sábado, 4 de junho de 2016

ABRE OS OLHOS E VERÁS...

As fotos são de Maria Eugénia Ferrão
Penso que não há coisa mais fascinante do que aquela centelha de tempo que, no jogo das circunstâncias, emerge do quotidiano e se torna luz naquilo que é a dilatação do conhecimento, quando este nasce da partilha de um saber que cava fundo na descoberta do pequeno mundo que habitamos, e, sobretudo, quando tudo isso acontece porque quem nos abre os horizontes e o olhar pertence àquelas pessoas, que são sempre restritas, muito restritas, e por uma vida de dedicação ao estudo e à cultura (na sua acepção mais ampla) podem ser consideradas na categoria de sábios. Não sábios de redoma e de retórica de salão académico, mas sábios verdadeiros, pela forma como articulam os saberes acumulados no tempo com a comum humanidade da condição humana ou com a realidade primordial do mundo elemental e a afirmação de um sentimento de pertença colectiva expresso na relação do homem com a Natureza. Eu estou a falar de uma jornada fantástica que tive o privilégio de partilhar com o Prof. Jorge Paiva e quase coloco a medo o qualificativo de sábio sobre o seu nome porque sei do seu despojamento total em relação à liturgia do elogio e às palmas de galeria dos corredores do poder, da sua modéstia tão natural que nos deixa espantados, da sua naturalidade em oferecer aos outros tudo aquilo que sabe.
Ele viera à UBI fazer quinta-feira uma conferência, que foi momento alto, e veio, depois, por teimosia minha, ao Fundão, para ver o Parque do Convento (que ele considerou importante pelas espécies autóctones, nossas, que são a sua matriz, e logo se dispôs a vir estudá-lo!), o Cerejal da Gardunha, a estrada verde que liga o Fundão a Alpedrinha, e, claro, a Portela da Gardunha, de onde se divisa a fronteira entre o Portugal Atlântico e o Portugal Mediterrânico, como ensinou Orlando Ribeiro.
Mas ontem, fomos mais longe. Às oito e trinta, partíamos da Covilhã com o Prof. Jorge Paiva, o autor destas linhas, a Prof. Maria Eugénia Ferrão, a verdadeira responsável pela vinda do Mestre à UBI e à região e que logo foi nomeada fotógrafa oficial da expedição, e o Prof. José Rodrigues, que é um caminheiro exímio e conhece como a palma da mão montes e vales. Íamos para a Margaraça, a mata monumental que é uma espécie de filha de Jorge Paiva (a batalha que ele travou para que fosse zona protegida do ICN!), mas a viagem, à medida que nos introduzimos na Serra da Estrela, foi uma lição permanente. À beira da estrada, o Professor mandava parar para nos mostrar pequenos exemplares da flora serrana que, vistos à lupa, eram coisas admiráveis. Foram muitas as singularidades da vida vegetal e da harmonização do seu funcionamento (a história de vida das plantas) que fomos armazenando, e mais adiante, quando começávamos a desviar-nos em busca da Serra do Açor, logo apontava o Professor: acabou o granito e começa o xisto, fixem a mutação da paisagem e do coberto vegetal.
A estrada, é verdade, desdobra-se em mil curvas, mas de cada vez que isso acontece a paisagem abre-se em horizontes de grandeza a perder de vista. Os olhos bebem a paisagem. E quando entramos no coração do xisto, então o deslumbramento é total. À nossa surpresa e espanto, quase a pedirmos para parar e ver, Jorge Paiva dizia serenamente:
-- Tenham calma! Mais à frente, têm melhor!
E tínhamos.
Então, à medida que viajávamos em direcção a Piódão, com o sentido na Margaraça, repetiam-se paisagens fabulosas e quase intocadas, com o xisto dominante na arquitectura rudimentar que debruava o silêncio denso dos campos ou de povoados quase desertos, mas os vales que víamos lá ao fundo estavam também sulcados de aldeias, cuja brancura era contraste de sobriedade no mar verde dos montes. O Prof. Jorge Paiva exercia a sua pedagogia para vermos as coisas por dentro: aí tínhamos a topografia do território. Os rios, as ribeiras, os fios de água, a tipologia da floresta, era como se desdobrasse à nossa frente um mapa com a cartografia total do que os olhos podiam alcançar. E da sua observação, às vezes subia a indignação pelo abandono ou desinteresse de quem manda: "como é que estes tipos deixam destruir estas coisas, em qualquer país esta realidade estava salvaguardada" (falava dos socalcos e das suas imagens deslumbrantes). Várias vezes lhe ouvimos esse diagnóstico...
Na Mata da Margaraça foram tão intensos os momentos e surpreendentes as paisagens, tão prodigiosos os detalhes, tão funda a narrativa científica (sempre descodificada!) do Prof. Jorge Paiva, que agora me apetece classificar a jornada como indescritível. Impossível gravar na memória tanta informação preciosa. Foi assim quando subimos, tendo sempre à direita a presença imponente da Fraga da Pena, com a sua límpida música aquática, sempre visitada por muitos estrangeiros, ou, à tarde, depois de um almoço também memorável preparado pela D. Alice, na Benfeita, outra oferenda de Jorge Paiva, quando nos levou bem dentro da Mata da Margaraça. É um mundo fantástico que não cabe nas palavras. O Professor transferiu para nós o coração da mata: os monumentais castanheiros (além, um castinçal!), o carvalhal tão frondoso e de tão altos ramos que parece em busca do céu, a densa sombra, que contrasta com os espaços afluentes onde o sol consegue romper, a custo. E o Prof.Jorge Paiva: "vou mostrar-vos a floresta onde não há nenhum pedaço de erva, onde não existe tapete verde! Porque não entra o sol, não há luz, e falta a foto-síntese". De facto, o chão é tapete de folhas secas e não se vislumbra ponta de verde.
A determinada altura, diz-nos que a mata se tem alargado. E logo explica: vêem aqui estes buracos? São os apartamentos dos ratitos... que os javalis e as raposas procuram. Mas eles, na sua mobilidade, transportam castanhas e bolotas, e as árvores nascem mais longe. Por momentos, pensei estar a ler o nascimento da floresta, aquela soberba sinfonia verbal que o Aquilino escreve na abertura de A Casa Grande de Romarigães. 
Nesta aventura, o Prof. Jorge Paiva não deixou de nos mostrar azereiros e outras espécies que eram sobreviventes da laurissilva, bosques que sobreviveram na Madeira e nos Açores. Eu já tinha ido à Mata da Margaraça, há mais de trinta anos. Mas desta vez descobri uma outra realidade, tão forte que confirma aquela ideia de Saramago, ele, que nunca deixou de ser nos seus livros um viajante à volta de Portugal, que cada viagem é sempre um regresso. Porque quando tem uma dimensão tão grande, como esta que fizemos à Mata da Margaraça, ela fica para sempre no coração.
Ao fim de uma tarde tão cheia, quando deixámos o Prof. Jorge Paiva à porta do seu Gabinete na Universidade de Coimbra, só me ocorreu aquele verso do Armindo Rodrigues que diz: abre os olhos, e verás! Foi isso que durante todo o tempo ele nos convocou a fazer:abrir os olhos - e ver! E nós vimos.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

DUAS HISTÓRIAS

O Miró numa foto de Margarida Dias
Hoje, apetece-me trazer aqui duas histórias, uma do Jorge Listopad, outra minha. De Listopad, colhi-a do livro de que já aqui falei, Secos e Molhados, recheado de excelentes crónicas e da fina ironia que o Jorge trouxe de Praga, que tem marcado toda a sua obra. O livro é do início dos anos 80, mas quando o frequento, o que acontece amiúde, descubro coisas de actualidade, como esta pequena história que aqui deixo:

Como ensinar o filho

"Ó pai, esta firma chama-se Nacional. Quer dizer que é portuguesa?"
"Não necessariamente."
"Então, como se chama Nacional?"
"Chama-se Nacional em cada país onde existe."
"Não compreendo."
"Vai aprendendo que nem tudo o que se chama Nacional é de origem. Às vezes encobre um monopólio estranho."
"Qual é a língua deles?"
"A dos números."

*****

Agora, a minha:

O neto ensina o avô

Manhã cedo, oito horas da matina, o Francisco saltou da cama e começou a cirandar pela casa. Fui deambular com ele, inventar magias que nunca resultam, histórias que sobem sempre da realidade para o fantástico, que é do que os miúdos gostam, outros porquês que estão sempre na ponta da língua das crianças. O cão, o Miró, dormia enrolado no sofá, e, se abriu um olho para apurar as movimentações à sua volta, voltou logo a fechá-lo, ao peso do sono. Estava realmente a dormir.
Eu aproveitei para aquelas exteriorizações de ternura que os avós gostam de fazer aos netos, que são sempre o melhor dos mundos.
E o Francisco, muito rápido:
-- Oh, avô! Beijinhos de amor acordam o Miró!
O cão continuou a dormir.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

ÀS VEZES, TENHO SAUDADES...

