domingo, 15 de maio de 2016

ESCOLA DE NÁUFRAGOS, DE JAIME ROCHA

A escrita de Jaime Rocha é sempre fascinante pelo que potencia de descoberta e de surpresa sobre o real. A obra vastíssima, de voo singular na originalidade da sua arquitectura, percorre com inquietação criadora a poesia, a ficção e o teatro. Na dramaturgia combina um fascínio pelo recorte clássico do teatro grego (como em Agamémnon - A Herança das Sombras ou Filoctetes -- A Condição do Guerreiro), com uma reflexão profunda sobre a temporalidade da condição humana e a sua projecção na actualidade, o que faz dele um dos autores capitais do moderno teatro português.
Gosto de sublinhar o facto de Jaime Rocha, no plano mais vasto da sua reflexão cultural sobre o território nacional, ser atento àquilo que se passa no interior português, na perspectiva de que, embora não pareça, às vezes essa insularidade está "cheia de vozes".  Podemos encontrá-lo a escrever o texto dramático Transviriato, em 2001, editado e representado pelo Trigo Limpo Teatro Acert, o grupo fantástico de Tondela, ou a participar em residências artísticas no Centro de Artes de Vila Velha de Ródão ou no Festival Literário da Gardunha, onde esteve o ano passado, com Hélia Correia. É um autor muito premiado, o que atesta o reconhecimento público pela sua obra.
Mas hoje quero aqui falar do Jaime Rocha a propósito do seu último livro de ficção, Escola de Náufragos, que é modelar naquilo que o escritor representa na incessante reelaboração da memória. Escola de Náufragos é uma revisitação dos territórios da infância: adivinha-se a Nazaré e a expressão dramática dos quotidianos dos pescadores. Nas palavras amigas que me enviou, com o livro, fala de Escola de Náufragos como "reconstituição da memória de infância, a aprendizagem da tragédia, o testemunho passado pelos velhos pescadores na cama dos mortos".
Se o começo de um livro é sempre contingente, Jaime Rocha superou bem a contingência com um registo narrativo que começa assim:
"Não sei como as árvores conseguem manter-se no mesmo lugar de sempre, recebendo o mesmo vento e as mesmas tempestades, secas pelo sol e humedecidas pelo cacimbo da noite. Tudo num silêncio só alterado pela inquietação dos pássaros. É a visão do real que se reflecte no pensamento de uma criança e indica, desde já,a a sua presença neste texto, junto a uma casa, com os vidros partidos. É o seu olhar fixo na água que escorre para o soalho e o seu corpo que integra a própria matéria das paredes, a malignidade que se impregnou nos alicerces".
Conhecendo, como conheço, a escrita de Jaime Rocha, Escola de Náufragos é, mais uma vez, ir em busca do prazer da leitura, de uma respiração de palavras que nos deixa muitas vezes, suspenso, palavras que iluminam textos como este, que aqui ofereço aos meus Leitores:
"Estavas ali sentado ao meu lado e eu a dizer-te como se saía da infância para a vida do mar. Ali, à minha frente, à escuta, e eu a ver-te crescer, a encheres o peito de ar e os olhos a dilatarem-se, a quereres ser homem de repente. E então, eu olhei, eu vi para dentro de ti, o que estava lá dentro, uma mancha negra por detrás da pele da tua testa que alastrava para os lados, a toda a volta da cabeça, como uma cinta preta que se cosia na nuca, uma costura que podia rebentar a cada momento, mas que sabia que estava à espera do momento certo para se partir, o momento em que perderias o medo e toda a gente te respeitaria pelo que irias ser, um homem marcado pelo destino, um homem arraçado. Eu vi que tu estás feito para uma morte diferente da dos outros, que não irás nunca para o Bacalhau, nem uma vez que seja entrarás no mar como pescador. Tu és feito de uma outra coisa, os teus ossos e a tua carne foram cruzados por vários sangues. E eu apenas estava ali, ao pé de ti,a passar-te um testemunho antes de morrer".
Magnífico, Jaime Rocha!