sábado, 7 de maio de 2016

AS ÁRVORES MORREM DE PÉ!

Ainda há dias escrevia aqui um elogio às árvores, como elementos primordiais da paisagem que nos ajudam a respirar e a encher os olhos de beleza, fascinado com o castanheiro da Índia, com a carvalha monumental ou os plátanos que parecem erguer-se para o céu, ao cimo da avenida da Liberdade, indo depois à procura das sinfonias verbais de Aquilino e de Torga sobre o mundo vegetal, para meu conforto imediato, quando deparo com uma notícia do "El Pais" que é bem o sinal do absurdo (e da estupidez!) com que estamos confrontados na banalidade dos dias.
A jornalista Carmen Morán contava, indignada, que andavam, na Extremadura (e como eu gosto da Extremadura, caramba!) a envenenar castanheiros centenários, com requintes de malvadez. Há, então (e sempre houve) matadores de árvores, como estes que deixaram o seu rasto de morte, em Cáceres. Na autópsia aos assassinatos das árvores, dizia a narrativa que quem feriu de morte a árvore de 300 anos, catalogada como exemplar singular na Extremadura, utilizou uma técnica para fazer os maiores danos: 10 cortes de motoserra, de 10 centímetros cada um, repartidos pela base e pelos braços principais. Ali verteram o fitosanitário glifosato, para o envenanamento ser eficaz.
Volto aos matadores de árvores, que geralmente associam a sua actividade a um ódio sem limites aos espaços públicos. Lembro-me sempre do olmo monumental, em Alpedrinha, que merecera poema de Eugénio, e que um dia a Direcçaão de Estradas mandou abater. Aqui bem perto, não esqueço os maus tratos infligidos aos castanheiros da Índia, no Fundão, na degradada Alameda Amália Rodrigues: as árvores, coitadas, apresentam as feridas abertas nos troncos, mas resistem nobremente, no espaço da feira. Houve uma, contudo, que foi serrada para alargar o espaço visual do tendeiro! Lembro-me de ter denunciado o facto, o meliante tinha sido identificado, mas nada lhe aconteceu...
Essa insensibilidade é a mesma que deixa contaminar a Gardunha, com despejos de todo o tipo, ou o vazadouro em que se transformou o lugar emblemático da Portela da Gardunha.
Brecht, em tempos sombrios, avisou: "Que tempos são estes em que defender uma árvore parece um crime?" Agora, se calhar, podemos dizer: Que tempos são estes em que matar uma árvore não é um crime?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

UMA PAPOILA RUBRA

Agora, que os campos estão verdes "da cor do limão" e tudo floresce rente ao chão, num cromatismo difícil de decifrar, as urzes e as estevas povoam as encostas das serras que descem aos povoados e nos pomares as flores são o espectáculo que se conhece. A íntima chuva, que também merece elogio, porque tem virtualidades para vivências específicas (ficar em casa a ler ou a ouvir música, sei lá), refresca o agro e os sinais da Primavera são tão evidentes que os pássaros não abrem mão das suas sinfonias campestres, como se quisessem avisar que estes instantes não se devem perder por nada deste mundo. Este é o tempo dos caminhos se fazerem caminhando, perscrutando o imediato da paisagem, enchendo os olhos de natureza, descobrir a emergência da beleza nos lugares mais inesperados. Eu gosto de sair das rotas urbanas e acolher-me às árvores e aos bosques, perscrutar as sinfonias aquáticas das ribeiras ou dos fios de água que correm da Gardunha ou da Estrela (aqui a sinfonia é sempre mais intensa!), deter-me a olhar a sobriedade dos salgueiros ou dos canaviais, e a síntese de tudo isso não é outra coisa que uma forma de respirar alegria.
Num dia de sol intenso, a varrer de luz todo o campo, apurei o olhar a papoilas que, na ausência de trigais, abraçavam um muro de pedra solta ou se abrigavam à beira do granito. Sempre me fascinaram as papoilas, flor tão poética que Cesário Verde não a perdeu, e esse fascínio porventura vem de uma observação mais atenta à sua própria vida. À brevidade da sua duração, que, sendo breve, é vibrante de vermelho, um vermelho muito vivo que não admite diluições -- morre quando o vermelho acaba, penso eu -- deve juntar-se a sua rebeldia, pois não aceitam que as colham ou façam delas flores ornamentais. Retiradas do seu habitat murcham, pois isso as mata inelutavelmente. Olhei, então, para uma que parecia nascer da pedra de granito abandonada, à beira do caminho. Ali estava, como uma bandeira, cumprindo a sua relação absoluta com a natureza, como se afirmasse, também, a dimensão poética de uma papoila saudosa dos trigais.

