quinta-feira, 14 de abril de 2016

CRIMINOSO É DEIXAR TUDO NA MESMA!

O "Público" publica hoje um interessante artigo, assinado por Andreia Sanches, que nos ajuda muito a perceber o país que somos e de como esta pátria de gente magoada e paciente está doente de desigualdades e injustiças.
A equidade e a materialização de direitos elementares, feridas  brutalmente pelas políticas neoliberais, que a Europa abençoou e colocou no altar do capitalismo selvagem, deixaram por aí um traço de pobreza, e, sobretudo, ampliaram outra vez o abismo das desigualdades, a partir do berço.
É certo que nestes tempos abomináveis muitas vozes se levantaram a dizer que as crianças ("e logo as crianças, Senhor!") eram as primeiras vítimas, o que de resto não incomodou por aí além os servidores da Troika, a sociedade Passos & Portas, lembram-se?, que nem sequer choraram lágrimas de crocodilo porque as tinham gasto em propaganda ou em exercícios retóricos de circunstância.
Hoje, o "Público" titula a toda a página: "Crianças mais pobres têm 40% do rendimento de uma "criança média". E, na forte manchete da primeira página, apontava o drama: "Portugal é um dos países onde o rendimento das crianças é mais desigual".
O estudo, que tem chancela da Unicef, sublinha que "Portugal sai-se melhor nos indicadores de saúde e pior na distribuição do rendimento", que é o barómetro onde se cruzam a equidade e o sucesso das políticas socialmente inclusivas. O estudo analisa quatro áreas: rendimento disponível nas famílias; desempenho escolar; problemas de saúde percepcionados pelos jovens; e satisfação com a vida.
As disparidades são evidentes. "Na Noruega, o rendimento de uma criança de uma família pobre é 37% inferior ao de uma "criança média"; em Portugal, é 60, 17% inferior". O que dá este resultado: "Somos o 33.º mais desigual em 41, para os quais há dados disponíveis sobre rendimentos das famílias com crianças". Outro dado interessante é o que indica que "Portugal é também dos países onde as transferências sociais -- subsídios, abonos, etc. -- menos atenuam a desigualdade  de distribuição de rendimentos".
São estas radiografias que deviam obrigar todos a ter consciência de um problema que é altamente condicionante da sociedade. E que, com determinação colectiva, convocassem as capacidades humanas existentes para o desafio de transformar a realidade. Criminoso, é deixar tudo na mesma!

terça-feira, 12 de abril de 2016

A NEVE BRANCA DAS CEREJEIRAS

Só quem não sabe a terra que pisa se pode admirar deste Abril de águas mil, do friozinho nocturno, das intermitências de chuva, e, também, das abertas de sol que logo põem um frémito de esperança na aspereza do tempo. A neve branca das cerejeiras, como eu costumo chamar, às flores brancas que povoam agora a Gardunha e os campos da Cova da Beira. A semana passada andei por esse território de fantasia, assim podemos dizer, e mais uma vez aquele sentimento de deslumbramento me encheu os olhos. É decerto uma coisa estupenda poder caminhar pelos pomares, rodeado de milhares de flores brancas, descobrir pequenos detalhes na paisagem, tentar arquivar na memória, tanto quanto for possível, esse sortilégio, como coisa pessoal e intransmissível.
A mancha branca, que domina a Gardunha, apesar da chuva insistente, resiste. Todos os dias para lá olho e fico feliz por elas resistirem. Penso, aliás, que o cartaz atravessa também as quatro estações. Vemos as flores e estamos já a sonhar com as cerejas vermelhas e depois porventura com o Outono na Serra que é outra imagem mágica.
Poucas árvores têm tanta presença na cultura. Desde O Cerejal, de Tchekov, àquela mítica canção da Comuna com que Yves Montand nos fazia bater mais depressa o coração, "Le Temps des Cerises", até à poesia em que a cereja se transforma abundantemente em metáfora de amor. É essa dimensão que se encontra nas 270 páginas da belíssima antologia organizada por Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes, que tem um prefácio de Eduardo Lourenço e um posfácio de António Ramos Rosa, e se chama CEREJAS - Poemas de Amor de autores portugueses contemporâneos.
Dos poemas (há um curioso de E. M. de Melo e Castro que diz: "na minha poesia/não há cerejas/prefiro comê-las"), deixo uns versos de Pedro Tamen. É um longo poema, dedicado a Sophia, e o seu início é arte poética no seu melhor:

