sábado, 9 de abril de 2016

SALGUEIRO MAIA E A PUREZA INICIAL

Uma das exigências que se colocam a um Presidente da República é saber interpretar o sentir colectivo do povo e, fazendo-o, honrar o compromisso com as razões profundas da pátria, naquilo que são os seus grandes momentos da História. Tiro o chapéu ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa que já decidiu ir comemorar o 25 de Abril a Santarém. Quem o diz é O Ribatejo, actualmente o meu jornal, e não deixo de pensar de quanto o que poderia ser apenas uma mera decisão de rotina presidencial, se transforma num acontecimento relevante para a sociedade portuguesa, que marca bem a prática diferenciadora entre a magistratura de Marcelo e a do seu antecessor, o cinzento e medíocre Cavaco.
Santarém, neste caso, não é uma uma coincidência geográfica ou um simples capricho para assinalar "o dia inicial inteiro e limpo" (Sophia), é muito mais: é a afirmação de um tributo de gratidão a Salgueiro Maio, ele, que assumindo-se como anti-herói, foi afinal o rosto central de uma revolução que devolveu a liberdade a Portugal.
Na circunstância de Santarém e de Salgueiro Maia, que é uma realidade comum, avulta uma certa maneira de recuperar justiça perdida, se é possível isso acontecer. É que não esqueço (quem pode esquecer?) a afronta que Cavaco Silva fez, como primeiro-ministro, ao capitão de Abril, negando-lhe uma pensão quando o nosso herói se encontrava já gravemente doente, preferindo dá-la a sinistros torcionários da PIDE. Tive oportunidade de conhecer Salgueiro Maia e parece que nunca vi ninguém tão despido de interesse em bens materiais, sempre na sua humilde condição de soldado que encarava a pátria e o direito à felicidade dos portugueses como equação fundamental da sua vida. Estou a vê-lo, com aquela serenidade nele tão natural que ficou para sempre nas imagens da vitória de Abril no Largo do Carmo, estou a vê-lo com aquele sentido de coragem que nele parecia ser um desígnio de deuses, estou a vê-lo com aquela postura cívica que nele não era outra coisa senão o desejo de afirmar a comum humanidade, que é a grande aventura de um povo. Estou a vê-lo a contar-me a sua entrada no quartel do Carmo para negociar a rendição do ditador Marcelo, numa narrativa em que ele se coloca sempre apenas como mais um do MFA, e eu quase me comovo com a lembrança do seu sorriso de bondade.
O facto do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa decidir ir a Santarém homenagear Salgueiro Maia (dizem-me que já contactou a viúva do capitão de Abril, Natércia Maia), será um gesto em que os portugueses se revêem e um acto de dignidade, direi até, uma lição eticamente irrepreensível ao anterior inquilino de Belém que nunca escondeu incomodidades quando ouvia falar em 25 de Abril ou em cravos vermelhos!
Vale a pena lembrar Salgueiro Maio em Abril. Lembrá-lo com poesia, neste caso de Manuel Alegre:

"Salgueiro Maia

Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.
Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.
Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade".