BORIS VIAN

Ilustração do "El Pais"
Para a minha geração, Boris Vian tornou-se rapidamente numa figura mítica, porque tinha tudo aquilo que nos fazia sonhar, uma rebeldia e uma postura desafiante, uma capacidade rara para a genialidade, a vertigem de uma biografia que se cumpria em mil um ofícios: engenheiro, músico de jazz, tradutor, cantautor, actor, escritor. O "El Pais", que recentemente falava nele por via de uma biografia em banda desenhada, com guião de Hervé Bourhis e desenhos de Christian Cailleaux, dizia que Boris Vian foi "um polígrafo incontinente, cujas obras completas ocupam 15 tomos e incluem novelas, relatos, poemas, ensaios, críticas e crónicas para a rádio".
Como podia Boris Vian não ser personagem mítico, tocando o imaginário não só da minha, mas de sucessivas gerações, ele que até morreu com 39 anos e cuja morte foi tão sentida que os seus admiradores se recusavam a aplicar-lhe o lugar-comum que foi sempre uma treta muito bem construída, uma espécie de desculpa com o destino: "morrem cedo, os que os deuses amam!". No caso de Boris Vian isso nunca poderia funcionar, pois ele até foi condenado por ultraje à moral, por ter escrito Cuspirei sobre as vossas tumbas, e ser autor da célebre canção Le Deserteur, um violento requisitório contra a guerra, quando a França mandava matar na Argélia e na Indochina. "Sem jazz a vida seria um erro", escreveu ele, como se estivesse a ditar a sua própria legenda para a história. Quando fixamos a atenção na figura de Boris Vian encontramos uma das mais fascinantes personalidades da cultura europeia do século XX. Poucos teceram tão bem a matéria dos sonhos e assumiram a plenitude de um compromisso visando um mundo mais justo e feliz. Tão feliz quanto a utopia da música o faria possível, em tudo aquilo em que ela é potenciadora de sonho e de felicidade.
Lembrando-me de Boris Vian, lembrei-me de uma crónica do meu querido amigo Jorge Listopad, incluída num livro publicado nos anos 80, Secos e Molhados, que continua a ler-se com agrado. Listopad, que conheceu Vian em Paris, faz uma curiosa evocação do músico e escritor. A páginas tantas: "Boris Vian era um dos primeiros habitantes dessa aldeia. "Nunca chego aos 40 anos", dizia, fazendo cara-de-pau, olhos-de-vidro, sorriso-de-lâmina, máscara totalmente oposta à sua expressão habitual, viva, generosa, quente. Troçava da sua morte prematura, tal um dr. Caligari-de-guinhol, mas essa troça era apenas uma tentativa de exprimir, ao seu modo pudico, o medo escondido. Aliás, quanto mais os anos passavam mais Boris Vian acreditava que não há fronteira entre o grotesco e o trágico, entre o verdadeiro e o falso, entre a vida e a morte, tudo igual a tudo. O que talvez possa explicar -- não apenas porque teve tantos talentos naturais --  a sua tão diferenciada criação e os vários riscos artísticos que gostava de correr".
Regista Listopad: "Morreu aos 39 anos. O enterro foi acompanhado de jazz, da malta de camisas aos quadrados, raparigas de cabelos apanhados em rabo-de-cavalo, nesse dia deixados soltos em sinal de luto,  dos "maitre a penser" da Gallimard engravatados; um enterro como uma grande brincadeira, como um ensaio geral para filmar amanhã, como a confirmação da aposta pessoal do falso clínico que soube escrever coisas ternas como ninguém".
Boris Vian.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

HOMENAGEM A MELO E CASTRO NO PAUL

Às vezes, as cidades e as regiões, e num plano mais vasto, os países, não têm consciência da importância dos criadores, daqueles que verdadeiramente se singularizam no plano da invenção cultural, para a afirmação da capacidade dos territórios e das pátrias (grandes ou pequenas) no plano do conhecimento colectivo e da própria inteligência. Penso muito nessa ilha ilusória dos que julgam viver felizes, à margem da realidade cultural, nos quotidianos tristes que auto-excluem qualquer inquietação de ideias e do pensamento.
Mas há sempre quem, atento aos que souberam libertar-se do "reino cadaveroso da estupidez", lutam contra o esquecimento imposto ou tolerado e projectam na comunidade a luz trazida pelo contributo dos que edificaram uma obra e acrescentaram sonho ao tempo que vivemos.
Há uma pessoa e uma estrutura de quem esta região é tributária de muita gratidão pelo que tem feito pela promoção cultural, por um trabalho excepcional em louvor da memória, impondo uma acção singular, no plano do conhecimento e da pedagogia da leitura. Estou a falar do Nelson Oliveira que construiu no Paul a Casa da Cultura José Marmelo e Silva, centrada na obra de um dos escritores mais importantes da literatura portuguesa contemporânea, natural do Paul, e cuja obra tem uma ligação forte à Covilhã, mas uma Casa que polariza, também, uma acção múltipla de divulgação cultural e uma relação de proximidade com o universo escolar do primeiro ciclo. A Casa é um lugar de cultura e harmonia e respirarmos lá as palavras e a escrita de José Marmelo e Silva -- lá estão os livros da sua vida, de certo modo um registo do seu universo criador -- é uma oferta excepcional que as escolas e a Universidade não podem desperdiçar.
A outros serviços notáveis, junta agora a Casa da Cultura José Marmelo e Silva, mais um: a homenagem que vai prestar domingo, dia 8, às 15 horas, ao poeta e ensaísta E.M. de Melo e Castro, autor de uma originalíssima obra no ensaísmo e na poesia, que rompeu sempre as fronteiras do proibicionismo fascista ou das convenções morais de uma uma sociedade bafienta e com cheiro a sacristia. Autor de vastíssima obra, E.M. de Melo Castro, natural da Covilhã, tem a cidade originária e a região no seu coração.
Acompanhei a sua colaboração no "Jornal do Fundão", onde, nos anos 60, dirigiu, juntamente com Herberto Hélder e António Aragão, um Suplemento que seria considerado fundador do movimento da Poesia Concretista em Portugal, facto que a História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes reconhecem.
Domingo, lá estarei a dar um abraço ao Poeta e a acenar gratidão ao Nelson Oliveira e à Casa da Cultura José Marmelo e Silva, que vi nascer e a que me encontro ligado desde a primeira hora.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

