sábado, 25 de junho de 2016

AS LÁGRIMAS DE DELORS!

Que diria Jacques Delors se assistisse à prolongada agonia do projecto europeu, aos desígnios neo-liberais da Comissão, transformada em zelosa capataz do capitalismo mais selvagem, se visse a subserviência da dimensão política da Europa em que ele acreditou aos comandos financeiros supranacionais, se olhasse para a subalternização dos valores (sim, a Europa dos cidadãos, a luta contra as desigualdades, sim, a Europa das regiões!), se percebesse o austeritarismo, essa forma de empobrecer brutalmente os cidadãos? Que diria ele, depois de saber que o Reino Unido decidira, em referendo, abandonar a União?
Choraria, decerto, lágrimas por saber que uns cavalheiros sem dimensão política de estadistas, serventuários de interesses esconsos, tinham não só delapidado o projecto mais fascinante ("mais extraordinário, democrático e solidário projecto político de todos os tempos", Miguel Sousa Tavares hoje no "Expresso"), como pregado muitos pregos no caixão da Europa, matando, duma penada, o legado civilizacional que a própria ideia europeia comporta.
A crise larvar em que a União Europeia se tem arrastado, a abdicação ética em relação aos princípios fundadores, os malabarismos conjunturais, a miserável actuação face ao problema dos refugiados, os jogos de conveniência dos mais fortes, o medo da prática democrática, tudo junto, não foi outra coisa senão uma espécie de morte antecipada.
Na verdade, o Reino Unido sempre esteve com um pé dentro da Europa e outro fora. E agora saiu com os dois, num acto de consequências imprevisíveis. Dizem, agora, que esta é a oportunidade para a Europa se reformar. Há quem não acredite, um fundo cepticismo invade muita gente. Os euro-cépticos aumentaram. Pacheco Pereira (hoje, no "Público") acha que "O Brexit pode ser o abanão de que a Europa precisa". Diz ele que "a saída do Reino Unido pode ser muito positiva para a União Europeia, que, já se viu, se não muda "a bem", só pode mudar "a mal".
O problema é que isso implica uma determinação outra e um pensamento político verdadeiramente autónomo dos capatazes do cifrão que hoje dominam as instâncias europeias...
Já agora, veja a excelente parábola sobre a União Europeia, da série "Yes, Minister!", ironia fina sobre a entrada do Reino Unido na UE.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

QUANDO BEIJAR ERA PROIBIDO!

Cartoon de João Abel Manta
Era um casal de jovens, mochila às costas, que parecia respirar já a antecipação das férias. Abriam ambos um sorriso de felicidade absoluta, e, quando estacionaram na esplanada, foi uma aleluia de alegria que poisou na sisudez circunstante. Poisaram as suas alfaias -- as mochilas onde parece que transportam o mundo -- numa cadeira vaga, e colocaram logo na mesa os computadores, afinal tinham trabalhos em agenda. Observei-os com maior atenção: seriam porventura da universidade, que tem uma população flutuante e juvenil admirável. Mas isso era, na composição da imagem, um factor acessório. O que verdadeiramente sobressaía era que ambos compunham um retrato de rara beleza. Ela, sobretudo, era um rosto luminoso, de olhos rasgados, um cabelo que lhe caía sobre os ombros, e sorria muito; ele, não lhe ficava atrás, cabeleira ao vento, mais contido nos gestos e nos sorrisos. Trabalhavam alegremente e a faina só foi interrompida quando ela disse:
-- Está um calor! Apetece-me um gelado...
Ele disse que sim, que era boa ideia, mas foi ela que os foi buscar, com gestos e passos elásticos de bailarina, sem que antes perguntasse, a meio da viagem:
-- Que sabores queres?
Ele levantou a cabeça, e sorriu:
-- Morango e chocolate!
-- Esses são os meus! -- respondeu ela. -- Macaquinho de imitação...
Vieram os gelados, e depois pediram duas águas frescas e um café. Ela furtou-se à cafeína:
-- Já hoje tomei um!
-- Ora, um! -- protestou ele. -- Isso é coisa de meninos, não ouviste dizer que cafeína faz bem...
Voltaram ao trabalho e, quando olhei uma hora depois, tinham terminado certamente com sucesso a equação em que estavam mergulhados. Sorriram um para o outro. E foi ela que se chegou muito a ele para um abraço forte e um beijo prolongado, na boca.
Voltaram às mochilas e fizeram-se à cidade, como se estivessem a caminhar no futuro.
Numa das mesas, ao lado, uma assembleia feminina, que se adivinhava de gente aposentada.
-- No meu tempo, não havia nada disto, agora é o que se vê! -- disse uma delas, incomodada com o beijo.
Mas logo outra laminou com ironia o desastrado comentário:
-- No teu tempo não havia nada disto porque era proibido!
Gargalhada geral.
De facto, até Abril chegar, Portugal era o país onde beijar era um delito comum. Ainda haverá saudosos desses tempos ominosos?
Não sei porquê lembrei-me da espantosa cena dos beijos censurados no admirável "Cinema Paraíso".

domingo, 19 de junho de 2016

MARCELO A PONTA DE LANÇA!

O RECTÃNGULO PORTUGUÊS VISTO POR ZÉ DALMEIDA
Anda meio país com o coração nas mãos porque os empatas da selecção nacional parece terem comprometido os excessos de optimismo pacóvio que, desde o início, marcaram a campanha de Portugal no Euro; e a outra metade debate, angustiadamente, o falhanço das estratégias e do penalti pelo Ronaldo, maldiz os critérios que conduzem à formação da equipa, e zurze a incapacidade para marcar golos, que é a grande festa do futebol. A fanfarronice nacional, privada ou de carácter oficioso, envolve sempre patrioticamente nestes confrontos supranacionais, o prestígio do país. Dois jogos, dois empates, é pouco, muito pouco. Quebra-se o ânimo colectivo do país? Nem por isso. A retórica da vitória continua, e não falta a velha proclamação que, mesmo quando a morte está próxima, enquanto há vida -- há esperança!
O sonho comanda a selecção nacional e disso deu conta, logo a seguir ao empate de ontem com a Áustria, o seleccionador Fernando Santos, com a sua cara de infelicidade nata, a garantir: "Vamos disputar a final e vamos ganhá-la!"
É verdade que ele diz aquilo com tal ar de sisudez que dá para perceber que, se calhar, nem ele próprio acredita no milagre, apesar de acreditar noutros.
Hoje, à hora da bica, um amigo meu, estalou com os dedos e fez "eureka!".
-- Já sei -- disse ele com um contentamento quase infantil. -- Descobri a solução para a vitória de Portugal no Euro!
-- Então, diz lá... -- respondi eu. -- Uma coisa dessas é como ganhar não o Euro, mas o Euromilhões...
-- É tão fácil! -- concluiu com um sorriso malandro o meu amigo. -- Basta colocar o Marcelo a ponta de lança!
À atenção de Fernando Santos.