quinta-feira, 7 de abril de 2016

LEMBRANÇA DE VASCO SILVA

É na fundura da memória que encontramos as reservas essenciais que dão sentido à vida, pois é no registo das coisas boas e más que graduam os acontecimentos, e guardamos no mais íntimo de nós, que encontramos porventura o retrato da aventura cósmica com que nos vamos confrontando, ao longo dos dias. Memória e memórias, fragmentos de vida que assaltam o nosso pensamento e se configuram em múltiplas geografias sentimentais, imagens de afectos cuja nitidez o pó do tempo não dilui. Outra vez em Castelo Branco nas minhas navegações por ruas e praças, pelos detalhes que são, às vezes, a alma mater das paisagens que dá cor aos dias.
Então, caminhava com aquela ideia tão certeira de Machado que ensina que "el camino se hace andando" e dei comigo no Largo da Sé, com uma luz magnífica de sol primaveril, que poisava nas coisas para as fazer brilhar, ou, até, criando as sombras de contraste, como se quisesse sublinhar a particularidade dos instantes ou produzir linhas de fronteiras imaginárias. O Largo: lá está a estátua de Vaz Preto, senhor todo poderoso e par do reino, hierático e rígido na sua postura monumental. Mas a atenção logo se desviou para o edifício do Conservatório, ali bem perto da imponência da Sé, de onde, por uma janela saíam bonitas sonoridades de música de algum aluno aplicado. E daqui o olhar fixou-se numa imensa saudade na casa onde morou o Dr. Vasco Silva, que foi meu Mestre de tudo: de vida, de política, de cultura, de cidadania. Era o primeiro andar e as janelas, resguardadas por grossos portais de madeira, estavam sempre meio entreabertas, como as vejo agora. O Vasco amava a luz natural, aquela luz doce que ilumina os fins de tarde e é sempre um breve sopro de esperança.
Não sei quantas vezes, ai quantas! -- mas foram seguramente centenas -- eu subi aquelas escadas do n.º 6 da Rua das Olarias. À austeridade do Vasco, abria-se logo o sorriso de D. Lurdes Geirinhas, sempre uma mulher lindíssima, que inventava connosco, comigo e com a Madalena, a alegria com carácter de urgência, que era esse o reduto onde se situava toda a convivialidade. Sempre me senti naquele espaço, como se estivesse em casa, com aquelas vivências de afectos e proximidades que tornam singulares as relações de verdadeira amizade. Ainda por cima, D. Lurdes era uma cozinheira de mão cheia, lembro-me sempre do arroz de pato que era melhor do que o do "Gambrinus"!, e depois o dr. Vasco coleccionava vinhos excepcionais, que gostava de partilhar com os outros para aveludar o fio da conversa ou tornar mais vivo o prosear.
Passei muitas horas naquela sala enorme, a tal das janelas e dos portais, que era um espaço fantástico, todo forrado de livros, onde sobressaía uma enorme reprodução da "Guernica", de Picasso. A biblioteca era notável, encontrávamos lá preciosidades, que democraticamente frequentávamos para a leitura vagarosa. Quando eu fazia anos, o dr. Vasco oferecia-me sempre um desses livros mais raros e ainda no outro dia folheei o "Dicionário Crítico" do António José Saraiva, que foi obra proibidíssima, ou uma edição muito rara do poeta Afonso Duarte, que guardo como coisas do coração.
A partir de uma certa altura, o dr. Vasco Silva aprofundou muitíssimo o seu interesse pela música clássica, enviavam-lhe da América e de países europeus (tinha amigos por todo o lado...), as melhores edições da Deutsche Gramaphone e as novidades mundiais acabadinhas de sair. Comodamente instalados, com auscultadores, fechávamos os olhos e navegámos por esses continentes absolutamente surpreendentes.
Também à mesa do café, no Arcádia ou na Belard, se juntava uma roda de amigos, gente jovem, que partilhava a mesa como uma honra, na esperança de ouvir os seus comentários sobre a realidade. Mas aí, o Vasco não era de muitas conversas: munido dos seus livros, que gostava de sublinhar, assumia a leitura como um momento de silêncio. Às vezes, numa pausa, abria-se à conversa e até exprimia inteligente ironia sobre acontecimentos, o que nos fazia sorrir. Tinha uma longa cultura clássica, dominava a ficção e a poesia, mas do que ele gostava mesmo era do ensaio. Lembro-me de ele me mostrar páginas.
-- Veja a densidade de conhecimento que está contido numa página! -- dizia-me ele, para acrescentar que era este esforço exigido ao leitor que fazia da leitura uma grande aventura.
Passo à beira do n.º 6 da Rua das Olarias, mas desta vez não toco ao batente. Por momentos, penso com saudade no Vasco e na Lurdes e um arrepio me percorre, inteiro. Como foi possível que o fascismo, o tal manso fascismo (manso para os outros, claro), tenha infernizado a vida a pessoas tão boas, eles eram, de facto, os melhores de nós, se é possível falar assim. O Vasco preso, o Vasco expulso do ensino, a D. Lurdes também, e ambos a viverem penosamente de explicações, sempre sobre os holofotes da vigilância da PIDE. Estou a vê-lo, uma vez mais, sempre de casaco preto depois da morte súbita do Luís, o filho, considerado por todos o jovem mais promissor da sua geração.
Olho outra vez para a casa, para as janelas e para as portadas, imagino ainda a sala cheia de livros e de música dos grandes compositores, faço um aceno de saudade e penso, agora que estamos em Abril, no mundo que nós perdemos quando eles nos deixaram.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