ÁRVORES!

Enquanto espero que os jacarandás de Lisboa floresçam (Eugénio de Andrade: "São eles que anunciam o Verão,/Não sei doutra glória, doutro/paraíso: à sua entrada os jacarandás/estão em flor, um de cada lado..."), fico a encher os olhos com o castanheiro da Índia, à minha beira. Olho para ele e não posso deixar de recordar os castanheiros da Índia de Paris (dez mil!), o esplendor deles nas margens do Sena ou em qualquer praça, pois eles fazem parte da respiração da grande cidade.
É muito curiosa a forma como através de uma árvore podemos fazer grandes viagens, pois também elas, como nós, se tornaram nómadas, galgaram oceanos e longas distâncias, e, na sua transmutação territorial, ofereceram sinais de outras realidades e de outros mundos. Estas, de que falámos, têm para mim essa carga simbólica de se ancorarem a múltiplos continentes, o que é uma riqueza que elas acrescentaram aos nossos territórios de sonhos.
Na biografia territorial, que é a nossa casa comum, encontramos árvores monumentais. Quem já olhou o bosque que João Manuel Franco plantou na encosta da Gardunha, a descair sobre o Alcaide, que tem exemplares exóticos surpreendentes? Há, um pouco por todo o lado, árvores imponentes, seculares, altas e de grande copa, como os plátanos ao cimo da Avenida da Liberdade, ou a carvalha que parece a porta que se abre para a Praça do Município, árvores com uma história, com tantos tempos incorporados dentro dos seus troncos dilatados ou nos altos ramos da sua altivez, que mereciam bem ser classificadas como parte essencial do nosso património comum. Isto das árvores tem que se lhe diga: quando seguimos os seus trilhos e nos acolhemos a toda a sua glória, como acontece a quem pisar a rota das Faias, por cima de Manteigas, e parar um pouco para ver a paisagem junto à capela de S. Lourenço (os olhos vadiam então à roda da Serra, sempre à roda, como se estivéssemos num tecto do mundo à nossa escala!), apreendemos porventura a mesma sensação que Torga interiorizou quando por ali esteve e olhou os monumentais carvalhos (eu, vendo-os descarnados e imponentes, julguei serem castanheiros e do erro me penitencio!) e os levou consigo para o seu fazer poético. Árvores! Regresso sempre à sinfonia que Aquilino escreveu, na abertura mágica de A Casa Grande de Romarigães, sobre o nascimento da floresta, que tem dimensão universal e é escrita patrimonial da humanidade. E, no entanto, pergunto:quem o lê?
Então, enquanto os jacarandás de Lisboa vão amadurecendo as flores para Junho, encho os olhos com o meu castanheiro da Índia e com a explosão das suas flores brancas, e digo para mim que a vida pode ser, nas pequenas coisas -- se calhar nos tais pormenores de Deus de que falava Steiner -- uma coisa verdadeiramente fantástica que vale a pena festejar com alegria.

terça-feira, 3 de maio de 2016

TELEVISÃO

Há dias, li no "El Pais" uma interessante crónica em que Ángel Sánchez Harguindey fazia uma radiografia dos malefícios da televisão através de frases de pessoas célebres, cuja ironia é uma brisa fresca de humor. À televisão portuguesa cheia de papagaios avençados a interesses espúrios, também se aplicam algumas gargalhadas que se elevam das citações. Vamos a elas:
"A televisão é o espelho onde se reflecte a derrota de todo o nosso sistema cultural", foi Fellini quem o disse. Mas Groucho Marx também se saiu com esta: "Encontro a televisão muito educativa. De cada vez que alguém a liga, retiro-mo para outra sala e leio um livro". Bette Davis, com o seu pragmatismo, afirmou: "A televisão é maravilhosa. Não só nos produz dor de cabeça, como na sua publicidade encontramos as pastilhas que nos aliviarão". Para o sociólogo Alain Touraine: "A televisão será a base da opinião pública. Criou um mundo esquizofrénico em que entre  o indivíduo e o global, não há nada". E Jean Renoir: "O problema  é que a televisão esmaga-me e converte em massa informe a realidade, a ficção, o fundamental, o secundário, o divertimento e a reflexão".
O cronista termina, aliás, com uma reflexão bem curiosa do magnate Rupert Murdoch: "Não quero que nenhum programa seja mais inteligente que os anúncios".
E de televisão, estamos conversados!

