quinta-feira, 14 de julho de 2016

CAVACO, O VENERADOR!

Há sujeitos que, por mais voltas que dêem, nunca serão capazes de escapar a um espírito larvar de submissão, cumprindo à risca o seu destino para servirem amos alheios. Nessa sua forma de encararem a realidade, afirmam um espírito de subserviência e de espinha com curvaturas dorsais, atentos, veneradores e obrigados aos interesses mais estranhos à matriz essencial da pátria -- uma pátria que idolatram como exercício de retórica, e apenas retórica! Habituados, assim, a essas genuflexões, cumprem a indignidade do seu papel, com a maior das naturalidades.
Um desses sujeitos cinzentos, é Cavaco Silva, ex-Presidente de triste memória, sempre provinciano nas análises e no pensamento, sempre serventuário menor das ameaças comunitárias, sempre basbaque em relação ao estrangeiro. Vejam, esta:
Dizia ontem o "Público" que na reunião do Conselho de Estado, a intervenção do ex-presidente Cavaco Silva foi "um balde de água fria sobre o tom consensual" dos restantes conselheiros. Discutia-se a questão da ameaça de sanções a Portugal. Transcrevemos: "O ex-presidente Cavaco Silva fez uma análise de cariz essencialmente técnico à conjuntura internacional -- o tema de agenda da reunião de segunda-feira -- em que, embora sem nunca se referir às sanções que Portugal arrisca por incumprimento do défice, acabou por sustentar a legitimidade da aplicação de penalizações".
Quer dizer, Cavaco foi a voz do dono do Ecofin, a favor das sanções. Dizem que ficou sozinho na sua vénia à Comissão.
Há sujeitos que nunca serão capazes de escapar ao ao espírito larvar de submissão. Vergonha deles.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

GANHÁMOS!

Habituados às vitórias morais, tivemos agora uma, bem real, na Europa do futebol. Foi bonito ver Portugal vencer a França em Paris. E a vitória, sendo apenas uma vitória no historial do futebol português e europeu, adquire uma dimensão simbólica que a projecta sobre todas as humilhações infligidas por outras instâncias europeias, e, também, sobre um país do sul sobre o qual caiu, nos últimos anos (não é verdade, Alemanha? Não é verdade, Coimissão Europeia? Não é verdade, Ecofin?)
Depois, há um sabor especial por esta vitória acontecer contra a França, em Paris, país e cidade que são pátria da emigração portuguesa. Há na aventura de pobre que é sempre a emigração, uma fronteira de desigualdade e subalternidade cívica que tem a ganga de uma dimensão temporal longa. Também aí, nesse espaço (veja-se o que acontece e como a Europa trata hoje outras emigrações!) não falta um tempo longo de humilhações.
Daí que esta vitória, como e quando, não deixa de originar uma grande festa colectiva e nacional. E em França, onde tudo se passou, foi a vez dos portugueses dizerem, de cabeça levantada e com orgulho:
-- Ganhámos!
A festa está na rua. Um país tão vergado ao peso de imposições de pobreza faz da vitória no Euro a afirmação colectiva de um país. Eu bem aqui tinha escrito: "Bola prá frente, rapazes!" E a bola entrou na baliza francesa, no prolongamento, com um grande chuto de Éder. "Ganhámos, caraças!"

domingo, 10 de julho de 2016

O "MILAGRE" DA MÚSICA

DAVID CHEW
Todos os anos, por esta altura, vêmo-los a andar com os seus instrumentos às costas, e, entre a Moagem, o Casino Fundanense e a Academia de Música, vivem a aventura do Festival Internacional de Música do Fundão, um acontecimento que já vai na 17.ª edição e se tem afirmado como iniciativa cultural de grande qualidade, dentro e fora do país. É uma semana em que, de certo modo, a paisagem humana da cidade se modifica e a música se transforma no centro do mundo. É uma lufada de ar fresco que passa por esplanadas e cafés. Concorrentes, membros dos júris, público acompanhante, aí estão numa estimulante realidade. O Festival cresceu e acolhe hoje disciplinas como Piano, Violoncelo, Canto, Guitarra e Violino. E hoje, no concerto dos laureados, ficou bem nítido o rigor e a exigência das provas. Jovens executantes bem dentro dos cânones, alguns a mostrarem um virtuosismo e uma técnica que fazem sonhar em altos voos.
À fala com o pianista Jorge Moyano, que integra o júri e quase desde a primeira hora se ligou, como entusiasmo ao Festival, falamos do "milagre" da música à escala do país e de como essa democratização é uma revolução tranquila no campo da Educação. De facto, a presença de Jorge Moyano, ao longo dos anos, nesta iniciativa da Academia de Música, é logo um crédito de prestígio invulgar. Eu disse-lhe isso mesmo e apenas lhe fiz um pedido: gostaria de o ver tocar outra vez no Festival Internacional de Música do Fundão. Ele sorriu: "Talvez no próximo ano!"
Outra surpresa foi o concerto de ontem, à noite. Como explicou o Prof. João Correia, estavam à nossa frente grandes músicos: Haroutune Bedelian (violino); Russel Guyver (viola); David Chew (violoncelo); Lorna Griffitt (piano). É o London Music Club Piano Quartet e a sua presença no Fundão e no Festival materializava uma coisa extraordinária: a réplica fundanense do Rio International Cello Encounter. David Chew foi o responsável de mais este "milagre" da música.
A noite encheu-se de estrelas imaginárias com as peças que o Quarteto, durante mais de hora e meia, tocou, trazendo-nos Mozart e Brahms e ainda uma oferta: Schumann.
Que grandes dias!