UMA RAPARIGA À JANELA

PINTURA DE PAULO OSSIÃO
Andei um dia destes, banhado de sol e céu azul, a passear por Castelo Branco, pelo seu universo urbano carregado de modernidade, mas quando passei pelo prédio meio arruinado onde funcionou a Assembleia, uma colectividade cultural onde, antes de Abril, colocámos tantos sonhos da juventude, quase que uma lágrima furtiva saiu do meu olhar. Era aquele um lugar de cultura que, na sua acção de liberdade vigiada, tentava sacudir a letargia cívica do meio. Fizeram-se coisas exaltantes, colóquios meio clandestinos, tertúlias onde se ouvia música (uma vez até lá foi o José Duarte dos cinco minutos de Jazz, pela mão do Luís Pio, que era melómano  e gostava de partilhar connosco a sua música), ou se produziam tertúlias onde se falava de tudo em liberdade livre.
Passei por lá, olhei o prédio de janelas e portas emparedadas, pressenti como a patine do tempo o roeu por dentro e uma súbita tristeza me assaltou, como se estivesse ali uma certa ruína dos sonhos dos vinte anos, quando sonhar era o grande programa dos dias.
Detive-me mais tempo na Praça da Devesa e olhei para uma certa sobriedade urbana, casas onde às vezes ressalta a força do granito ou a beleza das mansardas, o que faz da praça uma belíssima singularidade na sua dimensão citadina. Os olhos viajaram depois para outras memórias, de outro prédio, perto do da Assembleia, o da Farmácia Grave. Como num filme, poiso nos prazeres da memória, e sorriu. Havia uma janela, que emoldurava todo o tempo da província de então, um tempo vagaroso em que o tédio era sacudido por sobressaltos do coração. Havia essa janela, que debruava a imagem de uma rapariga lindíssima, cuja alegria de viver (pensávamos nós) era uma equação ao fluir da vida que escorria pela praça, pessoas, jovens, tudo aquilo que uma praça digna desse nome deve conter como expressão da diversidade humana. A rapariga da janela foi-se tornando um ícone. 
Por essa altura (anos 70: há quanto tempo, caramba!) eu estava na tropa, no BC6, sofrendo a chateza da rotineira vida militar. Uma vez por semana, a companhia passava à porta da doce e reservada menina que estava à janela, às vezes com o seu cabelo ao vento. Passávamos cadenciados, ao som dos tambores e das cornetas, a caminho da carreira de tiro, lá para os lados do Montalvão, onde os recrutas iam aprender a disparar. Os olhos, que são vadios, logo passaram a fixar o quadro vivo da janela, como espécie de luz na aridez da marcha militar. Penso que a Companhia inteira entrava em contido sobressalto.
Penso que fui eu e o Vasques que definimos uma estratégia que fosse alegre divertimento para o instante inolvidável da passagem à beira da rapariga à janela. Combinámos nós os milicianos que, sempre que passássemos por ali, à ida ou no regresso, se impunha algum espectáculo breve de parada. E aí estávamos todos (o Cortezão, o Mingote, o Neves, o Valente e quantos mais, com os nossos irmãos furriéis à mistura) a concretizar o plano de um cumprimento especial e solene à rapariga da janela. E era fácil: cada um de nós, quando cada pelotão passava mesmo por de baixo da janela emoldurada pelo rosto da menina, mandávamos os soldados olhar para o outro lado, enquanto se batia o tacão e fazíamos continência em direcção à janela, como se fosse uma tribuna onde estivesse porventura o mais importante dos generais. Só quando cada um se distanciava, os recrutas passavam a olhar em frente, e, sucessivamente, o episódio repetia-se até ao último dos grupos. Com as botas a bater na calçada, era a homenagem possível a um rosto de rapariga que iluminava os tristes dias da militança.
Olho para a janela, mas só lá está a moldura. O retrato foi dissolvido pelo tempo. Voltei a fixar-me lá e pensei que, uns anos depois, todos podíamos ter lá ido cantar aquela canção das terras alentejanas que fala numa menina à janela:

"Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela"

