sábado, 30 de abril de 2016

O APAGÃO SELECTIVO DA MEMÓRIA

Ontem, na sessão de apresentação do livro "Exílios", tive oportunidade de falar no combate pela memória, aliás na perspectiva defendida por George Duby, como um dos combates essenciais da nossa contemporeinidade. E hoje, lendo no "Público" a reportagem sobre a lição de jubilação do Prof. Fernando Rosas, vejo como o historiador, na sua aula, pôs o acento tónico precisamente na temática da defesa da memória e na desconstrução que tem vindo a ser feita paulatinamente desvirtuando a leitura da história portuguesa contemporânea, designadamente da ordem democrática criada a partir do 25 de Abril.
Fernando Rosas referiu a história "como palco de combates entre a ciência, de um lado, e do outro o revisionismo e a desmemória, cujo objectivo é legitimar a implantação de um novo curso capitalista neoconservador  e neoliberal" recusando que "essa nova ordem conservadora e liberal, com formas brutais de acumulação de capital". Diz a jornalista que reporta o acontecimento, Leonete Botelho, que Rosas "identificou os processos pelos quais, na actual sociedade portuguesa, se desenvolvem as "tentativas de reinterpretação do passado recente." "A primeira que apontou foi a "desmemória" criada pelos "media", pela escola e as novas tecnologias, que criam um ambiente de "presente contínuo", que significa "umaforma de manipulação da memória" pelo "alagamento de acontecimentos, de processos históricos e de valores que transportem do passado um potencial subversor da nova  ordem que se pretende estabelecer". E sublinha: "Uma espécie de amoralismo paralisaste que inculca a aceitação  acrílica da lei do mais forte, da injustiça social, da destruição das forças produtivas".
De facto, para Rosas, o objectivo deste "apagão selectivo da memória será impor novas regras de trabalho, como se se tratasse de uma fatalidade".Mas Fernando Rosas apontou que "nesta revisão das representações do passado é a utilização da memória como farsa, como objecto de consumo, espectáculo lúdico, inocente e banalizador" numa narrativa baseada em "literatura de cordel e até algum trash televisivo". Na caracterização desta revisitação do passado, o historiador sublinha que "o revisionismo historiográfico pretende refugiar-se no estatuto da escrita da história para poder ser evocada como argumento nos debates acerca do passado" e deu nome aos que apostam nesse desvirtuamento: "Quando autores como Vasco Pulido Valente ou Rui Ramos, a propósito do centenário da I República (e bem antes) a caricaturam  como um regime terrorista e caótico, num discurso primário decalcado da propaganda estado-novista, o que pretendem não é tanto tratar da I República, mas sim legitimar a ditadura militar e o salazarismo que lhe teriam sucedido como aurora redentora". Quer dizer, "a ideia do revisionismo sobre o Estado Novo é reduzir o antigo regime à normalidade conservadora", mas Fernando Rosas desmonta essa mistificação ao considerar que "a revolução de 74/75 constitui a marca genética da democracia portuguesa, o principal factor que a viabiliza e define o seu perfil inicial".

terça-feira, 26 de abril de 2016

EXÍLIOS

Os  meus amigos sabem que, na roda do ano, não têm conta as vezes em que participo em apresentações de livros, que são sempre sessões fecundas de ideias e de cultura, que os livros são sempre o alimento primordial do saber. Mas de muitas maneiras e mais uma, devo dizer que o encargo que me é dado por amigos queridos para a sessão que vai realizar-se esta quinta-feira, às 18 horas, na Biblioteca Eugénio de Andrade, no Fundão, para apresentar o livro Exílios, é para mim muito especial, não só plano da memória política, mas também pela expressão afectiva que o universo do Exílio representa, como a mais consequente e frontal rebelião contra a guerra colonial.
O livro que vai ser apresentado Exílios - Testemunhos de exilados e desertores portugueses na Europa (1961-1974), rompe um bocado o tabu ou o cerco de silêncio que esta questão tem tido na sociedade portuguesa, mau grado terem passado já 42 anos sobre o 25 de Abril. Por isso, Exílios é um contributo importante, assente na experiência directa daqueles portugueses que decidiram fazer das suas histórias de vida um registo não só para memória futura, mas para a própria história do século XX português.
Rui Bebiano enquadra bem, no prefácio, o que é a "experiência e memória da deserção e do exílio", assinalando que "quem este livro são pois homens e mulheres que participaram de forma activa neste universo, actuando nos territórios do exílio como consequência da sua opção de desertar das forças armadas portuguesas ou de, junto de comunidades portuguesas emigradas na Europa, manter uma iniciativa de apelo à deserção, de propaganda contra a guerra e, globalmente, da resistência activa e organizada ao regime fascista e colonialista".
Elucidativo é, também, o posfácio da historiadora Irene Pimentel que analisa em profundidade "a deserção, opção política e ética para combater a guerra colonial.