segunda-feira, 2 de maio de 2016

LUÍS SEPÚLVEDA PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Nem tudo é sombrio, também há estrelas no céu que às vezes se transformam em suave melodia, ventos favoráveis a bons portos, sei lá, circunstâncias que convergem em notícias boas, que nos deixam felizes. Foi o que aconteceu comigo há dias. Era uma sexta-feira e havia aquele sol de fim de tarde que poisa na paisagem, em despedida de luz, e nos deixa sempre com o fascínio de um dia esplendoroso que chega ao fim. Ora, num horizonte assim, tinha de acontecer também a notícia de que o escritor chileno Luís Sepúlveda tinha vencido o Prémio Eduardo Lourenço, do CEI.
A razão da minha felicidade radicava no facto de ter sido eu a propor a sua candidatura ao Prémio. Eu tinha mostrado o texto a uma amiga, que é leitora exigente, e ela dissera-me, com uma certeza que me deixou atónito: "O Sepúlveda vai ganhar!"
Eu já tivera o gosto de uma vitória semelhante com Mia Couto, mas desta vez defrontava-me com uma certa dose de cepticismo. Mas enfim... A minha amiga, lembrava-me: "Então, você não refere a dimensão universal do escritor e a raiz ibero-americana da sua obra e a sua pluralidade ibérica? É aí que reside a força ou a singularidade de Luís Sepúlveda..."
Parece que a minha amiga tinha razão e, por isso, aqui deixo a parte substancial do texto que levou o júri a atribuir o Prémio a Luís Sepúlveda. Era assim:

"Creio que não há sonho mais belo do que o de um mundo onde o pilar fundamental da existência seja a fraternidade, onde as relações humanas sejam sustentadas pela solidariedade, um mundo onde todos compartilhemos da necessidade de justiça social e actuemos com coerência.
(Luis Sepúlveda O poder dos sonhos, Lisboa: Edições Asa: 1011.) 

No universo da literatura ibero-americana, a obra de Luís Sepúlveda ocupa um lugar muito especial, pela natureza da sua fidelidade às raízes latino-americanas, aos territórios oníricos da criação, à dimensão fantástica da sua escrita, à reelaboração da memória dos lugares e das pessoas na sua relação arterial com a História do Chile e as suas comunidades originárias. Na incessante acção criadora, que é a sua forma de fazer literatura, não faltam à escrita do autor de O Velho que Lia Romances de Amor a expressão identificadora de realidades primordiais e uma dimensão plástica da linguagem que lhe conferem uma certidão de autenticidade e de estilo, só alcançável pelos grandes escritores.
A natureza dessa originalidade criadora, que é um traço distintivo dos seus livros, fez que as suas palavras voassem por cima das fronteiras para se tornarem matéria de sonhos de alcance universal. Em certo sentido, poderia dizer-se que ele materializou aquele desejo tão bem formulado pelo grande escritor brasileiro, João Guimarães Rosa quando disse: voa, palavra! E as suas palavras fizeram-se parte inteira do sonho de milhares e milhares de leitores em todo o mundo. Ele dirá numa entrevista: “Voar, ter asas, não é só levantarmo-nos no ar, é caminharmos com passos próprios. Elevarmo-nos confiando apenas nas nossas próprias forças”.
A universalidade da obra de Luís Sepúlveda radica na sua capacidade para, contando histórias que mergulham às vezes em realidades que são retratos particulares da condição humana, adquirirem pela sua comum humanidade, sentido planetário inerente à esperança de que a literatura tem, desde a sua matriz originária, desde a Antiguidade Grega aos nossos dias, o compromisso de contribuir para a edificação de um mundo mais habitável. No caso de Luís Sepúlveda, essa contingência cruza-se com a sua biografia, também vincadamente expressa na sua obra criadora (Octávio Paz), estando na primeira linha de defesa das liberdades, por exemplo, no golpe militar fascista de 11 de Setembro, de Pinochet. Luís Sepúlveda estava no Palácio de La Moneda a fazer guarda ao Presidente Allende, como membro da Unidade Popular chilena.
Esse e outros combates cívicos levaram-no aos caminhos do exílio. Têm sido múltiplas as suas navegações: viajou e trabalhou no Brasil, Uruguai, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. Foi amigo de Chico Mendes, herói da defesa da Amazónia, a quem, aliás dedicou O Velho que Lia Romances de Amor.  Realizador de cinema, guionista, escritor,  construiu o seu universo ficcional longe do Chile, o que lhe permitiu regressar sempre distanciadamente aos territórios da infância e às vicissitudes de se fazer a si próprio como homem e cidadão. Essa vertente foi importante para estimular a memória e porventura consolidar a sua escrita com a dimensão do fantástico latino-americano.
Se nos ativermos às suas principais obras, em que se destaca a humaníssima narrativa de O Homem que Lia Romances de Amor, descobrimos facilmente que a cartografia do imaginário chileno é uma âncora fundamental da ficção de Luís Sepúlveda. É importante sublinhar, também, que na vastidão da sua bibliografia se deve dar atenção à forma como Sepúlveda domina os géneros literários, como é o caso da sua dimensão de cronista ou autor de livros de viagens: Patagónia Express, Crónicas do Sul; ou de ficcionista que faz da memória questão que tem consigo mesmo: O General e o Juiz, As Rosas de Atacama;  ou até na literatura infantil: História de um gato e de um rato que se tornaram amigos e História do Caracol que descobriu a importância da lentidão.
Autor ibero-americano, Luís Sepúlveda vive em Gijon, a Ibéria é hoje o seu lar. Poucos autores, como ele, têm trabalhado em louvor da Língua e da Cultura espanholas, fazendo da pátria idiomática que tem a dimensão plurinacional de vários continentes, uma aventura criadora em que o homem é a medida de todas as coisas.