Todos, afinal, levámos prendas dela: a sua vigilante presença era um aceno de alegria que cada um colhia à sua maneira. E, agora que passei mesmo por de baixo da janela, pareceu-me vê-la lá como imagem fugaz e passageira. E tive a sensação que captava outra vez a imagem do seu sorriso sóbrio e lindíssimo, quando aquela janela parecia o centro do mundo.

terça-feira, 5 de abril de 2016

CRIME É CRIME

Francisco Louçã, respondendo a João Miguel Tavares, no "Público", acaba por sublinhar aspectos muito importantes do que é uma certa crónica judiciária, de que os jornais e muitos jornalistas se tornaram arautos, funcionando um pouco como tribunal de conveniência para os assuntos da corrupção. No artigo de Louçã, clarifica-se esta problemática, que tem posto por aí as ideias em estado de sítio, quando, na parte final, afirma: "Portanto, se Tavares deixasse de lado os ódios pessoais que tão mal o colocam, seria um tudo nada mais sensato e discutiria política, banca e outras malfeitorias sem ter que gritar contra toda a gente de que não gosta que “é corrupto”. Ora, não há “corrupção de esquerda e corrupção de direita”, porque crime é crime. Até lhe digo mais, caro Tavares, para o aliviar da sua angústia: eu só ponho as mãos no fogo por pessoas que conheço muito bem. O que conheço do PT, ao contrário, é o Mensalão, que condeno, ou a compra de favores, que detesto, e espero que todos os responsáveis respondam perante a justiça. Mas é perante a justiça, entende, Tavares? Não é perante juiz que faz parte do partido oposto, ou perante sentença transitada em julgado nos editoriais do Globo, porque isso seria o mesmo que entregar a presidência do nosso Supremo Tribunal de Justiça a um Octávio Ribeiro. E para isso não conta comigo".
Mas antes, talvez valha a pena oferecer aos Leitores, a maneira como Louçã desmistifica as inquietações de Tavares. Leiam: "A João Miguel Tavares falta ser original, mas resolveu juntar-se a um coro de indignados que me invectiva (e a outros) por não bramar pela destituição de Dilma Roussef. Cheio de fofuras, ele quer ter um poster da Mariana à porta do quarto, ele leu os meus livros, ele adora tudo, mas agora indignou-se porque acha que eu acho que “afinal, existe uma corrupção de direita e uma corrupção de esquerda”. O argumento é tão tristonho que não precisaria de resposta, não fora ser sinal reincidente de uma direita que mostra que entende a democracia de modo instrumental".
E explica Francisco Louçã: "Há aqui três discussões. A primeira é a do populismo: a presidente não é acusada de qualquer crime, não importa, bota fora. Um juiz viola a lei, mas ele tem uma missão superior. Um presidente no Brasil só pode ser demitido se se provar que cometeu pessoalmente um crime previsto no artigo 85º da Constituição e na Lei 1.079/1950, mas não cuide disso, bota fora. O argumento é este: se há fumo é porque há fogo, bota fora. É o desvario do populismo: basta um juiz falar para a condenação estar feita, mesmo sem acusação nem julgamento. Esqueceu-se do Direito, caro Tavares? A segunda é a da política. Os juízes angelicais que descem com a espada de fogo para aniquilarem o mal seriam belos, se fossem legais. Ora, não havendo processo jurídico que fundamente a demissão, tudo é política. E suja: a queixa do PSDB, o partido de direita que iniciou o processo (e que perdeu as eleições) baseia-se no parecer do conselheiro do Tribunal de Contas, João Nardes, um ex-deputado do Partido Progressista, que aliás chegou a ser aliado do PT e agora faz parte da frente derrubista, em que acusa a presidente de má gestão orçamental em 2014, ou seja, no mandato anterior. Ora, Nardes é bem conhecido da justiça, dado que foi registado pela “Operação Zelotes”, que investiga a venda de perdões fiscais, tendo sido descoberta uma sua empresa que terá recebido dois milhões de reais para reduzir o pagamento de impostos do Grupo RBS. Para acrescentar um pouco do colorido, o ex-presidente do PP, Pedro Correa, testemunha que Nardes recebia regularmente luvas e indica os valores. É mesmo nisto que se quer meter, caro Tavares? Eduardo Cunha, o presidente do parlamento, que conduz o impeachment, recebeu mais de 52 milhões de reais da Petrobrás e as suas contas na Suíça já foram identificadas. A maioria dos deputados que julgam a presidente (352 dos 594 deputados) tem um acusação por suspeitas de corrupção ou outros crimes – Dilma não tem. A demissão, que ocorrerá dentro de três semanas, é por isso a corrida do deputado aflito para se safar. É isto que quer, caro Tavares? A terceira é a da luta contra a corrupção.
Não sei se Tavares conseguirá convencer alguém de que gritar pelo bota-fora é a atitude digna. Ele procura aliás seduzir-me, queixando-se de que tínhamos “uma plataforma mínima de entendimento e que poderíamos encontrar-nos na rua e concordar sobre Ricardo Salgado, José Sócrates ou Lula da Silva” – todos ladrões. O problema é que não concordamos, caro Tavares. Salgado, que eu saiba, não foi acusado de roubar, veremos o que diz o processo. Sócrates não tem acusação e vai para ano e meio; aquelas coisas no Correio da Manhã não se qualificam para o efeito. E Lula não foi acusado".