"Haver no fundo um templo ou uma casa
é ter consigo, amante, uma cereja aberta
onde é madeira ao centro e solução
do suco rosa e negro  onde se abrasa
e torna leve e limpo, e mal desperta
se torna coração"
...



domingo, 10 de abril de 2016

O MINISTRO POETA

A nomeação do embaixador Luís Filipe Castro Mendes para ministro da Cultura, depois da demissão de João Soares, é uma excelente notícia. Luís Filipe Castro Mendes é um diplomata de reconhecido mérito (que chefiou postos em Budapeste, Nova Deli e Estrasburgo), mas é, também, um homem de cultura, com uma obra importante na moderna poesia portuguesa. Só faz bem a Portugal que o ministro da Cultura da República seja um poeta inspirado e um cidadão a quem o rumor do mundo não é indiferente, com conhecimento profundo dos labirintos da actualidade internacional.
Eu, que gosto de mergulhar na sua arte poética, fico feliz por saber que no Palácio da Ajuda vai ficar uma personalidade com a riqueza cultural e o prestígio de Luís Filipe Castro Mendes. Acresce que o novo ministro nasceu em Idanha-a-Nova (o pai era juiz) e a essa relação com as terras da Idanha tem-se fortificado, muito pela acção da querida Fernanda Gabriel, que tendo em Monsanto uma "pátria" e uma âncora às terras da Beira, projecta essa realidade numa afectividade a que ninguém consegue ser indiferente. Foi nessa convergência de amizade que Luís Filipe Castro Mendes já ofereceu parte da sua Biblioteca à Idanha, um gesto que deve ser destacado.
O "Público", assinalava sobre Castro Mendes que "a sua formação universitária é Direito, mas os ambientes em que se integrou, ainda enquanto estudante, foram os literários" e que "começou a publicar ainda muito cedo, adolescente, no suplemento juvenil do "Diário de Lisboa",  A sua estreia em livro foi em 1983, com Recados, publicado na Imprensa Nacional, numa colecção de jovens poetas, criada por Vasco Graça Moura. No ano seguinte publicou a obra de ficção Areias Escuras, à qual sucedeu Seis Elegias e Outros Poemas, que mereceu o Prémio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Publicou ainda Ilha dos Mortos (1991), mas a sua plena afirmação enquanto poeta, diz o "Público", deu-se dez anos depois, com um livro chamado Viagem de Inverno (1993). Seguiram-se O Jogo de Fazer Versos (1994), Modos de Música (1996), Outras Canções em Poesia Reunida (1985-1999) e Os Dias Inventados. Nessa altura, já tinha feito o habitual périplo dos inícios da carreira diplomática (ainda não como embaixador) em Angola, Madrid e Paris. Para trás, tinham ficado as experiências de assessor de Melo Antunes, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e do Presidente Ramalho Eanes. Em meados dos anos 90 foi colocado como cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro. A sua primeira missão como embaixador foi em Budapeste e depois em Nova Deli. Nessa experiência indiana radica um dos seus livros de poesia, Lendas da Índia foi distinguido distinguido com o prémio António Quadros.
E que melhor maneira de saudar Luís Filipe Castro Mendes do que acenar-lhe com um poema seu, do livro Viagem de Inverno, intitulado "Fim do Dia".

Aquieta-se o silêncio na folhagem, 
que em árvores teceu amor antigo;
sobressalto transposto da viagem
que o dia rumoroso fez consigo.

O coração, que é sombra na paisagem,
dá às palavras vãs outro sentido;
e é murmúrio desfeito na aragem,
que do entardecer recolhe abrigo.

Ares assim se fazem de uma luz
que torna como baço o sol poente;
e o coração à estrema se reduz,
como o dia se volve mais ausente.

Recolhem-se as palavras no vagar
que dia nem fulgor nos podem dar.