PAÍS DA MÚSICA, PAÍS DE ABRIL

O maestro Pedro Carneiro dirigiu a Jovem Orquestra Portugueas
Há um país da música dentro de Portugal. Há muitas palavras que nos beijam quando falamos do 25 de Abril, e logo a primeira que salta da caligrafia de esperança que foi "a manhã que esperávamos" o "dia inicial inteiro e limpo" (sempre a Sophia e a sua arte poética apontada ao futuro), é a maior de todas, a Liberdade. Mas é precisamente a partir dela, que o país se inventou como expressão de uma nova humanidade, plasmada no direito ao sonho e à felicidade.
Hoje quero sobretudo fazer um aceno de alegria e gratidão ao 25 de Abril, falando de música, que traduz uma das transformações mais notáveis operadas na sociedade portuguesa e que é um sinal de como a democratização do acesso ao ensino da música é uma das mudanças qualitativas com traço forte na paisagem portuguesa. De Montalegre ao Algarve, o país está cheio de Escolas de Música e de Conservatórios Regionais e de Cursos Superiores, e quem estiver atento descobre  um pouco por todo o lado, jovens transportando os seus instrumentos de estudo a caminho das escolas, conjuntos e orquestras que se formam (sim, também em Castelo Branco, e também na Covilhã, e também no Fundão) , e, suprema glória, não faltam músicos que saem desses universos locais e regionais e conquistam êxitos, cá dentro e lá fora, que são títulos de honra para o país.
Andando pelos Dias da Música no Centro Cultural de Belém, penso que foi aí, na imagem de milhares de pessoas, com natural predomínio de jovens, gente de felicidade à flor do riso, que me pus a olhar para aquela realidade cultural em movimento como se estivesse a ver um País da Música dentro do País de Abril. Já agora, deixem-me partilhar convosco emoções fortes, de que vou dar dois exemplos.  O primeiro memorável, porque é sempre fascinante ouvir A Sinfonia n. 9 Do Novo Mundo, de Antonin Dvorjak, ainda para mais tocada pela Jovem Orquestra Portuguesa, dirigida pelo Maestro Pedro Carneiro. Aquele novo mundo era, também, o mundo que nascia das mãos dos jovens músicos, todos com um rigor e um saber verdadeiramente notáveis. Foi uma grande festa da música que o Grande Auditório do CCB, no final, aplaudiu em apoteose.
O segundo também foi um instante especial: A Canção da Terra, de Gustav Mahler, pelo Ensemble Mediterrain, dirigido pelo violoncelista e maestro Bruno Borralhinho, que é natural da Covilhã e tem um percurso internacional notabilísssimo. Vê-lo ali, na sua leitura de A Canção da Terra, de Mahler, deixem-me dizer, encheu-me de muita alegria, daquela alegria que tem sempre um toque de comoção. É que, Bruno Borralhinho, tem com ele a expressão de alguém que pode ser símbolo do tal País da Música no País de Abril.
E cheio de instantes sublimes, já estamos no 25 de Abril, penso já noutro momento inesquecível, quando descer a Avenida Liberdade, com o meu neto, para lhe ensinar que foi neste dia, há 42 anos, que a Liberdade começou.