quinta-feira, 21 de julho de 2016

A VIAGEM DAS CORES EM CARGALEIRO



Quando venho à fala com o Mestre Manuel Cargaleiro, é certo e sabido que a história da porta pintada, poisa na conversa, como se ali estivesse a própria identificação de um país, de uma cidade, da Beira. A porta logo chama o nosso olhar à entrada do fabuloso Museu de Castelo Branco, que não só mostra a obra do artista e as suas colecções, como guarda o valiosíssimo acervo de muitos milhares de peças do seu universo criador. A porta tem expressão cromática que se abre ao território de sonhos, o nó de terra que amamos, e transporta, como jogo simbólico, a caligrafia dos nomes de aldeias e lugares de Castelo Branco, "nomes porosos da sede", como diz o poema de Eugénio de Andrade.
A porta, nas ruínas de casa antiga da cidade, era um monte ou dois de madeira desconjuntada, à espera de um destino de fogo, que as tábuas eram grossas e decerto boas para alimentar fogueiras de lume brando. Mestre Cargaleiro ia com o então presidente Joaquim Morão, a quem se deve toda a memória museológica à volta do mundo do pintor, e logo pediu que a porta fosse salva e depois requalificada.
Fizeram-se estudos. O objecto, dizem, tem mais de 400 anos. Colocadas as tábuas no sítio, o Mestre pintou e pintou-a a sonhar com a Beira. A porta lá está, à entrada do museu, como se fosse um aceno e dissesse ao visitante: entre, viva o deslumbramento do mundo criador de Cargaleiro!
Estava agora a pensar nisto porque um dia destes bati ao batente da casa do Mestre, em Lisboa, para pormos a escrita em dia e falarmos de projectos comuns para o ano que vem.
Como acontece sempre na nossa convivialidade, o chão das palavras transforma-se num caminho que vai pelo mundo, pois o mundo anda sempre a pairar na obra de Cargaleiro, como se a viagem fosse interminável. E aí estávamos nós, a partir da realidade originária, Chão das Servas, passando pela âncora fortíssima de presente e de futuro que é Castelo Branco, a oficina de Sobreda, Lisboa, Paris e Ravello. É uma viagem em que as cores se misturam numa alquimia mágica, a Beira sempre dominante. É um caminho com as cores das plantas silvestres, os tons da terra sáfara, de agro agreste e pobre, a luminosidade do Tejo e do "céu de camponeses". Paris é uma plástica de sinal diferente na obra do pintor e depois vem a Itália e a Fundazione Museo Cargaleiro em Ravello.
As cores, o sol e a luminosidade dos dias, os olhos e a invenção do tempo ou dos tempos, a raíz da olaria na criação da cerâmica, eis o mundo fantástico, uma aventura que nos toca o coração e que, vendo-a, nos alimenta a emoção estética de instantes únicos que enriquecem os sonhos de todas as utopias com que a realidade nos desafia.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

LISBOA, BABEL EM MOVIMENTO

Um dos aspectos mais fascinantes de Lisboa é a densidade humana da sua multiculturalidade, a expressão quotidiana da diversidade de mundos que a cidade, no respirar dos seus fazedores, um certo arco-íris humano,  contém como traço identificador. Penso que é nestes olhares avulsos sobre a realidade urbana onde estamos, que tem sentido a ideia um dia formulada por Pierre Sansot de que as cidades têm a sua poética, uma poesia que decerto poisa, sem pedir licença, nas virtualidades das paisagens físicas e humanas.
Lisboa, que o José Cardoso Pires dizia ser cidade de navegar (caminhar), tem essas singularidades poéticas, para mim bem visíveis no cruzamento de mundos, que podem ser a imagem planetária das crianças, esses continentes de ternura. Sobe-se ao Miradouro da Graça (agora em obras) ou da Senhora do Monte e pressente-se a universalidade da cidade, território de sonhos e de vidas, portento de dinâmicas sociais e de lutas, decerto não faltam no seu pulsar vital angústias, desesperos, gestos de amor e esperanças.
Ainda agora a olhava numa perspectiva global, cidade de horizontes rasgados ao futuro, pensando a escala da sua universalidade, mas logo caminhando pelo bairro da Graça, nas suas ruas afluentes, nos seus rios buliçosos de gente, a minha atenção poisou na música dos vários falares, esses mundos idiomáticos que só têm expressão tão forte quando a cidade tem a sua genética ligada ao mundo, numa história de partidas e chegadas, de regressos e de saudades, como na canção crioula de Cesária Évora.
Então, é nessa música que me fixo, olho famílias transportando consigo memórias longínquas de outras pátrias, os olhos grandes das crianças, e penso que nesta Babel reside, também, uma das riquezas essenciais do coração de Lisboa.
Gosto da música desta Babel em movimento.