domingo, 1 de maio de 2016

PRIMEIRO DE MAIO

O primeiro Primeiro de Maio em liberdade, na Covilhã. Eu estive lá.
O Primeiro de Maio nunca cai na rotina dos calendários porque talvez não haja outra data que contenha tanta dimensão planetária, de luta e de esperança, tanta carga simbólica em relação à afirmação de valores e da exemplaridade das lutas dos trabalhadores. O Primeiro de Maio foi sempre uma jornada de flores e fraternidade, mas também de lágrimas e sofrimento, e nessa consubstanciação talvez resida muita da força que o tempo e a história lhe foram conferindo.
Neste dia, tantos anos depois do 25 de Abril e da conquista da Liberdade, eu costumo olhar para antigamente para lembrar muitos companheiros que ficaram pelo caminho que, nunca tendo vivido em liberdade (suprema ignomínia!) assinalaram sempre o Primeiro de Maio como jornada de luta clandestina pela liberdade e contra a ditadura.
Então, às vezes, irrompiam algumas bandeiras vermelhas, juntavam-se pessoas que gritavam palavras de exigência de tempo novo, de liberdade livre, às vezes, havia greves e lutas em silêncio, coisas e acontecimentos que, não sendo noticiadas por via da Censura, para a maioria dos portugueses nunca existiram. Lembro-me de algumas dessas jornadas no Rossio em que o Primeiro de Maio se cruzava com a contestação das crises estudantis e da sempre brutal repressão da polícia de choque, que batia em tudo quanto mexia e a quem algumas canções produziam uma raiva incontida. Batiam, prendiam, era um tempo em que alguns diziam punha as ideias em estado de sítio... Era um tempo em que o Manuel Alegre, na Praça da Canção, avisava: "Quando desembarcarmos no Rossio..."
Lembro-me (como não podia lembrar-me?) das vagas de prisões de amigos, na véspera do Primeiro de Maio, no Tortosendo, quando o medo tomava tudo, como dizia o Alexandre O'Neill. Mas há imagens que evocam em mim rostos e gente e da bruma da memória parece que estou a ver, desde miúdo, o tempo em que comecei a compreender a importância do Primeiro de Maio, quando minha mãe me indicou um senhor que nesse dia subia sempre a minha rua, de fato escuro e chapéu, com um cravo vermelho na lapela, que parecia iluminar a rua toda. Era o senhor Joaquim Calvário, velho combatente que vinha do anarco-sindicalismo e do partido comunista. Ele caminhava sempre muito direito, desafiante, e eu (que depois vim a ser seu amigo, ele dizia-me desse tempo: eu olhava-os de frente, para saberem que não tinha medo!), pensava (e um dia confessei a minha mãe) como lhe fiquei grato para sempre por ela me ter ensinado através apenas de uma imagem e de um rosto que passava toda a ousadia e rebeldia que o Primeiro de Maio trazia para repartir connosco.
Depois, o Primeiro de Maio é feito de canções ("a cantiga é uma arma!"), umas tristes outras celebratórias de "Maio, maduro Maio", como cantou o Zeca. Deixo aqui duas ao vento que passa, uma do Adriano (precisamente a que fala no desembarque no Rossio) e outra do Zeca, que é uma belíssima canção, cheia de lirismo e de poesia.


MORRER!

