votos ou dos feudos de arcaicos barões da política.
Mas já percebi que, para isso, era fundamental que as instituições essenciais, como a Universidade e os Municípios, estivessem presentes -- e não ausentes da realidade. Seremos capazes de esbater a feira das vaidades?
É que, só assim, poderíamos fazer alguma coisa mais do que sermos meros assistentes da História, como dizia o personagem de José Cardoso Pires.