sexta-feira, 27 de maio de 2016

CAMPOS COSTA E A MÚSICA

Esta fotografia tem 42 anos, de Janeiro de 1974, e é uma imagem do aniversário do "Jornal do Fundão". Estão lá Campos Costa e Fernando Lopes Graça. Estão seguramente a falar de música. Olho para a imagem, recordo com saudade o compositor Lopes Graça e faço um aceno de ternura ao maestro Campos Costa.
No país do esquecimento, é preciso dizer que Campos Costa teve grande importância na afirmação cultural da Covilhã, sobretudo na divulgação da música clássica, na sua vertente coral, num trabalho persistente com as associações, o Conservatório e o Orfeão, na promoção dos Concursos de Piano, e, mais recentemente, na realização das edições do Concurso Júlio Cardona. Sempre contra ventos e marés!
Lembro-me bem de, por alturas do Concurso de Piano, que ele conseguia materializar superando todos os bloqueios, eu subir ao escritório da fábrica onde o maestro Campos Costa era contabilista respeitado. Fazia-se, então, uma pausa nos números, para a conversa girar sobre a música e eu trazer a matéria publicável no jornal. Comecei aí a perceber quem era Campos Costa.
Não esqueço o que ouvi do querido Lopes Graça e de João de Freitas de Branco a propósito dessa iniciativa do Concurso de Piano que, antes do 25 de Abril, levou longe o nome da Covilhã. Mal se pode imaginar o que aqueles dias representavam numa cidade em que a cultura era, também, matéria de liberdade vigiada. Lopes Graça e João de Freitas Branco, que vinham com gosto à Covilhã participar nos júris, consideravam tudo aquilo uma iniciativa extraordinária ("um quase "milagre": mas eles não acreditavam em milagres...), que tinha lugar na periferia, longe de Lisboa, e se Lisboa era longe, caramba!
Há tempos que não vejo Campos Costa ou falo com ele, mas lembro-me sempre da sua palavra serena e do capital de esperança que ele transmitia, quando tudo parecia desabar à nossa beira. Tenho muita ternura por ele e pela sua obra. Um homem notável que foi autodidacta e penso que o esforço e o trabalho de aprendizagem da música e da sua revelação foram sempre, nele, uma afirmação de direito à criação.
Pego na fotografia, outra vez, para a olhar melhor, e penso no que a Covilhã deve a este homem bom.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

BONS SENTIMENTOS

Há dias, os jornais publicaram uma notícia que dizia: a indústria farmacêutica americana vai deixar de poder fornecer as injeções letais com que são mortos, em muitos Estados, os condenados à morte, nos EUA. A informação passou rápida como um vento e não deu azo a grandes comentários de pessoas sensíveis, porventura aquelas que, dizia um poema de Sophia, não gostam de matar galinhas, mas gostam de comer galinhas...
Aparentemente, uma forma mais suave morrer, o método revelou-se também uma técnica de açougue nem sempre eficaz e não faltam exemplos de condenados a quem a dose letal não conseguiu limpar da vida à primeira. Mas não deve haver muitas angústias no universo daqueles para quem a vida é apenas um canto do carrasco. Há, mesmo, nesse antro em que Justiça e crime andam de mãos dadas, uma larga especialização da morte servida em doses de crueldade graduada por câmaras de gaz, fuzilamento, forca e outras formas expeditas como a guilhotina ou o pescoço no cepo, que foram caindo em desuso pelo alto dramatismo que o espectáculo podia causar nas tais pessoas sensíveis.
Estes casos das condenações à morte em Estados dos EUA têm desencadeado muitas e massivas manifestações de protesto e produzido denúncias em literatura e cinema sobre os corredores da morte, mas na maior parte dos casos os justicialistas não se comovem com lágrimas. E a pena de morte vai vingando...
Num país que tem sempre na ponta da língua os direitos humanos -- para os outros, claro! -- causa não poucas perplexidades esta persistência de desumanidade e de desvalorização da vida do sistema americano.
Terão acabado as injeções letais -- acabaram mesmo? Mas não faltarão, para substituí-las, recursos tecnológicos para ampliar a eficácia do matadouro. O resto é silêncio. Silêncio de morte.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

DIAS DE LUZ À VOLTA DA PAISAGEM

Os meus queridos Leitores hão-de perdoar-me este silêncio de quase dez dias, mas não foram férias de escrita, que às vezes é preciso fazer, ou de outro tipo, que também é bom interromper o inventário dos dias, mas antes trabalhos de raro prazer à volta do Festival Literário da Gardunha, que decorreu a semana passada, no Fundão, e foi acontecimento cultural relevante, à escala da região e do país. Digo isto, e penso que o faço com o distanciamento possível de quem esteve na organização da iniciativa, desde a primeira edição.
Quem tiver memória sabe da expressão nacional que o Fundão teve no plano cultural, antes do 25 de Abril, quando a cultura era uma perigosa área de resistência, e, ao mesmo tempo, uma respiração arterial indispensável à própria afirmação criadora de um país "vestido de grades". Tudo aconteceu nesse tempo, numa relação de proximidade com os maiores nomes da literatura portuguesa, mas também com grandes escritores brasileiros, de Erico Veríssimo a João Cabral de Melo Neto ou Drummond, tudo acontecendo pela ousadia visionária de António Paulouro e do seu "Jornal do Fundão", que tinha na cultura a pedra angular onde tudo começava. Eu vivi esses acontecimentos, estive por dentro deles, dei-lhes continuidade, e, por isso, não se estranhou que desde o início do Festival Literário da Gardunha o tivesse compreendido como uma ponte temporal com esses tempos gloriosos, em que o Fundão era, muitas vezes, o centro de tudo.
No fundo, havendo essa raiz, seria estulto não a revitalizar, depois de anos e anos de inércia e desinteresse (as pistolas de trazer por casa contra a cultura!), na materialização de inscrever o Fundão e as suas fortes tradições culturais na cartografia actual dos acontecimentos literários, potenciando um diálogo ibérico que possa viajar mesmo por cima de outras fronteiras.
Esta terceira edição do Festival Literário da Gardunha, que reuniu cerca de trinta escritores, desde ficcionistas e poetas a ensaístas, que teve tertúlias e lançamentos de livros, e a música de Mário Laginha e o canto de Camané, assumiu na qualidade e elevação do diálogo dos vários painéis, sempre de conversa livre entre os intervenientes, um traço identificador e distintivo do próprio Festival, num ambiente fraterno e de seriedade, que já o singularizou de iniciativas congéneres. No seu Blogue Da Literatura, Eduardo Pita dá, de certo modo, essa dimensão, no texto Notebook da Gardunha.
Borges dizia: sempre que há muitos escritores reunidos, não se deve citar nenhum, em particular. Acredito que sim, mas neste caso tenho que violar a recomendação do Mestre, para dizer apenas que a presença de César António Molina, que proferiu brilhante conferência de abertura e eu tive a honra de apresentar foi um momento muito alto (um dia destes falarei do seu último livro Todo se arregla caminando, que é uma obra fascinante). E, já agora, um aceno especial a Gonçalo M. Tavares e a Dulce Maria Cardoso, que contactaram com alunos e enriqueceram, também, o debate sobre "Escrever a Paisagem". A qualidade e a transversalidade temática das intervenções, que foram gravadas, bem mereciam publicação.
Dias cheios de luz.