Às vezes, tenho saudades de lugares e sabores que, de tão singulares no inventário dos dias, a memória, que dispensa sempre o supérfluo, gradua como coisas para lembrar. Nessa viagem, que visa sempre a descoberta de referências prodigiosas, paisagens e comida têm sempre dimensão de prazer que nos apetece, como desejo, voltar a elas, para chorar por mais.
Por mais dias que passem, não esquecerei o cabrito das Aradas, onde fiz expedições gastronómicas com amigos de perto e de longe, e a gastronomia, de tão autêntica, parecia ter o sortilégio de séculos de sabedoria, que as cozinheiros, senhoras de antiquíssimos saberes, exibiam com a naturalidade dos artistas quando produzem arte. Eu frequentava as Aradas com regularidade, na companhia do Diamantino Gonçalves.
A aldeia -- ou o lugar --ficava ao cimo de um vale onde um fio de água escasso transformava os campos em jardins. Um dia, com amigos de Lisboa, capitaneados pela curiosidade do Hélder Santos, fomos lá com um autocarro de alto turismo, todo apetrechado com as tecnologias da modernidade. O autocarro, que não cabia na pequena ponte,ficou longe, e os viajantes tiveram que dar ao pé para chegarem lá acima, às Aradas, onde ficava o restaurante.
A Casa de Pasto, digamos assim porque o qualificativo é bom, dividia-se por um café de aldeia para a população residual, e uma sala ampla de restaurante, sempre animada por legiões de comensais que, de várias partes do país, vinham ao "cheiro" deste cabrito ou também do bacalhau e de outras iguarias, que tudo ali era bom.
Claro que os meus amigos de Lisboa, experimentados em longas viagens onde a paparoca era sempre aspecto determinante, ficaram suspensos do "milagre" que acontecia nas Aradas. Passaram a ir lá, propositadamente, individualmente ou em grupo,para repetirem a degustação do bicho de carne tenra, alimentado nos verdes prados do vale ou nas montanhas.
Podia, também, falar no Arneiro, aldeia à beira Tejo, perto de Vila Velha de Ródão, onde, felizmente, se comem umas migas de peixe do outro mundo, se é que no outro mundo há iguarias destas, porque neste em que estamos elas podem ter sido abençoadas pelas imagens que os olhos podem colher do mais belo rio, numa passeata pelas margens, ou depois do deslumbramento das Portas de Ródão, que se vêem antes de se chegar ao Arneiro.
Andava nestas navegações de puro prazer da memória, que é sempre bom exercício, quando leio uma crónica muito curiosa de Manuel Vicent, no "El Pais", com o título Comer, ler, em que o escritor dizia que "ler e comer são duas formas de alimentação e também de sobrevivência" e "não saberia dizer qual é mais orgânica, mais íntima, mais necessária". E depois contextualizava: "Sucede que hoje os mais refinados crêem que comer é também uma filosofia e mastigam lentamente os alimentos pensando na sua natureza ontológica, imaginando o largo caminho que percorreram até chegar à mesa. Alguém lançou a semente, regou as hortaliças, podou os pomares, saiu de madrugada a pescar, apascentou o gado. Alguém os cozinhou com amor e sabedoria, com a cultura culinária que arranca do neolítico". "Os que comem assim tratam de converter também a sobremesa num exercício moral, quase místico e não necessitam nenhuma aprendizagem de tantos master chefs insuportáveis", acrescenta o cronista.
Noutro plano, "existem leitores esquisitos que lêem buscando em cada livro a ilha do tesouro e encontram sempre o cofre do pirata" e "hoje a cozinha e a leitura estão mudando de substância: a cozinha caiu debaixo da ditadura dos master chefs que exercem o papel de intermediários do gosto com seus pratos estruturalistas e a leitura instalou-se em suportes digitais que impõem as suas regras ao pensamento com as suas múltiplas aplicações".
Prevalece "a leitura rápida, breve, fragmentada, superficial, líquida e imediata", o que pode ser um empobrecimento, acrescento eu. Em síntese: "os novos cozinheiros obrigam-te a admirar as suas instalações artísticas no prato sem se preocuparem com o que sucede depois no estômago".
É, também por isso, que às vezes tenho saudades de outros lugares e de outros sabores.

terça-feira, 31 de maio de 2016

O SOL E OS ALTOS RAMOS

Hoje, à tarde: um céu fantástico que nos obriga a dirigir o olhar para o alto e um sol tão forte que nos faz tapar os olhos com as mãos. Afeiçoamos lentamente os olhos à claridade intensa. Que azul é este, tão puro e transparente que até breves nuvens navegam nele um pouco a medo e logo se dissolvem na abóbada cromática? Fixo lá os olhos, outra vez, para ficarem cheios da cor do mar e reparo que são apenas duas ou três as nuvens que flutuam muito brancas, riscando porventura sonhos no céu, como um aceno ao sol que, agora, sim, desperta aquele calor de Verão que apetece, e vai um dia destes entrar dentro da gente, sem pedir licença. O sol, então, distribui a luz fraternalmente para cumprir aquela utopia de ele nascer igual para todos. Finjamos que sim, que essa igualdade é real. Igual para tudo, acrescento já agora, pois nem é preciso chegar ao zénite para ele alcançar a totalidade do mundo elemental e físico por onde a vida caminha. É nessa abrangência que ele passa pelas ruas e pelas casas, alia-se, às vezes, à sombra, para nos ensinar a ver melhor os detalhes -- olha aquela casa de granito!, olha aquela janela!, olha aquelas árvores a ganharem outras tonalidades!, olha os verdes mais vivos ou outros mais suaves, mas todos a acenar-nos com os versos de Lorca: verde que te quiero verde! Agora, o sol viaja pelo Monte de S. Brás, com o Fundão a seus pés, poisa na Serra da Gardunha em todo o seu esplendor, nos seus bosques insondáveis, onde às vezes os altos ramos filtram a luz, mesmo com o sol a pino. É esta luz que por momentos nos deixa atónitos, pela explosão de beleza que é oferenda de deuses, e neste fim de tarde nos ensina afinal que cada instante pode ser um "milagre" vivido como aquela realidade que Goethe dizia da poesia: "a fala do infalável". Quer dizer, para se fruir como coisa pessoal e intransmissível, onde habitam continentes de ideias e de sonhos que voam com a brevidade da paisagem que se olha e não têm princípio nem fim.

JORGE PAIVA: O MAIS ÍNTIMO AMIGO DA NATUREZA

Eugénio de Andrade escolheu para título da sua Fotobiografia aquilo que ele julgou traduzir melhor o seu universo pessoal e que, no fundo, não era outra coisa senão trazer uma definição poética para o seu percurso biográfico, quero eu dizer: poético.
A vinda do Prof. Jorge Paiva esta semana à UBI e à região, levou-me à apropriação do título do poeta para modificá-lo e apô-lo ao nome do prestigiadíssimo botânico/biólogo, figura central do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, desta forma: o mais íntimo amigo da natureza. E, nesta formulação simples,  estaremos a dizer que haverá poucos, como o Prof. Jorge Paiva, que através de uma vida como professor, investigador, semeador de conhecimento e saberes, que partilhou sempre numa escala de vários continentes, poderá ser nomeado assim, com essa expressão afectiva de o mais íntimo amigo da natureza -- amigo das árvores e das plantas, dos rios que cantam, da biodiversidade como condição primordial da nossa casa comum, quer dizer: o amigo mais íntimo do território que ele quis sempre, e deseja com veemência, mais limpo e habitável.
Fiquei, por isso, naturalmente feliz, quando soube que o Prof. Jorge Paiva vinha proferir uma conferência sobre "Plantas, Mitos, Fabulações e Realidades" no dia 2 de Junho, quinta-feira, às14.30, na Faculdade de Ciências da Saúde/UBI (anfiteatro amarelo). E, mais ainda, por saber que no dia 3, sexta-feira, iria mostrar-nos, para podermos olhar com olhos de ver, a Mata da Margaraça, que é um reduto fantástico de património natural. Seria estulto dizer, por isso, que a presença do Prof. Jorge Paiva na região é um acontecimento cultural relevante e honroso para a própria Universidade da Beira Interior, que acolhe a conferência. Mas neste país a desinformação é tal, que...
Sobre o Prof. Jorge Paiva, cuja obra tem reconhecimento nacional e internacional, personalidade científica altamente premiada, é importante assinalar também, na sua condição de professor e investigador dedicado ao interesse público, um total despojamento material e uma vocação absolutamente invulgar para partilhar conhecimento e exercer uma pedagogia sem desmorecimento em escolas e comunidades, por esse país fora.
Curiosamente, a sua ligação a África consubstancia uma relação de muitos anos de porfiada investigação científica. Há anos, acompanhou os realizadores de um documentário precisamente sobre essa temática (sempre um regresso a Moçambique) e a reportagem do que foram esses dias, então publicada no "Público", é um documento fascinante pela revelação da descoberta ou pelas longas caminhadas que o Prof. Jorge Paiva dirigia à procura da flora perdida (a expressão é minha).
O jornalista anotou, então: "Jorge Paiva gosta de observar as coisas de perto, olhar para as plantas, senti-las, compreender por que é que estão onde estão. Num momento em que a ciência está cada vez mais focada no detalhe, Paiva é uma espécie de último naturalista português, com a visão ampla dos exploradores do passado".
É com ele que vamos estar quinta e sexta-feira.