Há momentos em que as palavras parece não terem outra função do que tingirem-se de lágrimas. Ainda agora, não paro de pensar na notícia da morte de Paulo Varela Gomes, uma figura verdadeiramente notável, com uma obra excepcional no domínio do estudo e da divulgação daquilo que é uma memória essencial da nossa identidade: o património, realidade multicultural e intemporal que pertence à materialidade da nossa história, Paulo Varela Gomes construiu uma biografia singular também nos planos académico (era professor da Universidade de Coimbra)  ou da própria escrita, com livros que marcaram bem o seu tempo, pois virtualizam o exercício da memória como questão central da literatura. Estou muito triste. Porque o Paulo Varela Gomes (63 anos), merecia outro destino. Mas a lâmina do cancro, sempre a lâmina do cancro a cercar os dias, a adensar de sombras o quotidiano, a programar a morte a prazo. Agora, que o irremediável aconteceu, olho para ele e vejo-o nas navegações com outro amigo que partiu cedo - o Miguel Portas - nos documentários das suas viagens, em busca do património perdido, e a memória fixa-se em Goa.
Há quase um ano, em Abril, o Paulo experienciou o cerco da morte e escreveu um texto ao mesmo tempo corajoso e de grande densidade humana sobre o seu caso terminal. É um texto exemplar, pela total exposição pública do seu caso, a história do seu cancro, mas sobretudo muito comovente, porque sendo uma narrativa sobre a vida e sobre a morte, Paulo Varela Gomes celebra a vida.
Penso que essa forma de encarar o drama condensa a riqueza de uma personalidade que nos abandona cedo de mais. Muito cedo. E, por isso, em jeito de memento, aqui o deixo aos meus leitores.


MORRER É MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE - Paulo Varela Gomes

Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”. São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.
Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.
Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.
Decidimos que nunca me submeteria aos tratamentos da medicina oncológica, às suas armas: as clássicas (cirurgia), as químicas (drogas) e as nucleares (radioterapia). Estas armas destroem as defesas próprias do organismo e aceleram frequentemente a sua degradação. Já vi suficientes doentes de cancro entregues nas mãos da oncologia para tremer de horror ao pensar que poderia suceder-me o mesmo. Quando voltámos para casa, não houve uma lágrima, um gesto de desespero, um queixume. Falámos muito pouco. As estradas por onde passávamos tantas vezes pareciam agora ter uma realidade inverosímil, como se fossem pinturas de paisagem antiga. Fazia calor e a luz era branca. Durou vários dias seguidos, este silêncio emocional. As palavras que trocámos em casa foram reduzidas ao mínimo.
Uma consulta com um médico do IPO confirmou tudo o que estava no relatório do radiologista. Mais tarde, algumas instituições com nomes que tilintam como lingotes de ouro vieram dizer-nos o mesmo: não havia nada que valesse a pena fazer. Essas opiniões não nos importaram, porém. Numa estranha frieza, só quisemos saber o que faríamos para acabar com a minha vida quando essa altura chegasse. A Patrícia jurou que não me impediria de morrer, e até me ajudaria se fosse necessário. Como disse Plotia ao poeta em A Morte de Virgílio de Hermann Broch: “A morte fecha-se a quem está só, o conhecimento da morte apenas se desvenda à união de dois seres".
Sucede que estes acontecimentos já me parecem um pouco perdidos no nevoeiro do tempo. Passaram mais de mil dias desde a tarde abafada de 23 de Maio de 2012, quando fiz a TAC, até à nebulosa e fresca tarde de Primavera em que estou aqui a escrever isto. Dois anos e onze meses. Não sei se nesta evolução, que não tem cessado de nos surpreender e a quem nos conhece, podemos adivinhar a lenta condensação de um milagre. Sei que há muita gente a rezar por mim e é com alegria que agradeço a todos. Mas sei também que tenho recorrido a muitas medidas práticas para evitar a sorte ditada pelos oncologistas.
A primeira foi fazer-me acompanhar, desde algumas semanas depois da TAC, por um médico homeopático (os médicos encartados não acham graça nenhuma a que se chame médico a um homeopata, mas tenham santa paciência). Sob sua orientação comecei por mudar radicalmente de regime alimentar. Em vez de comer produtos tóxicos como faz a maior parte das pessoas, passei a alimentar-se com produtos que ajudam o meu sistema imunitário e alguns que combatem o cancro activamente. Além disso, o médico foi prescrevendo suplementos alimentares e medicamentos homeopáticos. Devo à homeopatia a qualidade dos mais de mil dias de vida que levo de vantagem sobre os médicos oncologistas. Duas ou três semanas depois de começar a terapia já começava a duvidar de alguma vez ter tido cancro. Imaginem: um canceroso em estado grave, que pouco tempo antes estava arrasado de cansaço e pessimismo, foi à praia! Confesso que tive medo de entrar na água, eu que vivi junto ao mar e mergulhei nas suas ondas vezes incontáveis. Só no segundo dia consegui decidir-me, e foi tão grande a felicidade experimentada no corpo que percebi que a Idade do Gelo em que tínhamos vivido desde o diagnóstico tinha dado lugar a uma Primavera, incerta e frágil, é verdade, cheia de dias de nuvens, mas tempo de viver e não de morrer. 
As semanas correram e fomos passear a Toledo, a Burgos, a Viseu. Participei em conferências, orientei alunos, fiz todos os dias companhia à minha mulher e aos nossos seis cães, andei com a minha neta aos saltos sobre os charcos de água da chuva. As minhas análises foram durante muito tempo boas, e o meu aspecto muito diferente da maioria dos desgraçados que frequenta os campos de morte da oncologia. Além disso, como os leitores e leitoras saberão, escrevi e publiquei três romances, uma colectânea de colunas escritas para jornais, e finalizei mais um romance e um livro de contos. Todavia, não houve um único dia em que não tenha pensado na morte. Nem um. 
Ao princípio não receei mas também não compreendi essa Senhora de Negro e, portanto, ofereci-lhe de bandeja as inúmeras oportunidades que, demoníaca, busca dentro de nós para nos fazer a vida num inferno ou para nos levar. É verdade que a vontade de viver teve desde sempre mais poder sobre mim do que a desistência perante a morte ou a ida ao seu encontro – já não estaria aqui se assim não fora. Mas vida e morte estão por vezes demasiado próximas e o conflito entre elas que tem lugar no meu espírito é muito antigo e muito complexo. 
Sou acompanhado por psicanalistas há muito tempo. Aquele com quem trabalho desde há alguns anos, e que é uma das peças-chave do puzzle da minha não-morte, recebeu como uma pancada a notícia do meu diagnóstico e, depois de uma breve conversa entrecortada de angústia e silêncio, lembro-me de lhe ter dito com um ar quase triunfante: “Nem sempre se pode ganhar, doutor…” Quem é que estava a falar assim pela minha boca? Quem é que experimentava em mim essa estranha alegria raivosa que emergira quando soube que tinha um cancro e que este era incurável? Que força psíquica queria que eu morresse, que as pessoas tivessem misericórdia de mim, se recordassem, me admirassem? Que parte de mim, velha e zangada, se aproveitava assim deste meu narcisismo para me arrastar para a morte? A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. 
Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga-me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida. Cada lágrima que me escorre por vezes pela cara ao adormecer, cada aperto de angústia na garganta que sinto quando acordo de manhã e me lembro de que tenho cancro, cada assomo de tristeza que me obriga a sentar-me por vezes à beira do caminho quando vou passear com os cães e interrompe a oração ou a conversa com o céu que me embalava o espírito, cada um destes sinais provém do falhanço momentâneo do amor dos outros em amparar-me, e sobretudo do meu em permitir-lhes que me acompanhem. Quando, pelo contrário, decorre um dia em que consigo escrever e gosto daquilo que escrevo, em que me curvo sobre os canteiros para cortar ervas daninhas, em que admiro amorosamente a energia da Patrícia sentada ao computador ou a trazer lenha para casa, quando isto sucede, o meu tempo já não é o Tempo Comum mas antes um longo domingo de Páscoa: sinto a presença amorosa de todos os que precisam de mim e d’Aquele de quem eu preciso. 