SINAIS DE SÓRDIDOS NEGÓCIOS

Ia para fazer uma nota indignada sobre os papers do Panamá, retrato implacável do mundo de negócios sórdidos, das ligações de políticos de topo na cena internacional, das negociatas sujas para fugir a impostos, da ganância de um capitalismo amoral e sem fronteiras, quando ouvi a belíssima crónica do Fernando Alves, mais um sinal luminoso dos seus Sinais. Esta, que aqui deixo, oiçam-na como caricatura de um tempo ou talvez como sinal da doença letal que arrasta pela "espuma dos dias". Oiçam s.f.f.

Sinais


segunda-feira, 4 de abril de 2016

EM LOUVOR DO CORAÇÃO

Mexer em papéis velhos, procurar uma ordem para o caos de uma biblioteca (olha este livro! E este outro! E aquele poema perdido na bruma!) é um excelente exercício de memória que, por vezes, nos reconcilia com o tempo. Ando nestas  navegações há algum tempo e todos os dias parece que aprendo um pouco mais de mim próprio. É nestas alturas porventura que temos consciência das palavras certeiras de Borges na sua definição de Biblioteca como mundo. E esse mundo é próximo e remoto, e, ao mesmo tempo, feito da matéria de sonhos do futuro. Às vezes, fico com uma sincera pena de mim mesmo pela percepção real da finitude do tempo e de todas as coisas que não terei tempo de ler ou reler, da música, grande companheira a haver, das emoções suscitadas pelas "vozes do silêncio", como dizia Malraux da pintura. Caminhava eu, pois, por este mundo, quando veio parar às minhas mãos um álbum antigo do Zé Dalmeida (esse mesmo, que tem presença habitual como ilustrador deste Blogue), em que com fina ironia trata do coração, com uma plasticidade à altura mítica da poesia do músculo. Esse Coração de Cartoon, que eu já não via há anos, fez-me sorrir, que é coisa recomendada pela cardiologia, porque também eu, entretanto, já o remendara, há dois anos, pelas mãos fabulosas do Prof. Manuel Antunes e da sua equipa. Agora, folheio os cartoons, um a um, sorrio, e não deixo de pensar no "empenho do coração" que eu e o Zé colocámos sempre nas variadíssimas cumplicidades e sonhos criativos que já materializámos.  Sorrir pode ser, de facto, caro Zé, a melhor receita para não morrermos de "coração inacabado".

domingo, 3 de abril de 2016

UMA CEREJEIRA EM FLOR É QUANTO BASTA

Num dia de intermitências, com sol e chuva, às vezes o ventinho frio que sopra da Estrela, dei comigo a observar que o cinzentismo da tarde seria sempre superado pela afirmação da Primavera visível nos pequenos rebentos das tílias na Avenida da Liberdade ou nas cerejeiras em flor que começam a despontar. E já se sabe, virá o sol e depois o mar branco de flores desdobra-se em tapetes pela encosta da Gardunha e pelos campos da Cova da Beira. Então, olho para a árvore, já vestida de branco, e, como acontece sempre, sobreponho à imagem os belos versos de Eugénio deAndrade escritos em 1948, em As Mãos e os Frutos, e fico reconfortado com o dia:

"Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja."