sábado, 14 de maio de 2016

VEM AÍ O FESTIVAL LITERÁRIO DA GARDUNHA

Com a declaração de interesses de participar, desde o início (e esta é a terceira edição!) na organização do FLG, divulgo hoje aos meus Leitores o Programa do Festival Literário da Gardunha, que se realiza na próxima semana, no Fundão. É um momento cultural que reúne ficcionistas, poetas e ensaístas, com uma raiz na Viagem, este ano na perspectiva de (r)escrever a paisagem. Um Festival móvel, que vai sempre ao coração da Gardunha, e este ano tem na conferência inaugural um escritor de dimensão europeia, César António Molina, que foi ministro da Cultura do governo do PSOE, director do Instituto Cervantes, e é director da Casa do Leitor, em Madrid. Um Festival, também, com música e poesia, na viagem que, no dia 21, às 21.30, que Mário Laginha e Camané nos vão oferecer.
Então, meus amigos, juntem-se a nós!


sexta-feira, 13 de maio de 2016

CAMINHAR

César António Molina é uma das figuras centrais da III edição do Festival Literário da Gardunha que, na próxima semana se inicia no Fundão, culminando com um diversificado encontro de escritores e ensaístas, nos dias 21 e 22 de Maio, onde não falta, no dia 21, o concerto de Mário Laginha e Camané. César António Molina profere a conferência de abertura do Festival e o antigo ministro da Cultura, ex-director do Instituto Cervantes, e actual director da Casa do Leitor, de Madrid, traz ao Festival Literário uma dimensão ibérica, que, aliás, vem da primeira edição, e que deseja que seja sua imagem de marca, juntamente com a gravitação em outros horizontes, como os da lusofonia.
Mas se agora trago à minha escrita o grande escritor espanhol, poeta e ficcionista celebrado em vários países europeus, é porque o "El Pais" publicou uma desenvolvida matéria sobre César António Molina e o seu sexto volume das suas Memórias de Ficção. Achei curiosa a espécie de legenda de vida que Molina colheu do pai e que lhe tem servido de guia, ao longo da vida: "tudo se resolve caminhando". É a frase que serve de título ao seu último livro. Diz César Molina: "Desde então, caminhar tem sido a minha melhor maneira de pensar, de sonhar, de reflectir. E, além disso, na minha vida, elegi sempre os caminhos mais difíceis que para mim foram os melhores". Palavras sábias. Caminhar, viver, respirar. Procurar nos detalhes das pequenas ruas, no chão de bosques fantásticos, nos caminhos debruados de pedras, nos campos de flores, nas árvores que elevam os altos ramos para o céu, a dimensão do sonho que os olhos nos podem oferecer. Caminhar. "Tudo se resolve caminhando", diz o escritor, e se fizermos uma introspecção ao tempo que vivemos, havemos de nos emocionar se um dia olharmos a espantosa escultura de Giacometti, O homem que caminha, sinal de libertação. Porque "el camino se hace andando", disse o grande poeta António Machado. Caminhemos, então, para fazer caminho, para olhar o rumor do mundo, buscar poesia nas pequena ou grandes aventuras quotidianas que, às vezes, dizia o poeta, são a nossa descoberta de todos os dias.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

HUMANIDADES

Às vezes, é bom parar para pensar um pouco e olhar para a realidade com olhos de ver, isto é, sacudir a persistência daquele pensamento que mercantiliza tudo -- até o coração. O propósito de afastar a cultura do quotidiano, como coisa supletiva, o esvaziamento da Escola (nas suas várias vertentes) da dimensão humanista, como se nessa matriz não residisse a sua grande razão de ser, apenas fez avançar inelutavelmente o deserto, deserto de irracionalidade e de absurdo.
Eu parei então um pouco para ler uma excelente crónica de Félix de Azua, no "El Pais", em que se abordava este tema, com grande desassombro. "A liquidação das humanidades na educação espanhola não é só um erro atribuível ao mercantilismo obsessivo, é, também, um modo de desarmar a população mais desamparada", diz o cronista. Onde ele fala de educação espanhola, poderíamos nós dizer, com inteira propriedade, educação portuguesa. Félix de Azúa caracteriza a situação da seguinte forma: "Como escreve Jordi Ibañez, no seu extraordinário estudo O reverso da história, a política educativa espanhola "não é que seja nem torpe nem má, mas directamente estúpida. E isso é assim porque só tem duas faces: os cinzentos  tecnocratas adornados de um cinismo compassivo, ou os cínicos ilusionistas que acomodam o seu discurso à fabricação oportunista de uma nova maioria. Em ambos os casos, destrói-se a possibilidade de que a cultura humanista ensine "a pensar criticamente com um pensamento não orientado a fins meramente profissionais e técnicos". O autor de O reverso da história acredita, com Lévi-Strauss, que a universidade "se entregou à inevitável coligação entre o infantilismo de massas estudantis e o corporativismo dos docentes", e o resultado é "o adoçamento e a degradação educativa".
Estranhamente, ou nem tanto, ninguém discute abertamente estas questões. Também por cá, o conformismo é de oiro!

terça-feira, 10 de maio de 2016

ESQUADRÕES DA MORTE

Uma das coisas que mais inquieta o inventário dos dias é a banalidade com que a humanidade é ferida a toda a hora, por ofensas à dignidade humana, por genocídios continuados, por fatalidades organizadas por torcionários visíveis ou ocultos. "Isto dá vontade de chorar!", dizia-me há dias um amigo, enquanto abria o jornal e apontava com o dedo para essas malfeitorias avulsas contra o legado civilizacional, que é a própria dimensão do homem se fazer a si próprio. Andam por aí muitos, com outros eufemismos, a gritar "Viva la muerte!", como o general fascista de Franco, Milan Astray, a quem Unamuno, de viva voz, na Universidade de Salamanca, chamou de "aleijão moral".
Leio, por exemplo, no jornal, que o candidato a Presidente das Filipinas defende esquadrões da morte e diz que gostaria de ter violado uma freira!. Esquadrões da morte? A memória iluminou-se logo com uma tenebrosa organização, ao serviço das ditaduras militares no Brasil, que cometeram crimes hediondos que moralmente nunca prescrevem. E lembrei-me, por isso, daquele deputado energúmeno, que no lamentável Congresso brasileiro fez o elogio do "coronel", torturador (sabe-se lá se matador!) que abençoou alarvemente por ter sido o terror de Dilma, no exercício da tortura.
É. O meu amigo tem razão: isto dá vontade de chorar! O inventário dos dias dilata a inquietação comum.

domingo, 8 de maio de 2016

O POETA QUE PÕE TUDO EM QUESTÃO

Hoje, no Paul, na Casa de Cultura José Marmelo e Silva, a homenagem ao poeta e ensaísta E. M. de Melo Castro, foi um momento de altíssima qualidade. As intervenções dos Professores Rui Torres e Arnaldo Saraiva fizeram luz sobre a dimensão da obra poética e ensaística de Melo e Castro, não esquecendo, acrescento eu, a sua intervenção como agitador de ideias e de inovação na então triste comarca das letras portuguesas. Nelson Marmelo e Silva apresentou o homenageado percorrendo a sua obra.
Foi lembrado, e bem, a acção cultural de E.M. de Melo e Castro no Brasil, onde se radicou há anos. Ali espalha saber e conhecimento pelas universidades e no Brasil já publicou cerca de duas dezenas de livros, numa fecunda actividade criadora. O Prof. Rui Torres diria, a certa altura, que o interesse das universidades brasileiras contrasta com a indiferença das portuguesas e, com alguma ironia, assinalou mesmo que faltam doutoramentos honoris causa... Lembrei-me da UBI, claro, que tem um Departamento de Artes e Letras.
Na biografia de Melo e Castro há múltiplas ocupações do engenheiro têxtil que cruzou sempre a sabedoria de tecer -- tecer palavras e versos. E Arnaldo Saraiva, falando da Beira e da Covilhã, da terra, exemplificou com poemas de E.M. de Melo e Castro alusões ao território da infância, a serra, o vale, o rio, sem nunca, no entanto, aludir a qualquer topónimo.
Foi bom estar com o poeta e ensaísta. E, ao almoço, correram velozes memórias antigas, quando o tempo era de moral bafienta e de repressão. Eu lembrei o célebre julgamento no Plenário em que, além de Melo e Castro, estavam acusados Natália Correia, Luiz Pacheco, o editor Fernando Melo, autores do nefando crime de terem publicado a Antologia da Poesia Erótico-Satírica, um grosso volume, hoje referencial na história da literatura portuguesa, subversão pura, ofensas aos bons costumes e à moral da ordem reinante, a boa ordem dos cemitérios.
-- Foi quando o Melo e Castro -- lembrei eu -- perguntou ao juiz: "Mas excelentíssimo senhor, V. Ex.ª julga que pode cortar o sexo às pessoas?"
Melo e Castro sorriu e recordou o quadro: o juiz, "o Bernardino da Facada", a espumar de raiva, a audiência à porta fechada, polícias de metralhadoras apontadas aos réus...  Claro que a pergunta agravou a pena ao prevaricador...
História do tempo do "país sem olhos e sem boca".
Como diria o Chico, foi bonita a festa, pá! E foi bom poder dar um abraço amigo a E.M. de Melo e Castro. Mais um serviço que a Casa de Cultura José Marmelo e Silva prestou à Covilhã e à região. Embora, claro, muitos não saibam.

DIAS DA MÚSICA EM CASTELO BRANCO

Foi o Eugénio de Andrade que nos seus versos disse sobre a Música que ela é capaz de "acariciar a mais longínqua das estrelas". Só quem é capaz de sonhar através da Música pode alcançar essa transcendência de que fala o poeta, essa grandeza de conhecimento, essa dimensão onírica do pensamento, pois nos versos do autor de As Mãos e os Frutos, a Música "como se nada dissesse vai/afinal dizendo tudo". Pensava nisto à medida que este fim-de-semana (sexta e sábado) interiorizava como a "divina arte" está a povoar Castelo Branco de momentos excepcionais, numa cidade com uma rede de equipamentos tão dignos como os de qualquer cidade europeia.
Castelo Branco também tem Dias da Música! E tudo acontece numa programação de rigor e qualidade, que possibilita essas vivências culturais como coisas naturais à escala do quotidiano. É verdade que a cidade tem no Conservatório e na Escola Superior de Artes raízes fundas para o alargamento desse interesse colectivo pela música, visível nos auditórios esgotados e nas apoteoses que se vivem como grandes festas da cultura. O êxito também reside na programação cuidada -- e apontada à diversidade que as artes impõem -- que tem sido o labor discreto, mas de grande eficácia na criação de públicos, de Carlos Semedo.
Ontem, na noite de tempestade que assolava a região, o auditório do Cine-Teatro Avenida, esgotadíssimo, deslumbrava-se com o concerto da Orquestra Gulbenkian que teve momentos verdadeiramente inolvidáveis no Concerto para Piano e Orquestra de Mário Laginha, uma peça sinfónica excepcional, onde o compositor combinou de uma forma muito bela uma doce nostalgia com a expressão de uma modernidade que nele é imagem de marca, sobretudo com as influências do jazz, que é sua grande paixão. Logo aí, o público aplaudiu Laginha e os músicos com vibrante entusiasmo.
Antes, a Orquestra Gulbenkian, dirigida pelo maestro Pedro Neves, tinha já tocado a Abertura Sinfónica n.º 3, de Joly Braga Santos, uma espécie de mote para a noite triunfal que se viveu e de que a execução da Sinfonia N.º 5, de Ludwig van Beethoven, se tornou acontecimento quase épico, pois a música do génio tem sempre a dimensão de estar para além do tempo e ser sempre glorificação maior da criação.
Então, na noite tempestuosa, lá fora, o Cine-Teatro Avenida era um reduto de sol (sol metafórico para aquecer corações) e de luz, de verdadeira Primavera, que se vivia intensamente à volta da "nossa companheira música".
Já no dia anterior, no auditório do Centro de Cultura Contemporânea, o Recital de Piano de Lilian Akopova que, durante cerca de duas horas, tocou Schumann, Rachmaninov, Arno Babadjanian, Mendolssohn, Debussy e Ginastera, foi outro instante único. A jovem pianista, de 32 anos, fascinou o público, num diálogo profundo com o piano, na respiração do seu corpo com a música. No final o público rompeu  em demorados aplausos, sinal da grande apoteose vivida por todos.
Assim vão os Dias da Música em Castelo Branco. E durante o mês de Maio, veja o Leitor o que a Cidade lhe oferece na tal programação musical de luxo, de que falávamos no início: Olga Prats e Alexandro Erlich Oliva (11 de Maio), Arte D' arco di corda e di Tasto (19 de Maio), Andrey Baranov e Inga Dzektser (25 de Maio). E a festa promete continuar em Junho. A não perder, claro.