O médico homeopata nunca me prometeu um milagre, e a minha saúde começou a piorar em Janeiro de 2014, cerca de um ano e meio depois do diagnóstico oncológico. Pouca coisa, ao princípio: algumas dores no pescoço, na cabeça e na garganta, mais cansaço, problemas intestinais. Pouco a pouco, desapareceram ou tornaram-se-me impossíveis, um por um, todos os prazeres físicos de cujo timbre e tom já quase me esqueci: o sexo, beber um copo de vinho tinto antes do jantar, fazer uma viagem com mais de duas ou três horas, o gosto da comida sólida a percorrer-me o interior da garganta com os seus variados sabores e texturas, uma corrida com os miúdos ou os cães. Houve semanas piores, outras melhores, mas o tumor do meu pescoço foi crescendo, rebentou como um pequeno vulcão de pus, e ficou pouco a pouco com um aspecto tão abominável que deixei de aguentar ser eu a mudar o penso todas as manhãs. 
O terrível panorama estragava-me o dia e a melancólica e repugnante tarefa de cuidar do tumor ficou adstrita à Patrícia, que sabe fazer tudo e não tem nojo de nada. Mais tarde, alternando com ela, começaram a vir regularmente a minha casa as enfermeiras dos serviços continuados de saúde. E, de repente, ia morrendo: uma grande hemorragia despertou-me a meio de uma noite de Julho de 2014, encharcado no sangue que brotava de uma veia que o tumor do meu pescoço pôs a descoberto e enfraqueceu. Desmaiei imediatamente e a Patrícia, não conseguindo ao princípio acordar-me, pensou que tudo estava acabado. Ganhei depois, com lentidão e a custo, uma relativa saúde. Passei dias inteiros deitado. Depois, devagarinho, melhorei. Uma nova hemorragia, em Dezembro, embora não tenha atingido a violência da anterior, obrigou-me a considerar uma transfusão de sangue que fiz num hospital que estava, como quase todos nessa época, mergulhado num tal caos que passei um dia simultaneamente divertido e ofendido a observar a desordem que grassava à minha volta. 
As duas perdas de sangue fizeram pender a balança para o lado da minha morte interior: regressei à melancolia com que me sentava à sua cabeceira conversando com ela nas duríssimas semanas do Verão de 2012 que se seguiram ao veredicto do cancro. Como é que vou morrer? Exactamente como?, perguntava-lhe. Não me referia à chamada morte natural, que nunca me tinha ocorrido desde o primeiro dia da doença. Falava da morte infligida por mim próprio. Entretanto, porém, o cristianismo, que estava quase esquecido desde o meu baptismo, irrompeu pela minha vida através da palavra de um Padre que é outra peça-chave do puzzle, mas desta vez, e ao invés do psicanalista, do puzzle do meu encontro feliz com a morte. 
O suicídio é uma ofensa frontal à vontade de Deus que quer que a morte de cada cristão seja a sua disponibilidade para se entregar à Cruz no momento em que Cristo quiser e da maneira que Ele decidir. Mas eu e a Patrícia tínhamos jurado que eu morrerei aqui, em minha casa, e que nada me fará embarcar no carnaval de luzes da ambulância para ir morrer a um hospital. Esse juramento mantém-se. Tomámos esta decisão mal tínhamos saído do parque de estacionamento da clínica onde fiz a TAC e ouvi o diagnóstico. No meu espírito doente, a morte celebrava jubilosamente a vitória desse momento e era-me tão impossível controlar ou combater este sentimento como invocar a luz da esperança, encolhida num canto de mim como um miúdo paralisado de terror.
Enquanto regressávamos a casa, eu pensava na dificuldade e nos riscos envolvidos no modo como morreu o meu irmão, pensava no salto de uma ponte, pensava na agonia do veneno, na ignorância sobre medicamentos letais, mas sobretudo no facto de que todos estes caminhos da morte ainda concedem ao suicida o tempo suficiente para se arrepender, precisamente aquilo que eu não queria na altura, mergulhado num tumulto mental que julgava mais voluntário e corajoso do que de facto era. Experimentei por vezes os movimentos da dramatização da minha morte, uma espécie de novela sem invenção e sem vida cujo maior óbice era o de saber se, na altura definitiva, teria a certeza absoluta de não haver outra solução. Conseguiria deitar fora como se fossem trocos sem valor os restos de vida que continuam a cintilar dentro de mim? E se me enganasse? Se não fossem meros desperdícios? Se valessem mais do que a escuridão silenciosa do túmulo onde vou apodrecer?
Aquando da segunda hemorragia, cheguei-me muito próximo de encontrar uma resposta sem alternativa a estas questões. Depois de fechar os cães e de me despedir brevemente da Patrícia, sufocada de pavor e lágrimas, ajoelhada no chão sem conseguir olhar para mim, saí de casa transportando a arma e uma cadeira de plástico onde me sentar com a coronha da arma apoiada no solo. Quase não tinha forças e tremiam-me as pernas. A minha camisa estava empapada em sangue e, tendo passado a mão pela cara e os óculos, vi as árvores, os arbustos, a casa das ferramentas e do tractor, a encosta, a vinha, através de um nevoeiro vermelho. A decisão com que, apesar da fraqueza física, andei sem hesitar algumas dezenas de passos, surpreendeu-me a mim mesmo. Pronto, ia morrer. Aspirei o cheiro intenso, quase ridente, de uma hortelã-pimenta que nascera ao pé do pinheiro grande sem que, até então, alguém tivesse dado por ela. Coloquei a cadeira junto a uns troncos cortados, sentei-me e, já com os canos da arma na boca, o dedo aflorou o gatilho. Senti o metal como uma coisa sem qualidade, cálida, mortiça, dócil. Tudo me pareceu vagamente ridículo, o meu gesto, os objectos de que me rodeara. Veio até mim mais uma vez o cheiro da hortelã. Ergui os olhos que tinha fixados na guarda do gatilho e vi um pinhal que o sol, através de uma abertura nas nuvens, isolava, dourado, do verde-escuro da encosta.
Ocorreu-me de repente uma vaga de alegria inexplicável, como se fosse um sinal da presença de Deus à semelhança daqueles que os textos sagrados referem por vezes. Cheguei à mais simples conclusão do mundo: estava vivo e, enquanto assim estivesse, não estava morto. Fiquei verdadeiramente contente, a vida a fervilhar em todas as veias, mesmo as estragadas. Pousei a arma no chão e regressei a casa. Não olhei para trás, para a cadeira branca e a arma, que ficaram ali completamente indiferentes à minha sorte. Ao abrir a porta, a Patrícia, sem conseguir dominar a torrente de lágrimas que lhe corria pelo rosto, caiu-me nos braços. Ficámos muito tempo agarrados um ao outro, quase imóveis, como se fôssemos o tronco de uma grande árvore. Não há muito mais a contar. A saúde vai piorando pé ante pé. Deixei para trás a ideia de suicídio por uma razão muito simples que levou demasiado tempo a descobrir. Ei-la nas palavras que Mateus atribui a Cristo (Mt 10, 39), palavras que iluminaram como um relâmpago – e finalmente resolveram no meu coração – a maneira hesitante como lidei com o sofrimento nestes mais de mil dias: “Aquele que conservar a vida para si, há-de perdê-la; aquele que perder a sua vida por causa de mim, há-de salvá-la”.

S. Domingos, Podentes, 10 de Abril de 2015