AOS QUE AMAM A MONTANHA

A CAPELA DE S. LOURENÇO
FAIAS E CHÃO DE BOSQUE
MANTEIGAS E O VALE DO ZÊZERE
Olho sempre a Serra da Estrela como um imenso território de liberdade e de descoberta porque ela encerra dentro de si tesouros insondáveis que, à semelhança do que Ernesto Sábato dizia para a poesia: cavar fundo à procura das pepitas das palavras que são ouro, também a montanha é fértil em dádivas de beleza, tão surpreendentes, que a riqueza ao nosso alcance tem tamanha diversidade que se torna impossível guardá-la, por inteiro, no bornal da memória. Arquivamos então no olhar fragmentos fantásticos, somos tocados pela emoção de instantes únicos, suspendemos a respiração quando o horizonte à nossa volta parece ser um interminável diálogo entre a terra e o céu e a paisagem assume uma grandeza que nos deixa atónitos. No relativismo da nossa escala com a Natureza mater, podemos descobrir o carácter bravio ou insubmisso da montanha, mas também a harmonia que ficou da forma como o homem a humanizou, como saga épica, sobretudo os vales e o agro, lá ao fundo, mas também como edificou uma casa e outra e outra como altos castelos ao luar.
Lá do alto, entre silêncios ou sonoridades de água a correr, que às vezes se tornaram fontes que matam todas as sedes aos caminheiros, vê-se esse mundo elemental, e, enquanto o vemos como sortilégio de deuses pródigos em bênçãos naturais, parece que dilatamos a vida e respiramos apenas alegria. Muitas vezes caminhei pela Serra da Estrela, e nessas andanças lembro sempre o senhor Milhano, da Covilhã, que nos levava a desvendar segredos, os tais mistérios da Serra, que são sempre a grande aventura dos viajeiros, e ontem, somei a essas antigas imagens, outras de igual ou superior beleza. Palmilhávamos a Rota das Faias, a caminho da capela de S. Lourenço, lá no alto, que parece ter sido edificada como ponto de convergência de toda a beleza, guiados pelo José Rodrigues, que conhece a Serra (e a Beira) a palmo, e que emprestou à empresa da dezena de caminheiros que nós éramos a pedagogia de olharmos aquelas realidades com "empenho do coração". Porque à Serra, todos o sabem, mas muitos esquecem, é preciso amá-la!
Eu já tinha escrito sobre este espaço sobranceiro a Manteigas, desinquietado pelas belíssimas fotografias da brasileira Gláucia Malena, mas agora era o contacto físico com bosques fabulosos de faias, a romperem do seu sono invernal para a Primavera, atapetados de folhas que eu gosto de chamar chão de bosque, com as flores das urzes a criarem manchas cromáticas surpreendentes, e, depois, a confrontar-nos com a dimensão do silêncio que faz destes lugares paraísos terreais ou pequenos santuários que nos obrigam a habitar os continentes do sonho. A Maria Eugénia Ferrão, organizadora mor da caminhada, certamente com leitura dimensionada à sua sensibilidade musical, tinha avisado que esta Rota das Faias era sinfonia para as quatro estações. E, de facto, o compasso temporal da transformação da vida tem aqui, numa espécie de reserva intocável, a expressão identificadora das mutações temporais, com as suas oferendas de intacta beleza, coisas de parar e ver, que tornam mais verdadeiro aquele ensinamento de José Saramago quando ele diz que cada viagem é sempre um regresso.
À volta da Capela de São Lourenço há castanheiros que ainda resistem como esculturas com os seus ramos erguidos ao céu, breve memória desses monumentos naturais que aqui e ali revestiam a Serra. E lá está inscrita a força poética de Miguel Torga, ele que tanto amava a Serra da Estrela e sobre ela deixou páginas eternas. O poema que lá está, impõe pausa aos caminheiros, e diz assim:

"Eis o pai da montanha, o bíblico Moisés Vegetal!
Falou com Deus também.
E debaixo dos seus pés, inominada, tem
A lei da vida em pedra natural!
Forte como um destino,
Calmo como um pastor.
E sempre pontual e matutino
A receber o frio e o calor!
Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços.
Gestos solenes duma fé constante...
Folhas verdes à volta do desejo
Que amadurece.
E nos olha a prece
Da eternidade
Eis o pai da montanha, o fálico pagão
Que se veste de neve e guarda a mocidade
No coração"

Então, colhida a poesia de Torga, todos logo ali jurámos regressos e mais outras navegações pela montanha ao reencontro da alegria de viver. Assim é, mas só para os que amam a montanha!