sábado, 30 de julho de 2016

FLORESTA DE ENGANOS

1. Para se ajuizar a que ponto chegou a subalternização da política, na sua submissão ao altar dos poderes financeiros, bastará dar alguma atenção à retórica dos que, capatazes ou serventuários do cifrão, constituem superestruturas dominantes desses poderes. É verdade que eles partilham, na maior parte dos casos, a condição de decisores políticos com a de empregados (ou potenciais empregados!) desses conglomerados de interesses económico-financeiros.
Nessa deriva de ambição de riqueza, nessa ânsia de oportunismos, essa gentinha cinzenta, cujo mérito deixa sempre muito a desejar, perdeu toda a vergonha. O expoente máximo dessa falta de respeito pelos valores da política, pela ausência de uma consciência mínima sobre a “res publica”, por esse irrecusável princípio que diz ser a política para servir e não para servir-se, tem um nome: Durão Barroso. Como aqueles cavalheiros que julgam iludir a vigilância pública em relação aos deveres de dignidade, o ex-presidente da Comissão Europeia (sim, é verdade, ele foi presidente da Europa durante dez anos!) logo que a Goldman Sachs – a tal que tem graves responsabilidades na génese da crise financeira e que “martelou” as contas da Grécia… --, lhe acenou com a cornucópia dos milhões, aceitou com a mesma disponibilidade com que o macaco estende a mão à banana.
Talvez o comportamento deste tipo de pessoas ajude a explicar a crise profunda em que a política e a Europa vegetam. Mas há um plano mais imediato, em que se jogam o ser e estar na sociedade, e sintomas desses são altamente reveladores de uma falta de respeito boçal sobre a própria democracia.
Às vezes, porém, tudo isto é olhado pelo cidadão comum, cada vez mais desarmado face ao sistema, com uma banalidade e um encolher de ombros. É o sinal mais evidente da indiferença que mata, ou pelo menos, torna doentes estes dias.

2. Às vezes, parece que os jogos políticos das altas instâncias internacionais – essas que lançam o garrote sobre os povos – além de lançarem sobre os países o ónus da desgraça, sempre alicerçada em despudorada visão onzeneira das sociedades, querem também trocar dos pobres mortais que somos. E fazem-no, na complacência de sorrisos, como acontece com aquele sujeito que preside ao Ecofin, de nome impronunciável, que ainda agora se mostrou raivoso por a Comissão não ter aprovado sanções a Portugal!
Depois, veio a senhora Lagarde, mandante do FMI, fazer um acto de contrição ao dizer que “o sucesso do programa da Troika em Portugal está fortemente em dúvida”. É claro que os autores do relatório não se cansam de afirmar que falta o aumento da tsu e (ainda mais!) maior redução dos custos do trabalho e maior atenção ao sector financeiro, pois claro.
Nestas avaliações nunca são pesadas as questões sociais nem a densidade humana dos dramas que a brutalidade das políticas impostas provocam. Lêem-se estas coisas, mergulha-se na floresta de enganos que tudo isto representa, e não podemos deixar de pensar na máquina de desgraças impunemente geradas.
Nunca entram nas contas as vidas destruídas, a condenação à pobreza, os suicídios dos que deixaram de acreditar no futuro ou já estavam prematuramente mortos pela precariedade ou o desemprego de longuíssima duração.

A floresta de enganos prossegue a sua ação devastadora.

terça-feira, 26 de julho de 2016

INSTANTES SUBLIMES




Torga, que conhecia como ninguém a Serra da Estrela e a definiu como matriz essencial de vida, ensinou a olhar para a monumental madre orográfica com olhos de afecto, capazes de entenderem as macro e as micro realidades, os instantes únicos que as paisagens de horizontes rasgados ou as particularidades de lugares (detalhes para a memória e o coração) transformam em oferendas de deuses, se acaso eles existissem. O poeta fascinou-se pela Serra e esse fascínio deixou-o bem expresso em “Portugal”, quando afirma que a Serra da Estrela concentra em si tudo, do granito e da água, ao queijo e à lã, um mundo que no plano humano, pela força telúrica, também tocou Mestre Gil na sua dramaturgia fundadora do teatro português.
Nestes dias de Verão, mesmo quando o sol está no zénite, acontece quase sempre a suave música do vento, uma brisa suave que lavra o rosto de frescura, ou a surpresa dos fios de água que se descobrem em lugares improváveis, mas a Serra traz sempre consigo o milagre de surpresas e de um tempo que, ao longo do dia, se desdobra nelas como mágicas explosões de luz. Então essa surpreendente luminosidade, com o sortilégio da sua matéria solar, oferece-nos aqueles “pequenos nadas” de que é feita a vida (e estou outra vez a citar o poeta) e que nos deixam suspensos pela força da realidade.
Caminhando pelo planalto do Curral dos Ventos, ao fim da tarde, foi esse mundo que fui encontrar. Um mundo de diversidade tão amplo que em cada passo, em cada metro, a paisagem se transforma. Mudam-se os grandes planos dos horizontes infinitos de montanhas azuis que se diluem no céu, mas na proximidade estão muitos “pormenores de Deus”, como diria Steiner, se ele por cá tivesse vindo. Pedras elevadas à condição de montanhas dentro da montanha, tufos de flores mágicas, outras pequenas, de cor azulada, que rompem à flor da pedra. O sol, agora coado pelo fim da tarde, recorta docemente essa diversidade de imagens que polarizam estes instantes sublimes.